No Vale do Catimbau, a primeira mulher a assinar esculturas transforma a tradição e abre caminhos para novas gerações.
Simone e suas esculturas. (Foto: Kaká Bezerra / Viva Agreste, 2023)
No Dia Internacional da Mulher, histórias como a da artesã Simone Souza personificam a força e a representatividade feminina no coração do Vale do Catimbau, em Pernambuco. Primeira mulher a assinar uma escultura em madeira na região, a artesã conquistou reconhecimento nacional ao romper barreiras em um universo tradicionalmente masculino. Ao desafiar padrões, Simone inspirou outras mulheres a verem no artesanato uma poderosa ferramenta de expressão e sustento.
Natural de Itaíba, Simone sempre demonstrou interesse em crescer e buscar alternativas não convencionais. Ao se mudar para o Vale do Catimbau, ela encontrou na madeira a matéria-prima para expressar sua arte, refletindo a essência e a resistência do sertão.
No mês da Mulher, a trajetória de Simone Souza é celebrada pelo profundo impacto social do seu trabalho. Ela é a prova de que o talento não tem gênero e que, ao ocupar seu espaço, uma mulher pode esculpir não apenas a madeira, mas também um novo futuro para as gerações que virão.
Artesã esculpe o sertão em madeira
Artesã esculpindo peça em madeira. (Foto: Kaká Bezerra / Viva Agreste, 2023)
A sustentabilidade é um pilar no trabalho de Simone, que utiliza madeiras “mortas”, aquelas que foram descartadas ou galhos e troncos caídos na natureza, de árvores como a Umburana e a Jaqueira. Suas mãos esculpem o reflexo do cotidiano e a riqueza natural da região.
O processo de criação pode levar de duas a três semanas para transformar a madeira bruta em uma obra de arte. Simone deixa que a própria forma do insumo guie sua criação, permitindo que o material indique o caminho e conduza o processo artístico.
Troncos de árvores. (Foto: @atelieluizbenicio / Instagram, 2023)
Conheça as principais etapas do processo produtivo:
Preparação Inicial: Quando a madeira chega em troncos mais grossos, o processo começa com o uso de uma motosserra para realizar os primeiros cortes e divisões.
Escultura e Lapidação: A partir dos cortes iniciais, o trabalho torna-se exclusivamente manual. Utiliza ferramentas como serra, facão e estilete para dar forma às peças. Ela evita o uso de ferramentas elétricas como a serra tico-tico, por considerá-las perigosas e inadequadas para o nível de detalhamento de suas obras, que são em grande parte miniaturas.
Ferramentas Customizadas: Além de formões comprados, Simone utiliza ferramentas que ela mesma fabrica, como pequenos formões feitos a partir de limas de motosserra que já perderam o corte, ideais para trabalhar nas peças menores.
Acabamento Natural: As peças de Simone não recebem verniz; elas são totalmente naturais. A diferença na coloração se dá pela exposição ao sol.
Fotógrafa em madeira. (Foto: Divulgação / Casa Vive)
Cabeça de Mulher. (Foto: Hermes Costa / Visite Brasília, 2025)
Oficinas inspiram novas gerações
Oficina no ateliê da Simone. (Foto: @simonesouzarte / Instagram, 2025)
A determinação da artesã em transformar a realidade não só de sua família, como a da comunidade, estimula outras pessoas a trilharem o mesmo caminho. Com mais de 20 anos de experiência em talhar madeiras, Simone oferece oficinas que não apenas ensinam a técnica do entalhe, mas também fortalecem a confiança e a autonomia de cada aluno.
No ateliê, ela transforma o fazer manual em oportunidade de trabalho. Nesse espaço, técnicas tradicionais se unem a novas práticas, e o conhecimento compartilhado pela artista ganha novas vozes e mãos.
A semente desse saber foi plantada primeiro em sua casa. Seu filho, irmãos e outros familiares já seguem seus passos, aprendendo o ofício e auxiliando no dia a dia do ateliê. Recentemente, a artesã reuniu cerca de 90 pessoas em um único curso, número que revela tanto o interesse pela arte em madeira quanto o reconhecimento pelo seu trabalho.
A arte da escultora leva o sertão para o mundo
Peças para venda no ateliê da Simone. (Foto: Divulgação / Nau Cultural, 2022)
A comercialização do trabalho da artista combina a venda direta em seu ateliê com a presença em plataformas digitais e eventos do setor, permitindo que suas obras alcancem um público diversificado tanto no Brasil quanto no exterior.
Ao receber os clientes em seu espaço, Simone os insere no ambiente de criação e compartilha a história por trás de cada escultura. Em paralelo, a presença em lojas especializadas, feiras e eventos culturais, posiciona seu trabalho em importantes circuitos de arte e artesanato.
No ambiente digital, a estratégia da empreendedora se divide em duas frentes. O perfil da artesã no Instagram é utilizado para divulgação e venda das peças, oficinas e para o relacionamento com os clientes. O portfólio de produtos de Simone também é divulgado em lojas virtuais, estimulando novas encomendas e contribuindo para o faturamento do negócio.
A trajetória de conquistas de Simone Souza
Simone foi uma das convidadas para a exposição no Museu de Arte de Brasília. (Foto: Hermes Costa Neto / Cultural PE, 2025)
A arte de Simone Souza rompeu as fronteiras do sertão nordestino, conquistando reconhecimento no Brasil e no exterior. Sua trajetória é marcada pela participação em alguns dos mais importantes eventos de artesanato da América Latina.
Em 2024, as esculturas de Simone Souza ganharam projeção internacional ao integrarem a Expoartesanías, uma das maiores feiras de artesanato da América Latina, realizada em Bogotá, na Colômbia. O evento não apenas levou ao público peças de artistas pernambucanas, como também contou com a presença das próprias artesãs, fortalecendo o intercâmbio cultural.
A participação fez parte do Programa Pernambuco Artesão, iniciativa conjunta do Sebrae-PE e do Governo do Estado, cujo objetivo é fomentar trocas culturais, valorizar a produção regional e ampliar a presença do artesanato pernambucano em outros continentes.
Já em outubro de 2025, a artesã foi uma das cinco artistas pernambucanas selecionadas para a exposição “Terras Raras: Sagrado Feminino”, no Museu de Arte de Brasília. A mostra destacou mulheres do sertão que transformam madeira e barro em arte, celebrando suas histórias de superação e o protagonismo feminino em um campo historicamente dominado por homens.
Além de marcar presença em diversos eventos e encontros regionais, Simone participa regularmente da Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenearte), um dos maiores do setor no país.
Vale do Catimbau, onde a natureza inspira a arte
Vale do Catimbau. (Foto: Divulgação / Estado de Minas, 2026)
A cidade de Buíque, porta de entrada para o Parque Nacional do Catimbau, é vista como berço de grandes artesãos. A paisagem local, com seus sítios arqueológicos, cânions e formações rochosas que parecem esculpidas à mão, inspira muitas pessoas. Dela também vêm os insumos da natureza utilizados na produção artesanal.
É nesse ambiente que artistas como Simone Souza estampam a alma sertaneja em suas obras.

