Bonequinhas de barro do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Foto Divulgação: Sebrae / G1 MG, 2019.
Um histórico dos museus brasileiros e a valorização da arte popular e do artesanato
Antes de ocuparem salas expositivas e acervos especializados, artesanato brasileiro e arte popular circularam por coleções etnográficas, estudos folclóricos e iniciativas voltadas à preservação da cultura material brasileira. Ao longo do século XX, especialmente com o fortalecimento das pesquisas sobre folclore, cultura popular e patrimônio, esses objetos passaram a ser reconhecidos não apenas por seu valor estético ou utilitário, mas também como testemunhos de memória, identidade e conhecimento ancestral.
No Brasil, esse processo ganha força com a criação de instituições dedicadas à preservação e à difusão da cultura popular. Um marco importante é o Museu de Folclore Edison Carneiro, inaugurado em 1968, no Rio de Janeiro, considerado uma das primeiras instituições públicas brasileiras voltadas à pesquisa, preservação e exposição sistemática de acervos de folclore, arte e cultura popular. A partir desse reconhecimento, o fazer manual passa a ocupar um lugar mais amplo no campo museológico, cultural e educativo.
De Norte a Sul do Brasil, museus, centros culturais e espaços expositivos cumprem papel fundamental nesse processo de valorização. Ao reunir cerâmicas, biojoias, tramas, bordados, esculturas, peças indígenas, objetos de barro, fibras, madeira e outros materiais, esses locais atuam como guardiões da memória coletiva, aproximando o público da diversidade de técnicas, territórios e narrativas que formam o artesanato e a arte popular brasileira.
Artesanato de referência paraense no Espaço São José Liberto, em Belém. Foto: Divulgação / Agência Pará, 2023.
Traços marajoaras e identidade amazônica
Na região Norte, o Espaço São José Liberto, instalado em um edifício histórico do século XVIII, na Praça Amazonas, em Belém, se consolida como uma vitrine expressiva da cultura amazônica e do fazer manual desse território. O espaço reúne o artesanato regional e a delicada produção de biojoias, traduzindo, em matéria e forma, a relação profunda entre natureza e identidade local. A relação com o território é tão intrínseca que o espaço já recebeu uma exposição intitulada “Toró”, que transforma a chuva — elemento tão presente no cotidiano paraense — em inspiração estética e narrativa. Em Belém, a chuva não é apenas fenômeno climático, mas parte do imaginário coletivo, atravessando poemas, músicas e expressões do dia a dia.
O ambiente abre espaço para a comercialização colaborativa do artesanato paraense, com exposição de peças com traços marajoaras. As peças são oriundas de diversas regiões do estado e utilizadas como ferramenta de geração de renda para os artesãos.
Museu do Homem do Nordeste: um encontro com as raízes do povo nordestino
Já no Nordeste, em Recife, o Museu do Homem do Nordeste destaca-se como uma das principais instituições dedicadas à preservação e valorização da cultura nordestina. Vinculado à Fundação Joaquim Nabuco, o espaço reúne um amplo acervo que retrata os modos de vida, os costumes, o artesanato, as manifestações populares e as transformações sociais da região ao longo do tempo. Entre os destaques estão as exposições de longa duração, que promovem uma leitura crítica e sensível da formação cultural do Nordeste brasileiro, integrando elementos da cultura popular, da religiosidade, do trabalho e das tradições do sertão, do litoral e das áreas urbanas. O museu também desenvolve ações educativas, exposições temporárias e atividades culturais voltadas à aproximação do público com a memória e a diversidade cultural nordestina.
Fachada do Museu do Homem do Nordeste na cidade do Recife. Foto: divulgação / Museu do Homem do Nordeste, Fundaj.
Peças de cerâmica do Museu do Homem do Nordeste, em Recife. Foto: Divulgação Fundaj / Correio Braziliense, 2022.
Minas e Rio: arte popular regional e nacional
No Sudeste, a colcha de retalhos do artesanato mineiro pode ser percebida no Centro de Arte Popular Cemig, em Belo Horizonte. Dedicado à arte popular mineira, o público pode conhecer obras de artistas de várias regiões de Minas Gerais, como o Vale do Jequitinhonha, Cachoeira do Brumado, Divinópolis, Prados, Ouro Preto, Sabará e outras, entrando em contato com elementos representativos da pluralidade da cultura mineira.
Acervo do Centro de Arte Popular Cemig, dedicado à arte popular mineira. Foto: Élcio Paraíso / IEPHA-MG, s.d.
Ainda no estado de Minas Gerais, no Museu Regional do Artesanato do Jequitinhonha, localizado na cidade de Minas Novas, a quase sete horas da capital, é possível sentir a força das mãos femininas nas peças de cerâmica tradicional. O artesanato em barro é feito por artistas da cidade e de outros municípios, como Turmalina, Capelinha, Araçuaí, Itinga, Itaobim, Caraí e Ponto dos Volantes. Preservada por gerações, essa arte é praticada em sua maioria por mulheres, cujo conhecimento e produção de cerâmica vêm de seus ancestrais.
Peças de cerâmica do Museu Regional do Artesanato do Jequitinhonha, em Minas Novas. Foto: Divulgação / Circuito Turístico das Pedras Preciosas, s.d.
Passando pelo estado do Rio, o CRAB – Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro ocupa um conjunto histórico na Praça Tiradentes com espaços expositivos de artesanato, além de programação de oficinas educativas para escolas e debates voltados ao tema para todos interessados nesse universo. Aqui no Portal você acompanha a programação de todos os eventos e exposições.
