Renda de bilro, técnica tradicional do coletivo Casarão de Rendeiras Sambaqui  | Acervo Pessoal Instagram 2022
Renda de bilro, técnica tradicional do coletivo Casarão de Rendeiras Sambaqui  | Acervo Pessoal Instagram 2022

O artesanato brasileiro é um espelho da imensa diversidade cultural do nosso país. De norte a sul, ele se manifesta como uma forma viva de resistência, criação e preservação de saberes ancestrais. Mais que objetos, são memórias tangíveis moldadas por mãos que herdaram, reinventaram e celebram suas origens. Neste texto, apresentamos cinco nomes cujas trajetórias ilustram a profundidade e a pluralidade do artesanato brasileiro: Gabriela Feitosa, Mestre Cornélio, Rafael Bqueer, Emanoel Araújo e Mestre Bezinho Kambiwá. Suas histórias revelam o entrelaçamento entre tradição e contemporaneidade, território e identidade. 

 

Gabriela Feitosa: bordado contemporâneo no coração do Cerrado

Gabriela Feitosa inovando no tradicional bordado | Acervo Pessoa Instagram, 2022
Gabriela Feitosa inovando no tradicional bordado | Acervo Pessoa Instagram, 2022

Gabriela Feitosa, jovem bordadeira de Brasília, dá novos contornos ao artesanato brasileiro com suas obras em pintura de agulha. Criada numa família de artesãs, Gabriela aprendeu a bordar, tricotar e pintar ainda na infância. Durante a pandemia, transformou o que era hobby em caminho profissional e conquistou o Prêmio Brasília de Artesanato. 

Com fios e agulhas, ela retrata cenas do Cerrado, como o lobo-guará e as flores nativas, explorando o hibridismo entre bordado e pintura. Seu trabalho se destaca pela técnica apurada, pelo olhar poético e pelo compromisso com a identidade regional. Em suas peças, o bordado não é apenas decoração, mas linguagem visual que afirma e reconta territórios. 

Gabriela também se insere numa nova geração de artesãos que compreendem o papel do bordado como forma de comunicação social e política. Muitas de suas obras carregam mensagens que celebram a natureza, os saberes femininos e a delicadeza das coisas simples. Ao bordar paisagens, animais e cenas do cotidiano com fios sutis e cores suaves, ela constrói uma ponte entre a tradição do fazer manual e a estética contemporânea. 

 

Mestre Cornélio: entalhando a alma do Nordeste 

Mestre Cornélio e suas peças esculpidas |Foto: Théo Grahl
Mestre Cornélio e suas peças esculpidas |Foto: Théo Grahl

No Piauí, o artesanato brasileiro encontra em Mestre Cornélio uma de suas vozes mais marcantes. Santeiro e escultor, ele deu nova vida à madeira, criando totens, santos, criaturas do imaginário e cenas do cotidiano nordestino com originalidade inconfundível. 

Autodidata e iniciado pelo pai marceneiro, Cornélio passou da necessidade ao ofício e do ofício à arte. Ganhou reconhecimento no Brasil e no exterior, sendo premiado como melhor artesão do mundo na Argentina, na exposição de Córdoba, em 1995. Suas obras não são apenas esculturas: são testemunhos de um Brasil sertanejo, criativo e resistente. Cornélio não busca perfeição estética; busca verdade expressiva, forma com alma. 

A presença de Cornélio em exposições e livros de arte popular o consolidou como um dos mestres do entalhe, religioso e profano. Com habilidade incomum, ele transita entre o sagrado e o cotidiano, esculpindo desde anjos barrocos até figuras populares como vaqueiros e criaturas do folclore. Seu ateliê é ao mesmo tempo oficina e santuário, onde cada lasca de madeira carrega o sopro da ancestralidade. 

