
Nascido em Apicum-Açu e radicado em Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís, o artista consolidou sua atuação na valorização de manifestações ligadas ao bumba-meu-boi e à produção de embarcações típicas confeccionadas em buriti, uma palmeira típica no Norte e Nordeste do país e amplamente utilizada no artesanato regional.
A relação com o fazer artesanal teve início ainda na infância, no contexto familiar. Herdeiro de uma tradição artística iniciada pelo avô e posteriormente transmitida pelo pai, Mestre Domingos, Douglas atua desde os anos 1990 na produção artesanal. Suas peças, inspiradas nas dinâmicas culturais do litoral do estado, incorporam elementos associados às manifestações culturais. Entre as principais peças desenvolvidas estão os bois de variados tamanhos, chapéus bordados, coletes, embarcações típicas feitas em buriti, souvenirs e esculturas exclusivas. Atualmente, a produção é desenvolvida em conjunto com a esposa e as três filhas, dando continuidade a uma prática fundamentada na preservação e circulação de conhecimentos tradicionais entre gerações.
##O aprendizado dentro de casa
Embarcação de Mestre Douglas. Foto: divulgação @miemart / Instagram
Como parte dessas comunidades maranhenses, Douglas, filho de pescador, cresceu em meio às transformações vividas por famílias que dependiam do mar para sobreviver. Ainda criança, acompanhou o pai, Mestre Domingos, na busca por alternativas econômicas diante das dificuldades impostas pela pesca artesanal. Foi nesse contexto que o artesanato surgiu inicialmente como uma atividade complementar e, pouco a pouco, tornou-se o principal sustento familiar. O trabalho com miniaturas feitas em buriti começou de forma simples, quase intuitiva, mas rapidamente revelou seu potencial.
Embarcação feita com buriti. Foto: Sharlene Melaine. Acervo / CRAB.
A relação da família com a arte, no entanto, antecede essa mudança profissional. A tradição artesanal começou com o avô, um artista popular e carnavalesco que confeccionava fantasias, bonecos e elementos cenográficos para os blocos de carnaval no povoado de Descanso, região que pertencia ao município de Cururupu antes dos desmembramentos territoriais que deram origem a Bacuri e, posteriormente, a Apicum-Açu. Era também responsável pela produção de bois de Zabumba, utilizados nas festividades juninas, estabelecendo uma conexão direta entre a família e o universo do Bumba Meu Boi maranhense.
Douglas ajudava o pai nas etapas mais básicas da produção artesanal, como lixar, pintar e organizar as peças. Naquele momento, o artesanato ainda não era visto como profissão, mas como parte da dinâmica familiar e das necessidades econômicas.
A mudança definitiva aconteceu quando a família deixou o interior e se estabeleceu em São Luís. A capital maranhense abriu novas possibilidades de circulação comercial e contato com o turismo, permitindo que as peças produzidas pela família alcançassem outros públicos. Foi nesse período que seu pai passou a fabricar miniaturas de embarcações típicas do Maranhão.
Embarcação feita por Mestre Douglas. Foto: divulgação @miemart / Instagram
Reproduzindo canoas, barcos de pesca e outros elementos ligados ao imaginário marítimo da região, as miniaturas reproduziam modos de vida ligados às comunidades costeiras, aos pescadores e às paisagens marítimas do estado.
Bumba Meu Boi: tradição, memória e transmissão cultural
Boi Encanto da Pirâmide com Mestre Douglas ao fundo. Foto: divulgação @miemart / Instagram
O universo do Bumba Meu Boi maranhense nasce do ambiente familiar e comunitário, que fortalece a identidade coletiva e resistência cultural de onde vem. Reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o Complexo Cultural do Bumba Meu Boi integra música, dança, religiosidade, teatro popular, oralidade e artesanato em uma celebração marcada pela preservação e transmissão de saberes que se mantém vivos por gerações.
Bumba-meu-boi feito por Mestre Douglas. Foto: divulgação @miemart / Instagram
É uma manifestação que está em constante transformação, uma tradição que se reinventa e é continuamente recriada pelas comunidades. Nesse contexto, Douglas desenvolveu sua arte e foi reconhecido como Mestre pelos grupos das manifestações folclóricas.
Boi feito por Mestre Douglas. Foto: divulgação @miemart / Instagram
Foi junto a seu pai, que resgataram a tradição da família nas suas origens da produção de bois e indumentárias. Logo começaram a receber várias encomendas de grupos da capital e de outros municípios. A partir dessa memória, Douglas Lopes tornou-se referência na arte do bordado e aplicações.
Artesanato que transforma memória em sustento familiar
Mestre Douglas e sua família no ateliê Miemart. Foto: Sharlene Melaine. Acervo / CRAB.
