Reconhecimento da arte e maestria
O artesanato é uma tecnologia cujo aprendizado se faz em comunidade. A transmissão da técnica, historicamente feita através da oralidade, preservou o conhecimento que novas gerações seguiram como tradição. Mães ensinaram filhos, netos e comunidades que se tornaram referência em suas produções. Mulheres que sempre estiveram trabalhando em suas casas, encontraram no artesanato e na arte uma forma de sustentar suas famílias e, generosamente, compartilharam seu conhecimento. Essa habilidade de ensinar e formar aprendizes as levou ao reconhecimento popular como mestras artesãs.
Quando a identificação sobre sua maestria se expande para fora da comunidade é que suas peças, até então decorativas ou utilitárias, passam a integrar exposições. O olhar para os objetos como arte, conecta as histórias dessas mulheres aos espaços ocupados pelo mercado tradicional da arte, ampliando esse conceito.
O reconhecimento do domínio técnico, do processo criativo e originalidade traz para discussão o que pode ou não ocupar os museus. As peças das mestras artesãs que chegam a esses espaços contam também sobre seus territórios. É na possibilidade do encontro entre visitantes e artistas de diferentes contextos e realidades que a valorização do artesanato acontece.
Dona Izabel
Dona Izabel trabalhando. Foto: Lorí Figueiró / ASN Nacional.
No Vale do Jequitinhonha, o nome dela reverbera na história de mulheres de hoje e carrega a daquelas que vieram antes. Izabel Mendes da Cunha aprendeu com sua mãe a trabalhar com o barro, mas experimentou um jeito diferente de trabalhar com ele dando sua identidade nas bonecas que criou. As peças do Vale do Jequitinhonha carregam características próprias, sendo reconhecidas pelo traço, o tipo de pintura e
tonalidades dos diversos tipos de barro encontrados no local, a “água de barro”, como chamava.
Frente às dificuldades de acesso a direitos básicos, a expressão cultural que teve Dona Izabel como destaque, foi modo de sobrevivência nos anos 1970. Com materiais que eram acessíveis, ela improvisou torno e outras ferramentas para criar novas moringas. Originalmente utilitária, Dona Izabel uniu a funcionalidade do barro, que preserva a água fresca em ambientes quentes como o Vale, ao formato lúdico de suas bonecas.
O legado que expandiu para além do Vale do Jequitinhonha
A família da Mestre Artesã deu continuidade ao legado de suas obras. A filha Glória, o filho Amadeu, a neta Andréia, genro e nora João Pereira de Andrade e Mercinda, mantiveram os saberes passados pela artesã e já produziram centenas de peças de cerâmica.
Obra da neta Andreia Pereira Andrade, homenagem à D. Izabel. Foto: Claudia Dantas e Eny Miranda / CRAB.
“Ensinei meus filhos todos. Ensinei os vizinhos aqui. Aqueles que quiseram, eu ensinei para eles. Agora, um está ensinando outros, e outros estão ensinando os outros e eles estão merecendo tudo. Eu tenho... Que prazer. Não ficou só para mim. Ficou para todos, né?” - Dona Izabel.
Dona Izabel recebeu o Prêmio UNESCO de Artesanato Popular e Ordem do Mérito Cultural. Além de diversas participações em exposições, no ano de 2025, apresentamos aqui no CRAB a exposição “Dona Izabel: 100 anos da Mestra do Vale do Jequitinhonha”. Reunimos 300 obras dela e de mais 40 artesãos mineiros, entre familiares, que foram influenciados pela artesã.
Exposição “Dona Izabel: 100 anos da Mestra do Vale do Jequitinhonha”. Foto: Divulgação / Acervo CRAB.
Para saber mais sobre a exposição no CRAB acesse: https://www.youtube.com/watch?v=rRKEk30iU-U
Assista o documentário sobre Dona Izabel na nossa sessão Curadoria CRAB - Audiovisual: https://crab.sebrae.com.br/pesquisa-desenvolvimento/curadoria-crab/audiovisual/qul8u2pcaqtxn0to8v3ws7ow/139
Ana das Carrancas
Ana das Carrancas. Foto: Divulgação / Viajento
Do sertão pernambucano, Ana Leopoldina dos Santos é outra grande mestra da história do artesanato e da arte popular brasileira. Nascida em uma família de indígenas e negros escravizados, Ana aprendeu ainda criança com sua mãe a produzir louças e utensílios de barro. Devido à seca, saiu de Ouricuri em direção à Petrolina, em busca do Rio São Francisco. Lá ela teve contato com as carrancas, símbolos locais que navegam no Rio, protegendo os pescadores. Tradicionalmente produzidas em madeira, a artesã inaugurou a produção dessas criaturas em barro e ficou conhecida como Ana das Carrancas.
Em entrevista, sua filha Maria de Ana conta que as pessoas riram da primeira peça de carranca que Ana levou à feira. No ano de 1963, técnicos da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) conheceram seu trabalho, a reconheceram como artista popular e sugeriram a distribuição de suas peças em miniatura como souvenirs na inauguração da Biblioteca Municipal de Petrolina.
A Dama do Barro, como também é conhecida, criou identidade. Suas carrancas de olhos vazados ganharam essa característica a partir de uma promessa que fez pela melhoria de vida de seu marido, que possuía deficiência visual. Suas peças contribuíram para a difusão da arte popular para além das fronteiras de Pernambuco.
