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Entrevistas

Diênita Puyanawa e o resgate da cultura de seu povo

07/09/2026Postado por: Equipe CRAB

Conversa Fiada com Diênita Puyanawa, artesã indígena de Manso Lima, Acre. Nesta conversa conduzida por Alice Meditsch, Diênita compartilha sua história e a relação do artesanato e seu território.

06-11-25_FotoRossana.Fraga_SeminárioCRAB_baixa_169.JPG Diênita Puyanawa em mesa do III Seminário Mãos que Promovem o Brasil. Foto: Acervo CRAB , 2025.

O projeto Conversa Fiada é uma série de entrevistas com pessoas que trazem pontos de vistas inventivos sobre a relação com o fazer artesanal e sua rede. São artesãos inovadores, artistas visuais, designers, pesquisadores, criativos, professores e muitas outras pessoas que estão pensando sobre e fazendo artesanato, trazendo desafios, soluções e inovações para o setor.

Essa série é uma série especial em que entrevistamos participantes do III Seminário "Mãos que Promovem o Brasil", que também fizeram parte do Mosaico Amazônia Legal, o Mapeamento Cultural do Artesanato Brasileiro. Para saber mais, baixe nosso e-book em: https://crab.sebrae.com.br/pesquisa-desenvolvimento/pd-mosaicos/mosaico-para-mapeamento-cultural-do-artesanato-brasileiro

Alice Meditsch, especialista do CRAB entrevista Diênita Puyanawa, de Manso Lima no Acre. Ela conta sobre o resgate da cultura de seu povo e como isso tem se manifestado no artesanato.

Diênita - É, eu sou Diênita, no nosso idioma eu me chamo Patxuã. do Acre, do estado do Acre, município de Manso Lima, do povo Puyanawa. Tenho 34 anos, sou artesã do nosso povo, sou agente de saúde, faço pinturas corporais também, o nosso nãde, que é o jenipapo.

Alice - Estava te contando que eu te conheci através do material que a gente fez, do Mosaico. Mas aí eu também te escutei no podcast da Rádio Novelo, que fala um pouco sobre o resgate cultural do povo Puyanawa. E aí queria que você falasse um pouquinho sobre isso: como é que tem sido esse processo, como é que foi, onde vocês estão agora e como tem sido o trabalho de vocês?

Diênita - Sobre a história do nosso povo, é uma história assim, um pouco, um pouco não, foi uma história sofrida. Foi uma coisa que aconteceu em 2010 no nosso povo. E o acontecimento foi tipo uma renovação, para a gente se alertar para a nossa história que estava sendo apagada.

Tivemos um massacre, tiraram a vida dos nossos parentes para que não praticassem a nossa cultura. E em 2010 o que aconteceu foi um acontecimento para a nossa liderança, nosso cacique. Na época ele era crente e hoje ele é o nosso líder espiritual e vereador, o cacique geral do nosso povo. Então foi um despertar para o nosso povo.

Acre - Puyanawa (8).jpg Acessórios produzidos pelo povo Puyanawa. Foto: Sharlene Melanie /Acervo CRAB , 2025.

Alice - E aí nesse despertar, como que antes você se relacionava com o artesanato? E como foi depois?

Diênita - Antes de 2010 a gente não praticava arte. Algumas pessoas tinham aquele dom, mas não sabiam. E agora, ultimamente, a gente está em torno de 53 artesãos na nossa comunidade. Temos 35 artes, mas só praticamos 34, a cerâmica a gente não pratica porque já se foi. Porque lá atrás, há 100 anos, quando surgiu o povo Puyanawa no nosso espaço, eles praticavam a cerâmica, foi encontrado um pedaço de pote da época. O que aconteceu em 2010, foi uma renovação e de lá para cá a gente foi descobrindo coisas, consagrando a ayahuasca e o rapé que também trazem sabedoria para a gente, o conhecimento das artes, das pinturas. E aí foi vindo esse resgate de quais artes iam trabalhar. A miçanga já é o segundo passo. Antes só usavam pena e as presas dos animais que viviam na mata. Hoje a gente usa miçanga, pena, presa dos animais, os ossos, mas preservando sempre a natureza, não tirando para explorar, sempre com cuidado.

Alice - E qual é a arte que você se identifica mais?