Passando o ciclo das festas juninas, o artesão idealizou miniaturas do bumba-meu-boi, chapéus e outros acessórios usados como souvenir. Ele levava as miniaturas em uma bicicleta e passava os dias oferecendo o trabalho pelas ruas e praças da cidade. O retorno financeiro era incerto, mas o reconhecimento do público começou a despertar nele uma nova percepção sobre o valor artístico do que produzia.
Boizinhos da família de Mestre Douglas. Foto: divulgação @miemart / Instagram
Em 1992, Mestre Douglas conquistou a oportunidade de ter uma loja no Centro de Comercialização de Produtos Artesanais do Maranhão (Ceprama). Em declaração no documentário ele afirma: “Aquilo parecia impossível para a nossa realidade. Ainda mais porque eu tinha 16 anos”. O local ampliou a visibilidade do trabalho artesanal desenvolvido por Douglas e consolidou sua inserção no circuito cultural e turístico maranhense.
Mestre Douglas produzindo boizinhos. F Foto: Sharlene Melaine. Acervo / CRAB.
Disseminador da cultura maranhense
Chapéu e matraca. Foto: divulgação @miemart / Instagram
Além do diferencial nas miniaturas, Mestre Douglas também criou versões mais acessíveis das peças inspiradas no bumba-meu-boi. Douglas passou a desenvolver modelos mais simples, mas preservando a qualidade e identidade da manifestação.
Chapéu de vaqueiro. Foto: divulgação @miemart / Instagram
Os chapéus bordados do Bumba Meu Boi do Maranhão são um dos principais símbolos da moda junina maranhense, unindo tradição artesanal, identidade cultural e riqueza estética. Produzidos manualmente, as peças utilizam materiais como veludo, feltro, miçangas, lantejoulas, canutilhos, pedrarias, espelhos, penas e fitas coloridas. O processo de confecção exige precisão e detalhamento, desde a estruturação da base até a aplicação manual dos bordados e adereços, trabalho realizado por artesãos e bordadeiras ligados aos grupos de bumba-meu-boi. Cada chapéu pode levar até um mês para ser confeccionado, devido à riqueza de detalhes.
Chapéu de vaqueiro modelo simples. Foto: divulgação @miemart / Instagram
O artista reformulou o uso de lantejoulas e paetês, adotando técnicas com acabamento visual mais leve, o que possibilitou a produção de peças com menor custo. A iniciativa ampliou o alcance do artesanato maranhense, fortaleceu o público consumidor e contribuiu para a sustentabilidade econômica do negócio familiar.
Mestre Douglas. Foto: Sharlene Melaine. Acervo / CRAB.
No ateliê de Mestre Douglas, a produção artesanal acompanha o ritmo das festas populares maranhenses e a demanda de clientes de diferentes regiões do país. Além das peças voltadas às festividades juninas, o ateliê também produz obras decorativas e trabalhos artísticos personalizados, embora Mestre Douglas destaque que as encomendas relacionadas ao Bumba Meu Boi e às embarcações concentram a maior parte da produção anual.
Os bois artesanais em tamanho original estão entre as peças mais elaboradas produzidas pela família. Com cerca de 1,20 metro de comprimento e altura, as estruturas são utilizadas em apresentações culturais, festas temáticas e eventos ligados ao turismo maranhense. Os valores variam de acordo com o nível de detalhamento dos bordados, nas versões totalmente confeccionadas com canutilhos e pedrarias. O ateliê também produz modelos menores para decoração de mesas, lembranças e souvenirs, incluindo miniaturas de 10 centímetros, utilizadas como chaveiros ou peças decorativas.
A demanda aumenta significativamente no período junino, e os pequenos bois artesanais ultrapassam a média de mil unidades produzidas por ano, atendendo desde encomendas individuais até pedidos em grande escala para eventos e agências de turismo.
O legado
Mestre Douglas. Foto: Sharlene Melaine. Acervo / CRAB.
Ao longo das décadas, participou de feiras nacionais e internacionais, exposições culturais e projetos voltados à valorização da cultura popular.
Suas peças estão expostas no Museu do Índio, no Rio de Janeiro, na CEMIG, em Minas Gerais, além de ter participado de exposições coletivas em São Paulo e no Museu Olímpico de Londres, em 2012. A disseminação de seu conhecimento ultrapassa a família, que hoje garante a preservação de sua arte. O artesão já ministrou diversos cursos e oficinas de embarcações, bordados e aplicações voltados para o “Bumba meu Boi” em cidades pelo estado do Maranhão.
“Não sou mestre, sou sempre aprendiz que ama e quer transferir seus conhecimentos para não deixar morrer essa tradição”.
Mestre Douglas Lopes.