Maria, filha de Ana seguindo seu legado. Foto: Arthur de Souza / Folha de Pernambuco.
Em 2006, a artesã recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, após anos contribuindo para a cultura brasileira com seu trabalho. Ana das Carrancas faleceu em 2008, mas como mestra da arte popular, seu conhecimento permanece vivo com seus aprendizes, entre eles, suas filhas que seguem trabalhando na área.
Ana das Carrancas como protagonista
A compreensão ampla da arte, que inclui os “artistas populares”, tarda em acontecer. É somente a partir da década de 1960, que o Museu Nacional de Belas Artes, por exemplo, começa a adquirir peças desses artistas, entre eles, Ana das Carrancas.
Em 2024, o mesmo museu criou uma exposição coletiva a partir de seu acervo: “Pretagonismos no Acervo do Museu Nacional de Belas Artes”. A exposição teve como objetivo apresentar o protagonismo do artista negro, um dos principais detentores do patrimônio artístico brasileiro. A temática propõe entre as possíveis reflexões, reconhecer as diversas produções de artistas negros que sempre estiveram presentes na história da arte brasileira, mas por muito tempo foram invisibilizados.
Em Petrolina, também está preservada a obra da artesã no Centro de Arte Ana das Carrancas, um dos principais pontos turísticos de Petrolina.
Fachada do Espaço Ana da Carrancas, na cidade de Petrolina. Foto: Divulgação / Juntando Mochilas.
Para saber mais sobre a exposição Pretagonismos, acesse: https://www.gov.br/museus/pt-br/museus-ibram/mnba/centrais-de-conteudo/outros/catalogo-pretagonismos-no-acervo-do-mnba
Para saber mais sobre Ana das Carrancas, acesse: https://www.youtube.com/watch?v=KmKB0G4pcOk
Conceição dos Bugres
Dona Conceição dos Bugres. Foto: Roberto Higa / Arte Popular Brasil.
Nascida no sul do país, em Santiago (Rio Grande do Sul) no ano de 1914, Conceição Freitas da Silva é outra importante personagem na história cultural, especialmente do artesanato e arte brasileira. De ancestralidade indígena, Conceição aprendeu o uso das ervas e manteve forte ligação com a natureza refletida em sua espiritualidade e suas criações.
Conceição construiu sua vida em Campo Grande. Começou seus trabalhos fazendo esculturas com a mandioca, transformando a raiz em personagens. Com a madeira que encontrava na natureza, fazia cortes precisos a partir do formato dos troncos escolhidos de diversos tamanhos e, com pouca tinta preta, pintava os cabelos, olhos puxados e nariz. Após um sonho, ela passou a incluir a cera de abelha para cobrir os corpos das esculturas, que protege a madeira.
Artista esculpindo. Foto: Divulgação / MASP
“Tudo é do mato [...] A cera é a abelha que faz, a madeira é do mato... Tudo é da natureza do mundo.” — Documentário “Conceição dos Bugres” (1979).
Utilizava poucos recursos para produzir peças que, através das cores e detalhes revelavam muito sobre a população indígena. Segundo ela, seu trabalho de esculpir apenas revelava aquilo que já existia no material: “A madeira é sábia” (Documentário “Conceição dos Bugres”, 1979).
“Dos Bugres” é ressignificado
Obras de Conceição dos Bugres. Foto: Aline Figueiredo / Direitos reservados/ Agência Brasil EBC
No início do século XX, a família da artista migrou para o Centro-Oeste, fugindo de confrontos provocados pela imigração europeia no Sul, contra indígenas. O “bugre” aparece como termo pejorativo no território, para rotular indígenas que resistiam à colonização e que, naquele momento, fugiam dos “bugreiros”, um tipo de milícia particular que perseguia e exterminava seu povo.
O nome Conceição dos Bugres passa a ser incorporado por ela, após o conhecimento de suas obras por profissionais das artes visuais. Nos anos 60, um movimento conduzido por Aline Figueiredo e Humberto Espíndola mapeou artistas em Brasília, Mato Grosso (e Mato Grosso do Sul), Goiás. Encontraram Hilton Silva, filho de Conceição, também artista. Ele comentou sobre o trabalho da mãe que passou a integrar o movimento e exposições de arte pelo país.
A partir da década de 1970, suas obras são expostas em diversos museus nacionais e exposições internacionais, passando por galerias importantes, museus e a Bienal Nacional em 1974. Conceição dos Bugres faleceu em 1984, muito antes de mostras e exposições como “Conceição e Sua Gente”, no Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul (2004) ou “Conceição dos Bugres: tudo é da natureza do mundo” no MASP (2024) acontecerem.
Exposição MASP. Foto: Divulgação / MASP.
O legado em família
Como mestra, seu legado cultural segue vivo, transcendendo gerações até seu neto, Mariano, que criou sua identidade a partir dos aprendizados com as peças da avó. Sua história segue sendo contada em mostras e exposições, apoiando o reconhecimento de outros artesãos indígenas também como artistas de grande importância na história da arte brasileira.
Para fazer a arte, Mariano utilizando marreta e formão durante o processo. Foto: Marcos Maluf / Campo Grande News (2021)
Para saber mais sobre a exposição de Conceição dos Bugres no MASP: https://www.youtube.com/watch?v=HnyGvoRJBgs
Confira o documentário sobre Conceição dos Bugres: https://www.youtube.com/watch?v=dOG2ifLMQhY