Diênita - Ultimamente eu me identifico mais com a miçanga e com as pinturas.

Acre - Puyanawa (9).jpg Acessórios produzidos pelo povo Puyanawa. Foto: Sharlene Melanie /Acervo CRAB , 2025.

Alice - E como é que é a criação das peças com miçanga?

Diênita - Com a miçanga, se você tem uma encomenda, vai fazer aquela arte que a pessoa está querendo, mas também podemos fazer uma arte para nós. Tipo eu, que consagro a medicina: essa daqui é uma inspiração da ayahuasca, juntamente com a outra artesã, fizemos juntas. A gente teve tipo uma conexão na força espiritual. Eu pensei que eu gosto sempre da jiboia, das pinturas da jiboia. Eu falei, repassei para ela o que tinha recebido e pedi que estudasse para mim como fazer, para a gente fazermos juntas. E surgiu.

06-11-25_FotoRossana.Fraga_SeminárioCRAB_baixa_165.JPG Diênita Puyanawa em mesa do III Seminário Mãos que Promovem o Brasil. Foto: Acervo CRAB , 2025.

Alice- E como que vocês fazem? Porque é um processo super minucioso e trabalhoso.

Diênita - Esse daqui (mostrando o acessório que veste no pescoço) é na máquina, com a linha encerada, que é um ponto, vem trançando. Esse daqui já é outro com a linha de nylon, que é fazendo os trançamentos.

Alice - E essa aqui? (aponto para a sua pulseira)

Diênita - Essa daqui é do meu time de coração.

Alice - Vasco, gente! Faz parte também, né?

Diênita - Claro! Ainda mais que está aqui no Rio de Janeiro. Isso foi um presente que eu ganhei no nosso festival, que eu fui desfilar. A minha família, aliás, é toda vascaína. Minha mãe, meus filhos, as minhas irmãs todas.

Alice - Adoro! O brasileiro é aquele que nunca desiste, né?

Diênita - A simbologia da resistência também está aqui.

Alice - Muito bom! E quando você fala de máquina, o que é essa máquina para fazer?

Diênita - A máquina é tipo uma tábua que algumas pessoas fazem. Coloca o pente lá na máquina e coloca a linha e amarra. Aí você vai fazendo a arte. E vai trançando, passa a linha por baixo e volta por dentro da miçanga.

Alice - E as cores? Tem alguma relação de cor, simbologia?

Diênita - Tem. Porque as cores têm que ser combinando. É uma coisa que é uma arte, então é para ser bonita, uma coisa bem bela. Justamente esse ano a gente já teve uma oficina do Sebrae lá falando sobre as combinações de cor, que já vem ajudando também.

Quando você tem um conhecimento na medicina, a gente já vê, vai fazendo uma coisa ali que a natureza mesmo vai dando ensinamentos e sabedoria para a gente, não é o caso de todos os artesãos da nossa comunidade.

Alice - E como é que é a relação dos homens e das mulheres com o artesanato?

Diênita - A gente tem em torno de 53 artesãos, a maioria são mulheres e são jovens também. A nossa maior artesã mais velha, no trabalho e na idade, tem 53 anos. É uma esposa do cacique. Aí a gente tem os idosos também. A de cipó é um senhor de idade já de 64 anos. Só tem ele que faz de cipó. E tem a questão da lança, do arco também, que é parte dos homens que fazem. As mulheres já não fazem.

Alice - E como é essa questão de ser o único que faz com cipó? Isso está sendo repassado?

Diênita - Ano passado eu fui contemplada com uma bolsa pela CI (Conservação Internacional), e aí apliquei umas oficinas na comunidade de miçanga e palha, que poucos fazem, do cipó e da pintura. A do cipó ele quem repassou, teve bastante gente, mulheres, jovens e crianças. É uma técnica que não é fácil, a gente foi ver na mata qual é o tipo de cipó, como que tira... o processo todo. Não é fácil, porque arte é arte, também não está ali de mão beijada. Aí ele fez essa oficina.

Alice - Como é que tem sido a divulgação do trabalho de vocês?

Diênita - Está sendo muito bom, muito importante porque o artesanato na minha comunidade é a segunda maior renda que a gente tem, a primeira é a mandioca. E no nosso festival, o Atsa Puyanawa, em julho, é uma fonte para vender as nossas artes quando vão as pessoas de fora. A gente tem no Instagram também.

