Para comemorar o dia Internacional dos Povos Indígenas, dia 9 de agosto, enaltecemos o Tipiti. Ferramenta produzida, de forma artesanal, com fibras de arumã ou jacitara, que extrai substância tóxica da massa da mandioca, transformando-a em farinha própria para consumo.
A forma de produzir o artefato, com origem estimada no período pré-colonial, preserva os costumes das comunidades indígenas, mantendo vivas as tradições seculares e a transferência de conhecimento entre os povos. O tipiti mais conhecido é o confeccionado em formato cilíndrico, com cerca de dois metros de comprimento e extremidades reforçadas para garantir elasticidade e resistência durante a prensagem da massa de mandioca.
Pesquisa do Instituto Mamirauá “Tipiti: uma tecnologia secular dos agricultores da Amazônia” aponta que os trançados indígenas apresentam técnicas manuais que exigem do artesão, além de criatividade, uma boa dose de coordenação motora. Segundo o estudo, o tipiti é identificado conforme a técnica de trama aplicada. Durante o levantamento, foram localizados três tipos de tramas: teçume caminho de bicho; teçume boroari; e teçume mata-mata.
Produzido artesanalmente, o tipiti agilizou o preparo da farinha e preservou os saberes indígenas
Representante indígena mostra as fibras de arumã usado para fazer o tipiti. (Cozinha Ancestral, 2024)
Para extrair da goma da mandioca a manipueira, líquido com nível elevado de ácido cianídrico, substância extremamente venenosa, os indígenas mantêm o costume de seus antepassados de utilizar o tipiti, instrumento confeccionado artesanalmente com plantas nativas da região amazônica.
A partir da extração do líquido da mandioca, pelo tipiti, os povos indígenas além de prepararem a farinha de mandioca, também produzem o Tucupi, ingrediente de um dos pratos mais famosos do Norte do país, o Tacacá.
A concepção do Tipiti não ocorreu ao acaso. Antes da ferramenta, as mulheres passavam horas apertando a massa com as próprias mãos ou usando peneiras e, cestos pesados e mesmo assim,
Segundo a pesquisadora Janina Falco, existiam outros processos para extrair o líquido da goma da mandioca. As mulheres de comunidades indígenas como Nambiquara e Tupinambá descascavam a mandioca, ralavam em uma pedra até obter grãos finos, em seguida pegavam essa polpa em grandes quantidades e as espremiam manualmente para extrair a manipueira. Ainda ficavam sinais dos resíduos tóxicos na goma. Com a introdução do Tipiti, o esforço físico foi reduzido e a extração da substância ficou ritmada e mais rápida de ser realizada.
O tipiti revela arte retratada com a linguagem da natureza
O instrumento está relacionado, de forma figurativa, a espécie de cobra sucuriju, pois ora encolhe ou espicha, como o próprio animal faz. (Galvão, 2024, p.6), enquanto como é trançado, traz padrões gráficos similares ao dente de cotia, destacando desenhos parecidos com as escamas do peixe pirarucu e ao tronco da palmeira. A extremidade inferior do tipiti traz aspectos similares ao da raiz de sororoca, à unha do bicho-preguiça e ao rabo da ariranha (Galvão, 2024, p.11).
Para produzir o Tipiti, os artesãos seguem os saberes dos povos indígenas e traçam, de forma manual, talos de arumã, seguindo uma padronagem que vai dando forma e flexibilidade ao instrumento.
A ferramenta em seu formato mais utilizado, o cilíndrico, possui uma abertura na extremidade superior na qual é colocada a massa da mandioca já triturada, em seguida iniciasse um processo de esticar e contrair o instrumento realizando pressão suficiente sobre a massa para a extração do líquido da goma e contribuir com a secagem da farinha.
Trançados revelam costumes diversos praticados pelos povos originários
Tipitis em tamanhos diversos. (Coisas da Roça, 2021)
Cada comunidade indígena confecciona seu tipiti conforme os ensinamentos herdados pelos seus ancestrais, o que permite diversos formatos e trançados. Dona Irene, da comunidade indígena de São Francisco do Bauana, entrevistada para o estudo PIBIC do Instituto Mamirauá – Tipiti: uma tecnologia secular dos agricultores da Amazônia”, ressalta que como ela produz o instrumento vem da observação do modo de fazer de sua avó e que esse conhecimento passou por várias gerações de sua família.
A artesã confecciona o tipiti em formato de cilindro de malha trançada, de cerca de dois metros de comprimento, com extremidades reforçadas. Para isso, ela utiliza fibras do cipó arumã (Ischnosiphon sp.) e da palmeira jacitara (Desmoncus polyacanthos), precisando de aproximadamente 16 toras (cerca de 65 talas) de cipós para alcançar o tamanho ideal.
