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Ladrilã: tradição e protagonismo feminino no artesanato da lã gaúcha

A Associação Ladrilã resgata técnicas tradicionais de fiação e tecelagem da lã gaúcha, transformando matéria-prima histórica, em peças de design contemporâneo. O trabalho fortalece a economia criativa, valoriza a prática do fazer artesanal no Rio Grande do Sul e conquista reconhecimento internacional.

-EQUIPE CRAB

Ladrila.png Associação Ladrilã - Foto: Antonio Rocha / OIAMO

Durante décadas, a lã de ovelha foi um dos símbolos da economia gaúcha. Com a chegada das fibras sintéticas e as mudanças no mercado têxtil, a matéria-prima perdeu espaço comercial e quase foi esquecida nas práticas artesanais. Por meio da Associação Ladrilã, fundada em 2010, que reúne artesãs dos municípios de Pedras Altas, Pelotas e outras cidades próximas, a lã voltou a ganhar protagonismo em peças que unem tradição e design contemporâneo. Nas mãos das artesãs, a lã utilizada dos rebanhos de ovelhas crioulas, ganha novas formas e cores em peças de decoração e vestuário a partir do tricô e do tear.

Após iniciar sua trajetória produzindo tapetes bordados, Tânia Tunes Furtado, artesã há mais de duas décadas, se dedicou à tecelagem e passou a trabalhar com a transformação da lã em peças artesanais. A experiência levou à criação da Associação Ladrilã, nome que remete às formas e cores dos ladrilhos hidráulicos:

“A Ladrilã surgiu de juntar algumas pessoas que criavam ovelhas e não sabiam o que fazer com a lã. Eu já estava com uma consultoria pelo Sebrae e surgiu a oportunidade de unir o artesanato de várias cidades em um único grupo que trabalhasse a linha de decoração. Criamos, então, uma coleção com consultoria de um designer. Fizemos todo o processo junto ao Sebrae, desde a formação de preços até as feiras que realizamos em São Paulo para abrir mercado. O objetivo é divulgar a nossa lã, um material fantástico, cultuar técnicas que estão quase em extinção, como a fiação na roca, e mostrar que a lã pode estar em qualquer ambiente de uma casa, e no vestuário do dia a dia (Furtado, 2024, entrevista ao site A hora do Sul)”.

O grupo desenvolve produtos que dialogam com o design utilizando técnicas como tricô gigante, tecelagem manual e feltragem, além de valorizar a sustentabilidade, a economia criativa e a história da lã gaúcha.

Foto2.jpg Ovelhas feitas pela Associação Ladrilã. (Foto: Lucas Cuervo, Unquiet, 2019).

O trabalho da associação já ultrapassou as fronteiras do Brasil por meio de parcerias com profissionais do design. Um dos destaques é a colaboração com o designer e pesquisador de materiais do Pampa brasileiro, Tiago Braga, fundador da marca Oiamo. Juntos, desenvolveram peças que unem o saber-fazer artesanal da lã gaúcha à inovação no design, ampliando a visibilidade internacional do trabalho das artesãs. Em 2024, na PAD London Design + Art, em Londres, ele lançou a ‘Coleção Arandu Estelar’ em colaboração com as artesãs.

Foto3.jpg Nuvens de lã em parceria com o designer Tiago Braga em exposição em Londres. (Instagram @decoratibaia, 2025)

Mulheres que transformam lã em tradição e renda

foto  4.jpg Tricô gigante, técnica usada pela associação Ladrilã. (Foto: Lucas Cuervo, Unquiet, [s.d.].

A lã de ovelha é uma fibra natural de alta qualidade e uma das matérias-primas mais tradicionais do Rio Grande do Sul. Obtida por meio da tosquia, prática de manejo amplamente adotada na ovinocultura gaúcha, ela dá origem à produção artesanal, que combina tradição e sustentabilidade. Nesse contexto, Letícia Oliveira (2019) ressalta que as mulheres desempenham papel fundamental. Elas transformam a fibra em uma ampla variedade de produtos, como peças de vestuário, decoração e itens voltados ao conforto nos períodos de frio.

A história da ovinocultura, sempre foi uma atividade central na economia do estado do Rio Grande do Sul. No início do século XX, com a I Grande Guerra, aumentou a demanda internacional tanto pela lã como pela carne, o que fomentou o setor. Nas décadas de 80 e 90, o processo de industrialização modificou o cenário, substituindo a lã pelas fibras sintéticas, o que ocasionou grande declínio do rebanho ovino comercial do estado. Como as técnicas de fiação e tecelagem da lã foram se perdendo nos últimos 50 anos, quase toda a lã recolhida pelos produtores rurais era vendida para o Uruguai, onde a tradição da tecelagem segue forte.