O Sebrae chegou oferecendo as oficinas, algumas pessoas estão participando, estão querendo aprender mais como é, a questão de preço, de valorizar o seu trabalho, seu conhecimento e tal, as cores, as combinações e tudo. É uma oportunidade boa para nós

Alice - Falando nessa comercialização, onde que vocês têm conseguido vender a arte de vocês?

Diênita - A gente tem o festival justamente para isso. O cacique teve a ideia junto com outros parentes de fazer o festival. Ele traz muitos estrangeiros, gente de fora de todo o Brasil para conhecer a cultura do povo Puyanawa e justamente as artes. Vendemos para as pessoas de fora, nas redes sociais e quando tem vivência. Semana passada eu estava participando de uma vivência com o pessoal da Suíça. A pessoas de fora vêm para conhecer a história do povo, como é, como nós vivemos e tal e passam uma semana com a gente.

Alice - E o que o pessoal mais se surpreende quando vocês trocam?

Diênita - Eles se sentem bem e felizes, porque estão na natureza. Tem gente que mora na cidade que quer sentir a natureza, sentir paz, felicidade, alegria no coração. Tem gente que vem em busca de cura. Falam que se sentem muito bem, outros querem voltar, outros não querem nem ir embora. Mas para morar na aldeia não é querer, tem que casar com um parente para ficar.

Alice – E como você vê a questão do lidar com o tempo? Você nota alguma diferença entre as gerações do seu povo para lidar com o tempo do artesanato?

Diênita - A gente não tem tanta dificuldade, não tem tanto impedimento de alguma coisa, porque graças a Deus não é que nos outros cantos. Eu como artesã já ensinei a minha irmã, vou ensinando quem precisa, justamente a oficina foi para isso, para mais gente que queira aprender. Tem gente que tem aquele dom e não sabe. As oficinas que a gente deu, tiveram muitos jovens. É bom ter essas oficinas para ir descobrindo o seu dom. Nós vamos passando de geração em geração e os mais novos têm tido interesse. Eles só estão tentando entender qual.

A tecnologia chegou como um avanço muito grande. As crianças já nascem com o celular na mão, não é diferente da cidade também para a aldeia essa questão da tecnologia. Mas tem jovens que tem aquele interesse realmente. Meu filho tem 18 anos, ele toma medicina, toca, canta, bate tambor. A miçanga para a pintura não foi o dom dele, mas já para a paia ele se descobriu, porque a minha avó também tem essa paia.

Alice – E nesse processo do resgate, conta um pouco para a gente como é que foi o processo de conscientização? Como foi reconstruir essas técnicas e saberes?

Diênita - Depois que aconteceu lá em 2010, a gente conseguiu entender realmente o que tinha acontecido, o que era para fazer junto com liderança. Nós somos 753 pessoas divididas em duas comunidades: Barão e Ipiranga. Em 2011, 2012, o cacique junto com algumas pessoas que estavam tomando medicina começamos a entender e compreender o que foi que aconteceu. Aí de lá a gente veio aprendendo, descobrindo o que era para fazer.

A menina que estudou junto comigo, a minha faixa (o acessório com desenho de jiboia que falamos antes), ela já tem um dom já, desde sempre, desde pequena. Só que de lá para cá que ela foi descobrir e começou a fazer arte com as miçangas, hoje ela é considerada a melhor artesã na arte da miçanga.

Alice – Como que as pessoas foram se identificando e começando a trabalhar com artesanato?

Diênita – A partir de 2015 já foi evoluindo, cada vez mais, foi dando renda para as pessoas. Graças a Deus na minha comunidade a gente não tem gente carente, mas foi uma forma de ganhar seu próprio dinheiro. A pessoa que nunca tinha pegado começou a ver "ah é bom, então bora fazer".

Alice – E sobre a sua outra atuação, como agente de saúde?

Diênita – Eu estou há cinco anos como agente de saúde. O que eu faço na minha comunidade como agente é encaminhar paciente para o hospital, fazer visita domiciliar nas casas dos idosos e das crianças, fazer pesagem, etc. Nós agentes de saúde, temos o olhar da nossa comunidade.