 

Rafael Bqueer: a potência queer e amazônica do fazer artesanal @rafabqueer 

Artista Visual e Multimídia Rafael Bqueer | Foto: Acervo Pessoal Instagram, 2025
Artista Visual e Multimídia Rafael Bqueer | Foto: Acervo Pessoal Instagram, 2025

De Belém do Pará para o mundo, Rafael Bqueer reinventa o artesanato brasileiro em territórios dissidentes. Artista visual, drag queen e ativista LGBTQIAPN+, Bqueer funde performance, moda, carnaval e cultura popular numa obra que é política, poética e radical. 

Seu trabalho explora o afrofuturismo, o pop e o artesanato com humor e crítica. Projetos como a série audiovisual “Themônias” e a exposição “UóHol” homenageiam a cultura marginalizada, valorizando as expressões periféricas com sofisticação. Dentro de sua estética, tecidos brilhosos, sucata reciclada, bordados e figurinos carnavalescos reconfiguram o fazer manual como ferramenta de luta e beleza. Bqueer nos mostra que o artesanato brasileiro também pulsa nas festas, nos corpos dissidentes e na arte de rua. 

Além de performer e artista visual, Bqueer atua como educadora e curadora, levando sua arte para instituições culturais e espaços educativos. Sua estética, marcada pelo exagero e pela exuberância, é também um manifesto contra o apagamento das culturas negras e LGBTQIAPN+ na Amazônia. A cada nova criação, ela constrói um território de liberdade, onde o fazer artesanal dialoga com a política do corpo e da memória. 

 

Emanoel Araújo: entre o museu e o gesto ancestral 

O Artista e artesão Emanoel Araújo em meio a suas criações | Foto: Vera Moutinho, 2014
O Artista e artesão Emanoel Araújo em meio a suas criações | Foto: Vera Moutinho, 2014

Nascido no Recôncavo Baiano e falecido em 2022, Emanoel Araújo foi um artista que dedicou a vida a valorizar as matrizes africanas do artesanato brasileiro. Escultor, gravador, curador e fundador do Museu Afro Brasil, ele trabalhou para que a contribuição negra fosse reconhecida como central na formação cultural do país. 

Sua arte une geometria moderna a cores e formas inspiradas nos orixás, nas mãos dos ourives e nas técnicas de marcenaria aprendidas com o pai. Como curador, organizou exposições históricas, como “A Mão Afro-Brasileira”, e fundou o Museu Afro Brasil, com acervo que vai do barroco à arte popular. Araújo reposicionou o artesanato como base de uma arte brasileira mestiça, viva e ancestral. 

Ao longo de sua trajetória, Araújo também rompeu fronteiras entre o erudito e o popular. Nas suas curadorias, colocou lado a lado obras de arte moderna e peças de ceramistas anônimos, esculturas de grandes nomes e bonecos de barro do sertão. Sua visão de museu era inclusiva, plural e voltada à reparação histórica. Ele acreditava que, ao valorizar o artesanato brasileiro, estava resgatando a dignidade de milhões de criadores invisibilizados. 

 

Mestre Bezinho Kambiwá: espiritualidade talhada na madeira 

Mestre Bezinho na 19ª edição da Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenearte) | Foto: Maluma Marques
Mestre Bezinho na 19ª edição da Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenearte) | Foto: Maluma Marques

No sertão de Pernambuco, o artesanato brasileiro se expressa com força e espiritualidade através das mãos de Mestre Bezinho Kambiwá. Indígena da etnia Kambiwá, Bezinho aprendeu a esculpir madeira com o avô e hoje é reconhecido como um dos mestres da cultura popular pernambucana. 

Suas peças, feitas com madeira de umburana, retratam o Praiá — figura sagrada dos rituais de seu povo —, santos populares e animais da caatinga. Ao esculpir o Praiá, Bezinho eterniza o Encantado em forma de arte, preservando sua cultura e inspirando novas gerações. Seus trabalhos já foram exibidos na Fenearte e em diversas feiras nacionais, além de serem comercializados em galerias especializadas. 

