
O pulsar da pluralidade no fazer manual
No artesanato, a diversidade não é apenas uma estatística; é o que dá alma às peças. Cada artesão traz consigo o território que habita e as vivências que o moldaram. Quando entramos nesse universo, não estamos apenas registrando a presença de objetos; estamos vivenciando a identidade cultural de um país amplamente diverso e criativo.
Aqui, a ancestralidade indígena, o orgulho LGBTQIAPN+ e a força da cultura negra se entrelaçam para projetar o futuro do design brasileiro. O artesanato passa a ser, assim, um veículo essencial para a preservação das nossas narrativas mais profundas, onde o fazer é uma forma de existir e resistir.
Cinco vozes que tecem o Brasil
Camila de Oliveira (Salvador, Bahia) – Ancestralidade e Empreendedorismo Negro
Camila de Oliveira da marca DUA. Foto: Instagram BN Hall
À frente da DUA (@somosdua), marca baiana nascida em 2018, a designer Camila de Oliveira traduz o propósito de levar os encantos de sua terra de forma leve e natural através de acessórios artesanais produzidos localmente. Seu trabalho é uma homenagem à ancestralidade, com o cuidado e a admiração de quem honra as próprias origens através de peças feitas à mão que encontram nas formas orgânicas a beleza da assimetria e a pluralidade de estilos. Essa imersão cultural reflete uma sofisticação simples e autêntica, conectada ao que a designer revelou Camila de Oliveira em entrevista à ELLE em 2026: "A inspiração não é necessariamente na religião, mas nesse imaginário muito forte de Salvador". Assim, a DUA prova que o artesanato de luxo contemporâneo floresce quando a força desse imaginário urbano e afetivo molda o novo.
Nat Costa (Aracati, Ceará) – Liberdade e Identidade PCD
Nat Costa é artesã e embaixadora do Sebrae. Foto: Divulgação
Nordestina de Aracati, Nat Costa transformou uma trajetória marcada por desafios em potência criativa, usando a arte como libertação de estereótipos. Embaixadora do Sebrae, ela encontrou no artesanato a voz para se libertar de moldes sociais. Em seu ateliê (@natartartesanato), Nat celebra a vida e a identidade, mostrando que a manualidade é um território de autonomia. Suas criações são reflexos de uma mulher que despertou seus sonhos e hoje inspira o Brasil através do fazer manual com a fibra de carnaúba.
Bruno Silva (Rio de Janeiro) – Orgulho LGBTQIAPN+ e Alta Costura
Bruno Silva é um renomado designer e artista de bordado brasileiro que ganhou grande destaque internacional ao colaborar com grandes grifes da moda de luxo, como Dior e Balenciaga, além de criar peças exclusivas para celebridades como Beyoncé e Maria Bethânia. Foto: Divulgação
O artista têxtil Bruno Silva do ateliê Bruno Silva Broderie (@brunosilva_broderie) utiliza o bordado de alta costura para aproximar tradição europeia e vivacidade brasileira, criando fios de luxo que celebram a diversidade global. Através de técnicas refinadas, como o ponto Lunéville e a rara arte das penas, ele subverte a rigidez clássica aprendida em Paris, trazendo uma poética contemporânea que expressa a sensibilidade e o orgulho LGBTQIAPN+ no cenário da moda internacional. Seu trabalho é uma investigação estética onde a excelência feita à mão e o uso de matérias-primas raras tornam-se um manifesto de liberdade e sofisticação, consolidando o bordado de luxo como uma linguagem artística poderosa, plural e transformadora.
Sula Rodrigues (Pantanal, Mato Grosso do Sul) – Resistência Indígena
Sula Rodrigues, ancestralidade indigena passada de geração para geração em sua comunidade. Foto: Acervo Pessoal
Nascida no coração do Pantanal, a artesã indígena Sula Rodrigues (@sularodriguessalvador), do povo indígena La Lima da etnia Terena, transforma fios, miçangas e fibras naturais em manifestos vivos de resistência e memória. Seu fazer manual é profundamente ligado à sua linhagem: Sula é filha de dona Neide, artesã e primeira mulher a se tornar Cacique em sua comunidade, uma herança de liderança e força que ela estende para a preservação cultural de seu povo. Através de peças que carregam estéticas e grafismos tradicionais, ela traduz a cosmovisão e a ancestralidade de seu povo para o design contemporâneo. Toda essa riqueza de saberes ganha escala por meio da Bruaca (@bruacabr), um negócio de impacto socioambiental dedicado à divulgação e comercialização do artesanato de comunidades tradicionais pantaneiras. Ao unir a joalheria nativa ao mercado consciente, Sula prova que o verdadeiro luxo reside na permanência das histórias contadas através das mãos e no respeito absoluto aos ciclos da floresta e do bioma.
Ilana Cardoso (Mateiros, Tocantins) – Força Quilombola e Sustentabilidade
A artesã e empreendedora Ilana Cardoso na festa da colheita de capim-dourado, tradicional no Jalapão – Foto: Ilana Cardoso/Arquivo Pessoal
No Quilombo Mumbuca, Ilana Cardoso (@ilanarotanativa) é guardiã do capim-dourado e da memória de seus antepassados. Mais do que artesã, ela organiza roteiros autênticos para que o mundo conheça a história quilombola através de oficinas e trilhas ancestrais. Seu trabalho une o manejo sustentável do "ouro vegetal" à valorização da medicina tradicional, fazendo do artesanato um pilar de resistência comunitária e preservação ambiental no coração do Jalapão.
O artesanato como veículo de transformação
Valorizar esses cinco perfis é reconhecer que a beleza do artesanato brasileiro reside na sua diferença. Ao trazermos essas narrativas para o centro do debate, o SEBRAE e o CRAB protegem os saberes ancestrais e a identidade de um país que se encontra e se reconhece em cada ponto, traço e moldagem.