Segundo dados do IBGE, Santana do Livramento é o principal polo produtor da lã mais valorizada do estado, alcançando R$ 6,1 milhões em 2024, enquanto Alegrete, na segunda posição, registrou R$ 3,5 milhões. No entanto, o estado ainda enfrenta o desafio de ampliar o processamento interno dessa matéria-prima, já que apenas 25% da produção passa pela indústria nacional. O restante é destinado, em grande parte, ao mercado externo, com destaque para o Uruguai.

A produção

Foto1.jpg Associação gaúcha Ladrilã resgata o uso da lã de ovelha em artesanato e peças com o tricô gigante. (Foto: Lucas Cuervo, Unquiet, 2019).

Com a criação da Ladrilã, tanto a fiação como a tecelagem no tear tradicional voltaram a fazer parte do cotidiano de algumas artesãs. A lã é tosquiada no início do verão e volta a crescer em alguns meses, garantindo a proteção necessária às ovelhas. As etapas de produção dos produtos iniciam quando as artesãs recebem a lã do produtor, que passa por uma criteriosa etapa de seleção e limpeza, na qual são retiradas impurezas como restos de vegetação, terra e partes inadequadas para o uso artesanal. Em seguida, o material é lavado e, quando necessário, tingido com corantes naturais ou industriais para adquirir as tonalidades desejadas. Após a secagem, a lã é submetida ao processo de cardagem, etapa que consiste em desembaraçar e alinhar as fibras, tornando-as mais uniformes e preparadas para a fiação. Em seguida, as artesãs utilizam a roca, equipamento tradicional que transforma as fibras cardadas em fios contínuos. Somente depois dessa etapa a lã está pronta para ser utilizada em técnicas como tecelagem, tricô, crochê ou feltragem.

Com apoio de instituições como a Artesol – Artesanato Solidário, a associação participou de projetos voltados à valorização do artesanato brasileiro. Além da produção artesanal, a Ladrilã também atua na difusão da cultura regional por meio de feiras, exposições e ações de formação. Seus produtos são comercializados no Mercado Central de Pelotas e também é possível fazer encomendas pelo Instagram @ladrila ou online pela loja Artiz (https://artiz.org.br/artesao/associacao-ladrila/).

Valorização do território: a lã gaúcha reinventada pelo design

A versatilidade da lã ganhou novos contornos a partir da parceria entre as artesãs e as arquitetas e designers gaúchas Tina Moura e Lui Lo Pumo. O projeto resultou na coleção “Lã em Casa”, com um grupo de Pelotas, Pedras Altas e Jaguarão, cidades do sudeste do Rio Grande do Sul, onde os rigorosos invernos ajudaram a consolidar a tradição deste trabalho têxtil.

foto 4.jpg A festa de tons é a marca das bolas de feltro produzidas pelas artesãs do Ladrilã a partir de refugo do material (Foto: Lucas Moura e Ricardo Jaeger. Casa e Jardim, 2014).

Entre as criações de maior destaque está a luminária Anêmona, vencedora da 25ª edição do Prêmio Design do Museu da Casa Brasileira, em 2011. Produzida em feltro moldado, a peça apresenta uma superfície marcada por relevos e aberturas inspirados nas formas das anêmonas-do-mar, objeto que se tornou símbolo da trajetória da associação.

foto 5.jpg Inspirada nas anêmonas-do-mar, a premiada luminária Anêmona tira partido da transparência do feltro à contraluz (Foto: Lucas Moura e Ricardo Jaeger. Casa e Jardim, 2014).

O trabalho da associação demonstra como o fazer manual pode fortalecer a economia criativa, promover o protagonismo feminino e preservar conhecimentos ligados à história e à identidade dos territórios rurais do Rio Grande do Sul.

Bibliografia

A HORA DO SUL. Divulgar a nossa lã e cultuar técnicas que estão quase em extinção. A Hora do Sul, 11 de novembro de 2024. Disponível em: https://ahoradosul.com.br/conteudos/2024/11/11/divulgar-a-nossa-la-e-cultuar-tecnicas-que-estao-quase-em-extincao/. Acesso em: 30 maio 2026.

ARTESOL. Associação Ladrilã. Rede Artesol, [s.l.], [s.d.]. Artesanato. Disponível em: https://redeartesol.org.br/rede/ladrila/. Acesso em: 1 jun. 2026.

CASA E JARDIM. Quatro estações da lã. Casa e Jardim, São Paulo, 23 de abril de 2014. Decoração. Disponível em: https://revistacasaejardim.globo.com/Casa-e-Jardim/Decoracao/Brasil-em-Casa-e-Jardim/noticia/2014/04/quatro-estacoes-da-la.html. Acesso em: 30 maio 2026.

DECORA TIBAIA. O designer gaúcho Tiago Braga apresenta, através de sua marca Oiamo, esculturas luminosas criadas em colaboração com as artesãs da Ladrilã. Instagram, [s.l.], 2025. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DGT0yFfx8Le/. Acesso em: 1 jun. 2026.

FACEBOOK. Associação Ladrilã [vídeo]. Facebook, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.facebook.com/share/r/1D9MDcY52G/. Acesso em: 30 mai. 2026.

