Iniciativa amplia o olhar de artesãos sobre design e inovação
Exposição CRAB. Foto: Divulgação / Vanguarda do Norte, 2026.
A exposição “Boi-Bumbá de Parintins: Do Brincar ao Futuro”, inaugurada em julho deste ano no CRAB, conta com diversas produções artesanais do Festival de Parintins. Símbolo da cultura amazônica, o evento mobiliza dezenas de artistas na produção de figurinos, alegorias e adereços para o espetáculo dos bois Garantido e Caprichoso. Ao fim de cada edição, grande parte desse material é descartada. Para dar um novo destino às peças e estimular práticas sustentáveis, o Sebrae Amazonas e o Governo do Estado criaram o projeto Parintins Criativo: Do Festival ao Futuro.
Alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS), o projeto tem como objetivo ressignificar a arte desenvolvida para o espetáculo, a partir da técnica de upcycling, gerando novos produtos e estimulando a economia criativa. Com a iniciativa, artistas locais aproveitam resíduos do evento para produzir peças decorativas, acessórios, luminárias, mobiliário, dentre outros itens.
A ação estimula a geração de novas fontes de renda e amplia a atuação destes profissionais, que antes era limitada ao período do evento. A iniciativa também é uma importante ferramenta para a preservação do patrimônio cultural da Amazônia. A primeira fase do projeto contou com 64 artesãos, atuantes no processo criativo das agremiações. O designer Sérgio Mattos foi responsável por conduzir o processo deste laboratório de desenvolvimento de produtos, com uma visão sensível aos conhecimentos já reconhecidos no território.
Sala do Futuro. Foto: Acervo CRAB, 2026.
O movimento desperta a visão dos artistas sobre tendências e design e já tem trazido resultados expressivos, aponta a gestora do projeto de Artesanato do Sebrae Amazonas, Lilian Silvia Simões. Segundo a executiva, o mercado tem demonstrado interesse pelas peças produzidas a partir do projeto, o que reforça a importância econômica da iniciativa. A riqueza cultural das peças, o referencial histórico das produções e os insumos regionais utilizados despertam a curiosidade do público.
Chegando ao final da exposição “Boi Bumbá de Parintins: Do Brincar ao Futuro”, você conhece a sala “O Futuro”, onde estão as obras desenvolvidas no projeto e que apresentamos a seguir.
Lucijones e a Poltrona Tipiti
Poltrona tipiti. Foto: Divulgação / Agência Sebrae AM, 2026.
O artista parintinense Lucijones Cursino Monteiro integra a exposição com diversas obras. O artesão fez o folclore regional ganhar vida com a sala dos encantados, que apresenta as lendas amazônicas com cores vibrantes e movimentos que impressionam. Como parte do projeto Parintins Criativo, o artesão também levou para a mostra uma poltrona, inspirada no tipiti.
O tipiti é objeto produzido artesanalmente com fibras vegetais trançadas, como o guarumã ou arumã. É utilizado para extrair da goma da mandioca a manipueira, líquido com nível elevado de ácido cianídrico, uma substância extremamente venenosa. Os povos originários mantêm o costume de seus antepassados de utilizar o tipiti, confeccionado artesanalmente com plantas nativas da região amazônica. Depois desse processo, é possível preparar a farinha de mandioca, além do tucupi, ingrediente de um dos pratos mais famosos do Norte do país, o tacacá.
O móvel de Lucijones foi confeccionado a partir de corda de algodão e ferro. A parte superior da poltrona lembra o formato mais tradicional do tipiti, cilíndrico. Já a parte do assento, remete ao formato de uma concha e sua estrutura metálica recebe os trançados em corda de algodão. O mobiliário chama a atenção pela beleza e inovação da peça que exalta a cultura regional do Amazonas.
Trançado da Poltrona. Foto: acervo Lucijones Cursino, 2026.
Se o trançado do tipiti tradicional já exige coordenação motora e criatividade, a produção da poltrona exigiu testes e adaptações até chegar ao formato definitivo. Segundo Lucijones, o artesão desenhou diferentes modelos, materiais e formatos.
Tingindo cordas de algodão. Foto: acervo Lucijones Cursino, 2026.
A obra leva uma média de 5 dias para ser produzida e pesa aproximadamente 10 kg. Para chegar à coloração final da cadeira, o artista utilizou uma mistura de corantes para tingir as cordas de algodão, se aproximando do tom mais amarelado do próprio tipiti.
Regiane Lima e a Luminária Kurima
Luminária Kurima. Foto: Divulgação / Instagram @regiane.morenaofc, 2026.
Um pedacinho da Amazônia carregado de brilho e tonalidades ganhou destaque nas mãos da artesã Regiane Lima, da Yandê Amazônia. Entre suas criações que integram a exposição, está a Luminária Kurima, ela foi cuidadosamente confeccionada com folhas de andiroba, vegetação nativa da floresta amazônica. Grande parte da matéria-prima utilizada é encontrada em galhos caídos no chão, em áreas com grande concentração de andirobeiras. Da mesma localidade, a artista aproveita madeira para esculpir e criar design diferenciado, compondo um visual mais inovador para a peça.
Como bióloga, a artista explica que a produção do objeto contou com o uso de tecnologia específica. Seu olhar para a sustentabilidade a levou a encontrar um processo de esqueletização das folhas com materiais naturais e que tem como base uma matéria prima essencial na região, diferente do que normalmente é utilizado. Durante várias pesquisas e testes, encontrou na farinha de mandioca o elemento ideal para incorporar em sua arte. O processo confere diferentes tonalidades para as folhas, que se destacam mesmo com a luz apagada. A solução agora está sendo patenteada, que une a inovação, ciência e artesanato.
Cianne e “Os Olhos da Floresta”
Alcianne com o protótipo. Foto: acervo Alcianne Mourão, 2026.
Foi da lenda amazônica da “Sacaca Merandolino”, que a artista Alcianne Mourão Gonçalves buscou inspiração para produzir seu banco. O Boi Caprichoso teve como tema de uma de suas alegorias a lenda do homem que se transformava em cobra, que serviu de insumo para a criação de Cianne.
A peça chamada “Os Olhos da Floresta” desperta os sentidos de quem visita a mostra, ao revelar a beleza e o mistério da fauna amazônica, os seres da floresta, as lendas folclóricas e toda a riqueza cultural da região. A artista, aprendeu, durante o projeto, diversas técnicas que a ajudaram a produzir, por exemplo, os olhos de resina, além de se atualizar sobre tendências e design, contribuindo para o formato final do protótipo.
Artista preparando cada olho da obra. Foto: acervo Alcianne Mourão, 2026.
Cada olho é desenhado e pintado, individualmente, e em seguida separado para secagem. Após esse período, a artista costura à mão cada um deles, finalizando a confecção do objeto que levou um período de 3 meses para ser concluído.
Venha conhecer essas e mais peças
Exposição “Boi-Bumbá de Parintins: Do Brincar ao Futuro”. Foto: acervo CRAB
O projeto Parintins Criativo mostrou que a arte produzida para o Festival de Parintins pode continuar gerando trabalho e renda, mesmo após o encerramento do espetáculo. Além de fortalecer o setor, a iniciativa reforça a importância do fazer manual para a economia do país e pode inspirar ações semelhantes em outras regiões do Brasil.
Venha visitar a exposição e acompanhe aqui no Portal do CRAB mais informações sobre as obras, os artistas e a diversidade presente no Boi-Bumbá de Parintins.