Mais que esculturas, são manifestações de identidade, pertencimento e continuidade. Mestre Bezinho demonstra que o artesanato brasileiro também é um modo de existir e resistir. Sua atuação como mestre educador, transmitindo saberes às novas gerações de sua aldeia, amplia o impacto de sua arte. Com cada peça, ele firma um pacto com o futuro: garantir que a memória de seu povo sobreviva através da madeira esculpida. 

 

Um país tecido a muitas mãos 

Trabalho artesanal com barro; Feira Nacional de Artesanato | Foto: Divulgação, 2025

O artesanato brasileiro não cabe numa única definição. Ao conhecer as trajetórias de Gabriela Feitosa, Mestre Cornélio, Rafael Bqueer, Emanoel Araújo e Mestre Bezinho Kambiwá, compreendemos como ele é instrumento de expressão cultural, afirmação política e valorização de territórios. Não se trata apenas de técnica ou estética, mas de visão de mundo. De passado que pulsa no presente. De saber que se reinventa sem se romper. 

Celebrar esses mestres é reconhecer a pluralidade de um país onde cada região, cada povo, cada mão tem algo a dizer. É apostar em um futuro que respeite os fios que nos trouxeram até aqui. É entender que a verdadeira riqueza está nas tramas invisíveis que nos ligam uns aos outros. É também uma forma de estimular políticas públicas e investimentos voltados ao fortalecimento do setor artesanal como pilar do desenvolvimento sustentável. O artesanato brasileiro tem potencial de geração de renda, de preservação ambiental, de turismo cultural e de promoção da cidadania. Fortalecer seus protagonistas é garantir que essa tapeçaria viva siga crescendo com dignidade, beleza e autonomia. 

 

Referências Bibliográficas 

AGÊNCIA SEBRAE. Jovem brasiliense se destaca com a produção de bordados artesanais. Disponível em: https://df.agenciasebrae.com.br/cultura-empreendedora/jovem-brasiliense-se-destaca-com-a-producao-de-bordados-artesanais/. Acesso em: 14 maio 2025. 

ARTE POPULAR DO BRASIL. Mestre Cornélio. Disponível em: http://artepopularbrasil.blogspot.com/2011/01/mestre-cornelio.html. Acesso em: 14 maio 2025. 

BQUEER, Rafael. UóHol. Portfolio. Disponível em: https://cargocollective.com/rafaelbqueer/UoHol. Acesso em: 14 maio 2025. 

ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. Emanoel Araújo. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa/200/emanoel-araujo. Acesso em: 14 maio 2025. 

FOLHA DE S. PAULO. Emanoel Araújo, genial e contraditório, revirou as raízes negras do Brasil. Caderno Ilustrada, 07 set. 2022. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/09/emanoel-araujo-genial-e-contraditorio-revirou-as-raizes-negras-do-brasil.shtml. Acesso em: 14 maio 2025. 

PROJETO AFRO. Rafael Bqueer (perfil). Atualizado em 4 jun. 2024. Disponível em: https://projetoafro.com/artista/rafael-bqueer/. Acesso em: 14 maio 2025. 

REDE ARTESOL. Mestre Cornélio. Disponível em: https://redeartesol.org.br/rede/mestre-cornelio/. Acesso em: 14 maio 2025. 

REDE ARTESOL. Mestre Bezinho Kambiwá. Disponível em: https://www.artesanatodepernambuco.pe.gov.br/pt-BR/mestres/bezinho-kambiwa/mestre. Acesso em: 14 maio 2025. 

SALLUM, Samanta. Brasiliense se destaca no bordado e ganha prêmio. Blog Capital S/A – Correio Braziliense, 02 mar. 2022. Disponível em: https://blogs.correiobraziliense.com.br/capital-sa/2022/03/02/brasiliense-se-destaca-em-bordado-e-ganha-premio/. Acesso em: 14 maio 2025.