O reconhecimento histórico do artesanato e do folclore brasileiro tem como marco, no Rio de Janeiro, a criação do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Em 1968, ele abrigou uma das primeiras instituições públicas brasileiras dedicadas à preservação, pesquisa e exposição sistemática do acervo de cultura e arte popular: o Museu de Folclore Edison Carneiro. Localizado no bairro do Catete, o museu soma hoje cerca de 17 mil objetos, que alimentam a exposição de longa duração, além de exposições temporárias na Galeria Mestre Vitalino.
Fachada do Museu de Folclore Edison Carneiro, no Rio de Janeiro. Foto: Alexandre Macieira / RioTur via Time Out, 2023.
Peças do Museu de Folclore Edison Carneiro, no Catete, Rio de Janeiro. Foto: Divulgação / Diário do Rio, 2022.
A capital carioca também abriga o Museu do Pontal, que reúne um dos maiores acervos de arte popular do Brasil. São mais de 10 mil obras de mais de 300 artistas de todas as partes do país, com obras de Mestre Vitalino, Manuel Eudócio e Adalton, entre outros autores menos divulgados, como Manuel Fontoura, descendente de indígenas, que nasceu na aldeia de Águas Belas, no interior de Pernambuco. Criado no campo, numa fazenda situada em Garanhuns (PE), desde pequeno produziu objetos a partir do barro e dos mais inusitados materiais, como barba-de-bode e mandioca linheira.
Museu do Pontal no Rio de Janeiro reúne obras de artistas como Mestre Vitalino, Manuel Eudócio e Adalton. Foto: Beth Santos / Prefeitura do Rio, 2021.
Obras expostas no Museu do Pontal, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação / Museu do Pontal.
Casa da Alfândega e o artesanato catarinense
Já no Sul do país, a Casa da Alfândega, situada no centro histórico de Florianópolis, destaca-se como um importante polo de valorização do artesanato sulista. Construído em estilo neoclássico e inaugurado em 1876 como prédio da Alfândega, o espaço atravessou diferentes usos ao longo do tempo até se consolidar como referência cultural. Atualmente, abriga a 11ª Coordenadoria Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Santa Catarina, além da Galeria do Artesanato da Fundação Catarinense de Cultura e áreas dedicadas às artes plásticas. Aberta ao público e aos artesãos, a Galeria do Artesanato cumpre um papel estratégico ao expor, comercializar e valorizar peças produzidas no estado, reforçando a identidade cultural catarinense.
Galeria do Artesanato da Casa da Alfândega, em Florianópolis. Foto: Márcio Henrique Martins / FCC, s.d.
Do Pantanal às aldeias: identidade e tradição no Centro-Oeste
No Centro-Oeste, no estado de Mato Grosso do Sul, a Galeria Curandera, localizada em Bonito, reúne o artesanato e a inspiração de artistas locais, além de receber exposições itinerantes de obras indígenas. A “selaria”, por exemplo, traduz de forma autêntica a vivência do campo em peças carregadas de identidade, enquanto obras indígenas das etnias Kinikinau, Terena e Kadiwéu se destacam por suas cerâmicas expressivas, marcadas por formas singulares, cores intensas e significados ancestrais.
Artesanatos indígenas e à riqueza da linguagem pantaneira. foto: Divulgação / Fundação de Cultura Mato Grosso do Sul, 2025.
Já a Casa do Artesão de Campo Grande (MS), situada em um prédio histórico e centenário que marca o crescimento da capital, destaca-se pela venda de artesanato indígena há mais de 30 anos, com a participação das etnias Kadwéu, Terena e Kinikinau. Elizabeth da Silva, da etnia Kadwéu, trabalha com artesanato feito com argila e barro, que é extraído da própria aldeia. A artesã Cleonice Roberto Veiga, mais conhecida como Cléo Kinikinau, expõe suas peças, junto com sua mãe, Ana Lúcia da Costa, há um ano. São peças em cerâmica e argila, além de colares, brincos e pulseiras. Creusa Virgílio, da etnia Kadwéu, também dedica-se a cerâmica.
Artesanato indígena na Casa do Artesão de Campo Grande. Foto: Ricardo Gomes / Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, 2025.
Fora do grande centro urbano, ainda em Campo Grande (MS), o Memorial da Cultura Indígena Cacique Enir Terena oferece produtos feitos pela população local, artesanalmente. Ele está localizado na Aldeia Urbana Marçal de Souza.
Artesanato do Memorial da Cultura Indígena Cacique Enir Terena, em Campo Grande. Foto: Divulgação / Memorial da Cultura Indígena Cacique Enir Terena, [s.d.].
Centros Culturais revelam nosso Brasil feito a mão
O pesquisador Ricardo Lima, em seu artigo “Artesanato: Cinco pontos para discussão”, aponta como a tradição e o mundo contemporâneo ainda dialogam com a essência do processo manual. No trabalho do artesão de ontem ou hoje, as ferramentas e máquinas assumem papel secundário diante da autonomia do fazer. A liberdade de definir o ritmo da produção, escolher a matéria-prima e empregar diferentes técnicas confere singularidade a cada peça.
Percorrer o artesanato brasileiro é, em essência, atravessar um país de memórias moldadas à mão. Em um país de dimensões continentais, cada região revela técnicas, matérias, símbolos e narrativas que ampliam a compreensão sobre quem somos enquanto nação. Dos traços marajoaras da Amazônia às cerâmicas do Jequitinhonha, das expressões sertanejas do Ceará às identidades pantaneiras e indígenas do Centro-Oeste, há um Brasil vasto, plural e ainda a ser descoberto por meio de seus museus, centros culturais e comunidades artesãs. Valorizar esses espaços é reconhecer que o patrimônio cultural brasileiro também está nas mãos de quem transforma barro, fibra, tecido e memória em herança coletiva.