A gente ainda não tem médica e enfermeira indígena, mas o restante tudo são indígenas. A gente tem a agente de endemias, técnico de enfermagem. De tudo um pouco a gente tem na nossa comunidade. A escola também é indígena, os professores, a diretora, tudo são indígenas de lá.

Alice - E dentro da escola é trabalhado a questão do artesanato, também?

Diênita – Não tanto o artesanato, mas sim o nosso idioma. Porque também foi perdido. A gente tem o professor que repassa aos alunos para falar o nosso idioma.

Alice - E como é que foi para você aprender? Você já sabia o idioma?

Diênita – Lá atrás teve o massacre, teve um coronel, o coronel Manso. Tanto que o município é Manso Lima por causa desse homem. Ele proibia as nossas antigas a falar na língua, a cantar, fazer a tradição do nosso povo. De lá para cá a gente se perdeu, muitos morreram, eles matavam, se falassem. Alguns fugiram. A minha bisavó, a mãe do meu vô, foi pega na mata com cachorro, aquela parenta indígena da floresta mesmo. A gente foi descobrindo toda a história do povo. Foi muito sofrimento, entendeu?

Aí de lá para cá os que foram fugindo foram repassando, foi renovando, em 2010 aconteceu o que aconteceu e de lá para cá a medicina foi nos ensinando.

Alice - Você estava contando que o processo de produção das peças com artesanato, é um processo que está muito ligado à relação espiritual. Eu imagino o quanto que todas essas peças carregam tudo isso, seu significado, sua energia.

Diênita – Tudo tem um significado, tudo tem uma luta atrás. Eu imagino assim, a identificação de quando você olha a peça que você fez depois de ter passado por tudo isso. A maioria das pessoas quando compram nossas artes, elas gostam de perguntar o significado. A maioria é resistência, força, ensinamento, conhecimento, proteção.

Alice - E como é que você vê isso das peças sendo vendidas?

Diênita – Eu estou vendo assim uma evolução muito grande, muito boa para nós e para o nosso povo. Evolução de aprender, de conhecer mais. Nunca é demais você aprender. Então eu vejo desse lado aí, que sempre pelo lado bom. Que a gente possa transmitir uma boa energia para as pessoas.

Alice - Essa questão do ritual faz todas as peças carregarem a sensibilidade dos artesãos que as produziram. Porque é um trabalho que envolve muita emoção, né? Por outro lado, eu estava pesquisando algumas peças do povo Puyanawa na internet e vi peças sendo vendidas em plataformas estrangeiras de importação. Como é que vocês vêem isso? Eu fiquei pensando quem será que está fazendo essas peças? Seriam peças feitas aqui?

Diênita - Mas eu acredito que seja alguém que faça e vende para fora. Nós não vendemos assim para loja, essas coisas. A gente colocava na casa do artesão. E a gente vende diretamente para as pessoas, se você comprar, você vai saber o significado. O povo Puyanawa produz algo mais interno, não chegamos a esse ponto de sair, de querer ensinar. Porque o abrimento da arte não é qualquer pessoa, não é para qualquer pessoa também.

Alice - Como você estava falando, cada pessoa também tem uma identificação com um tipo de arte, né?

Diênita – Com certeza.

Alice – E como é o acesso aos materiais que não estão disponíveis lá, como as miçangas?

Diênita – Esse daqui foi a minha mãe que fez, ela trabalha com pena e miçanga natural também. Lá a gente não tem tanto animal, então ela compra de outras pessoas. Ela faz essa arte para nos enfeitarmos para as nossas festas tradicionais: do dia 19 (de abril) dos povos originários, da demarcação da nossa terra e no dia 17 em julho o festival de seis dias.

A miçanga a gente compra na cidade, que está muito cara. E às vezes a gente pede em São Paulo também, mas o frete é muito caro. Essa parte que o Sebrae chegou para a gente foi boa, porque nós que somos artesãos temos que valorizar o nosso tempo, o nosso trabalho e ver o valor que sai da miçanga para você tirar o seu lucro. Porque você não vai fazer arte só para vender e ficar sem nada.

Alice - Para dar uma ideia para a gente, qual o tempo de produção dessas peças?

Diênita – Se eu pegar uma dessas daqui deste tamanho em uma semana, eu termino ela.

Eu fiz quatro faixas em 1 mês dessas daqui, só que mais larga e menor um pouco. Só que eu estava consagrando a medicina também. A pulseira a gente leva dois dias, um dia, depende o tamanho da miçanga.