Alguns formatos de tipiti
Tipiti Jacá – usado pelos indígenas guarani, apresentava o formato de cesto trançado, no qual se colocava a mandioca ralada. No entanto, era mais pesado para ser utilizado pelas mulheres e o resultado não era eficiente, pois havia vãos entre os trançados, fazendo com que a massa da mandioca caísse por esses espaços.
Tipiti de torção – usado pelos indígenas Kaiapó, era confeccionado no formato de cesto alongado flexível, parecido com uma pequena canoa. Para extrair o suco da massa era necessário torcer o cesto entre as mãos, no entanto, esse formato deixava escapar líquido no momento da torção.
Tipiti cilíndrico – apresenta formato levemente cônico e comprido. A forma de trançá-lo é a ideal para a extração correta do líquido da massa da mandioca: ao esticá-lo, as tranças deslizam, o comprimento aumenta e a circunferência se reduz; ao comprimi-lo, ocorre o inverso, encurtando o corpo e ampliando seu diâmetro.
Desafio tecnológico: Mandioca com alta concentração de veneno estimula a criação do tipiti
Líquido extraído da mandioca brava ( Breno Lerner, 2021)
A existência de ferramentas como o tipiti está diretamente ligada ao cultivo da mandioca, planta nativa das Américas e compõe a base alimentar de muitas comunidades.
Entre os diferentes tipos de raiz, a mais utilizada na produção da farinha é a mandioca-brava, conhecida por sua alta concentração de ácido cianídrico, substância tóxica. Por esse motivo, foi necessário aplicar técnicas específicas de extração da goma e secagem, como as proporcionadas pelo tipiti, que garantem a segurança do consumo e revelam a engenhosidade dos saberes indígenas no manejo de alimentos.
Mesmo com uma infinidade de mandiocas “não venenosas”, muitas comunidades mantêm o plantio de até 90% de mandioca-brava. Pesquisa do Jardim Botânico de Nova Iorque aponta que essas raízes rendem mais e possuem melhor resistência a pragas, o que justifica o longo processo de extração do veneno.
O tipiti traz um manancial de saberes indígenas, por intermédio de atividades artesanais passadas por gerações, valorizando a produção local de forma mais sustentável. Seu trançado manual e a utilização do ecossistema da Amazônia para compô-lo ressaltam a importância em manter viva as tradições ancestrais, preservando a conexão com os povos originários e a diversidade cultural do Brasil.
A riqueza cultural da produção do tipiti, não está só na forma de trançá-lo, mas também na forma de extrair as plantas que compõe o artefato.
Utilizadas na confecção de ferramentas como tipiti, o arumã e a palmeira jacitara, possuem processo de extração rico em técnicas passadas por gerações. Para extrair do arumã (Ischnosiphon spp.), os insumos necessários para a produção do tipiti, é preciso se deslocar até áreas sombreadas e úmidas da Amazônia, tais como os igapós e matas secundárias.
A colheita da planta leva em consideração o tempo de vida da vegetação e tem como uma das preocupações a raspagem dos colmos para a retirada da camada externa e, em seguida, é submersa para lavagem em igarapés para cicatrização natural.
Esse formato de extração proporciona às talas tom mais claro e brilho. Conforme a resistência das fibras, elas podem ser usadas com ou sem casca. Todo o processo é feito com manejo especial durante a poda, permitindo que os novos talos sejam desenvolvidos sem comprometer o ecossistema.
Com uma extração tão peculiar quanto ao do arumã, a jacitara também possui um ritual próprio que valoriza todo o processo de extração.
Da espécie de palmeira escandente (que cresce de forma ascendente) com caule espinhoso, a jacitara possui um nível de complexidade maior. A vegetação é encontrada em áreas alagadiças e em margens de rios. A planta, durante seu crescimento, forma uma espécie de touceiras (formas agrupadas e densas de planta), podendo chegar a uma liana (espécie de trepadeiras). Seu estipe (caule) é coberto por bainhas espinhosas que devem ser removidas de forma cuidadosa. Cortado no formato de tiras bem finas, seu interior apresenta formato duro e resistente (OLIVEIRA; SILVA; PEREIRA, 2006, p. 119–121).
Mesmo sem ter a flexibilidade do arumã, a jacitara possui maior durabilidade, sendo procurada por pescadores e artesãos locais. Sua colheita conta com a participação de membros da comunidade e, para produzir um tipiti de aproximadamente 2 metros, são necessárias 65 talas da planta.
O conhecimento sobre o uso da jacitara, assim como do arumã, reflete a engenhosidade dos povos amazônicos e sua profunda conexão com o meio-ambiente.