JORNAL DO COMÉRCIO. Valorização da carne e da lã impulsiona retomada dos rebanhos de ovelhas no RS. Jornal do Comércio, 20 de maio de 2026. Disponível em: https://www.jornaldocomercio.com/mapa-economico/regiao-sul/2026/05/1248341-valorizacao-impulsiona-a-retomada-dos-rebanhos-de-ovelhas.html. Acesso em: 8 jun. 2026.

INSTAGRAM. Associação Ladrilã [publicação]. Instagram, [s.l.], 2025. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DGT0yFfx8Le/. Acesso em: 30 maio 2026.

ISTOÉ. Designer atualiza imaginário gaúcho brasileiro e expõe peças em Paris e Londres. IstoÉ, 2 de setembro de 2024. Disponível em: https://istoe.com.br/designer-atualiza-imaginario-gaucho-brasileiro-e-expoe-pecas-em-paris-e-londres. Acesso em: 30 mai. 2026.

OLIVEIRA, Letícia de Cássia Costa de. Lã crua, fios da memória: mulher, artesanato e patrimônio cultural do Rio Grande do Sul. Orientadora: Ana Maria Dalla Zen. 2019. 145 f. Dissertação (Mestrado em Museologia e Patrimônio) – Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2019. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/203242. Acesso em: 1 jun. 2026.

REVISTA UNQUIET. Ladrilã e Bichos do Mar de Dentro. Revista Unquiet, [s.l.], [s.d.]. Sustentabilidade. Disponível em: https://revistaunquiet.com.br/sustentabilidade/ladrila-bichos-do-mar-de-dentro/. Acesso em: 30 mai. 2026.

YOUTUBE. Casal, no interior de Pelotas/RS, produz peças de lã de maneira artesanal [vídeo]. Reportagem: Giorgio Guedin. Imagens: Kamilla Alves. Edição: Giorgio Guedin. YouTube, 16 de agosto de 2014. Disponível em: https://youtu.be/NVNaSY_cRq4?si=hYknbG8i46jeV51I. Acesso em: 30 mai. 2026.

YOUTUBE. Nara Guichon. Lã: uma fibra nobre e repleta de possibilidades [vídeo]. YouTube, 20 de out. de 2022. Disponível em: https://youtu.be/CDOGB_Rla88?si=5Eh-0niggCka7O9i. Acesso em: 30 mai. 2026.

YOUTUBE. Processamento artesanal da lã [vídeo]. YouTube, 2 de dez. de 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5fDuLIfbkYs. Acesso em: 1 jun. 2026.

Fontes de imagem

Associação Ladrilã - Foto: Antonio Rocha. Disponível em: https://www.oiamo.com.br/projetos-assinados/?srsltid=AfmBOoq-f5kXBvF9an_MnpVgQGj_Q9vpU8ygiyiD7-U6BDB3qZS3hJ0X. Acesso em: 1 jun. 2026.

Ovelhas feitas pela Associação Ladrilã. (Foto: Lucas Cuervo / Revista Unquiet, 2019). Disponível em: https://revistaunquiet.com.br/sustentabilidade/ladrila-bichos-do-mar-de-dentro/. Acesso em: 1 jun. 2026.

Tricô gigante, técnica usada pela associação Ladrilã. (Foto: Lucas Cuervo / Revista Unquiet, 2019). Disponível em: https://revistaunquiet.com.br/sustentabilidade/ladrila-bichos-do-mar-de-dentro/. Acesso em: 8 jun. 2026.

Associação gaúcha Ladrilã resgata o uso da lã de ovelha em artesanato e peças com tricô gigante. (Foto: Lucas Cuervo / Revista Unquiet, 2019). Disponível em: https://revistaunquiet.com.br/sustentabilidade/ladrila-bichos-do-mar-de-dentro/. Acesso em: 1 jun. 2026.

Bolas de feltro produzidas pelas artesãs da Ladrilã a partir de refugo de lã. (Foto: Lucas Moura e Ricardo Jaeger / Casa e Jardim, 2014). Disponível em: https://revistacasaejardim.globo.com/Casa-e-Jardim/Decoracao/Brasil-em-Casa-e-Jardim/noticia/2014/04/quatro-estacoes-da-la.html. Acesso em: 1 jun. 2026.

Nuvens de lã desenvolvidas em parceria com o designer Tiago Braga e apresentadas em exposição internacional. (Foto: @decoratibaia / Instagram, 2025). Disponível em: https://www.instagram.com/p/DGT0yFfx8Le/. Acesso em: 1 jun. 2026.

Luminária Anêmona, produzida em feltro e inspirada nas anêmonas-do-mar. (Foto: Lucas Moura e Ricardo Jaeger / Casa e Jardim, 2014). Disponível em: https://revistacasaejardim.globo.com/Casa-e-Jardim/Decoracao/Brasil-em-Casa-e-Jardim/noticia/2014/04/quatro-estacoes-da-la.html. Acesso em: 1 jun. 2026.

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