Porque a gente que é artesão já tem aquela rotina, já no ritmo. Quando eu começo a arte, eu passo o xiruwe, aí já vai surgindo a ideia, a gente vai fazendo, praticando e dali vai surgindo um novo aprendizado e novas artes.

Alice - Não tem um desenho que vocês fazem antes para executar?

Diênita – Algumas artes sim, mas não todas. Quando é encomenda, se você já tem aquela pintura, se você já fez aquelas artes, você pode repetir, senão você começa e dali vai surgindo algo novo. Às vezes você já tem a pintura corporal e passa para a tecelagem.

Alice - Vocês chegaram a fazer projetos com alguma outra iniciativa?

Diênita – Estamos ainda trabalhando internamente. O único projeto que teve da arte foi essa bolsa que eu ganhei da CI, junto com duas colegas e minha irmã, a Carol. O tema do projeto era o resgate dos nossos ancestrais, para resgatar a palha que cobre a casa, o cipó e as miçangas. E na pintura também, o projeto era para ensinar alguns jovens para nos ajudarem durante o festival, porque são poucos e recebemos em torno de 100 a 80 pessoas. O projeto tinha como objetivo resgatar algo novo para nós e resgatar o que foi lá atrás.

Alice - E tem algum projeto que você sonha?

Diênita – Justamente esse resgate da cerâmica, mas infelizmente para nós está um pouco mais difícil. É uma luta por reconhecimento mesmo, porque nessa parte aí só quem faz somos nós mulheres. E é um sonho assim que seria uma conquista enorme.

O povo Puyanawa surgiu lá no 7 de Setembro, a nossa aldeia sagrada, onde eu tive o prazer e o privilégio de conhecer, quatro vezes já, junto com mais três mulheres. Atualmente, nós moramos na beira da estrada, perto do município, e o 7 de Setembro é dentro da mata, com três a quatro dias para chegar lá andando na floresta, subindo e descendo. 2019, foi a primeira vez que a gente foi lá, depois de 100 anos, as primeiras mulheres a pisarem lá.

Foi uma experiência muito surreal, muito única na nossa vida. Estar no nosso espaço sagrado, no nosso coração do Povo Puyanawa, a gente sente muita emoção, porque pode apagar a memória do celular, de uma foto, mas do nosso coração, do nosso pensamento, jamais será apagado. Agora quase todos os anos a gente vai para lá, 15 mulheres já foram lá desde que a gente foi.

Alice - E por que foram só as mulheres?

Diênita - Porque depois do processo em 2010, o cacique descobriu junto com 12 homens no dia 12 de junho de 2012. A nossa terra é demarcada e todos os anos têm a limpa do nosso território, para separar a nossa parte do lado do branco. E lá na cabeceira do Bom Jardim, que é o limite da nossa terra, depois de andar uma base de uma hora e pouco chegamos na aldeia sagrada que já é fora. A gente tem um sonho conjunto, do povo fazer a compra dessa terra. O meu filho foi lá de novo junto com outros parentes e encontraram mais três malocas, mais três aldeias como barro da cerâmica e tudo.

Alice - Vocês estão tendo algum tipo de apoio para o registro desses saberes ou registrar essa cerâmica?

Diênita - Esse ano o INCRA doou um pedaço de terra que chega perto do 7 de Setembro e foi uma antropóloga e um bióloga junto para registrar isso. A gente tem cerca de 28 mil hectares.

Alice – E relacionando ao tema do seminário, como está para vocês a questão do meio ambiente, desmatamento e mudanças climáticas? Vocês têm sentido muito?

Diênita - Graças a Deus que não. Há alguns anos, o nosso município teve queimada e tudo, mas como a nossa terra é marcada, sempre o IBAMA está por lá. E tem a escola já para ensinar, eu já passo nas casas já orientando também algumas coisas. O meu povo, de tudo um pouco a gente tem. Tudo a gente faz sempre para o melhor, para a natureza, para a mãe terra. Nós, indígenas, temos que preservar, dar bom exemplo para a população, porque nós somos os donos da terra, donos da floresta.

Acesse a entrevista completa no nosso canal do YouTube: https://youtu.be/JG1EDoh1m0Y

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