Caboclos de fita em apresentação no Maranhão. (Foto: Divulgação/ Prefeitura de São Luís. G1 Maranhão, 2023).
As vestimentas dos diferentes soquetes do Bumba Meu Boi do Maranhão revelam bordados que ornamentam tanto os personagens quanto o couro dos bois. Confeccionadas artesanalmente com miçangas, canutilhos, fitas, paetês e pedrarias, as indumentárias transformam os arraiais em verdadeiros espetáculos de cores e brilho. São adornos símbolos da manifestação cultural maranhense, reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
Além de vestir os personagens do Bumba Meu Boi, as indumentárias preservam o fazer manual, que é transmitido entre gerações e mantém viva uma tradição de um vasto e complexo conjunto de características entre os mais de 430 grupos espalhados pelo estado, segundo o mapeamento do projeto “Caminhos da Boiada”, dos pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), na iniciativa de pesquisa e extensão coordenada pelo Grupo de Estudos em Cultura.
A tradição se apresenta em diferentes “sotaques”, termo utilizado para identificar os estilos musicais e performáticos dos grupos de boi. Cada sotaque possui características próprias nas indumentárias e conta com um trabalho artesanal minucioso. No artigo anterior apresentamos um pouco mais sobre os sotaques.
Cada peça revela símbolos religiosos, elementos da natureza e referências da cultura popular maranhense. Chapéus, blusas, saias e calças ganham brilho com bordados ricos em detalhes, reforçando o caráter visual da manifestação. Entre os materiais utilizados estão veludos, cetim, fitas coloridas, miçangas, canutilhos, paetês, penas e couro.
Bordado: a técnica que encanta
Detalhes do bordado na roupa de brincante do Boi Brilho de Areia Branca, em Cururupu (MA). (Foto: Sharlene Melanie / CRAB Sebrae, 2025).
Os bordados são produzidos nos barracões dos grupos ou em pequenas oficinas domésticas, onde artesãos dedicam horas ao trabalho minucioso de aplicar miçangas e canutilhos nas vestimentas, em calças, blusas e chapéus. O processo começa a partir dos desenhos feitos em papel de arroz, que servem como base para a criação dos bordados. Dependendo da complexidade da peça, a produção pode levar de uma semana a até um mês para ser concluída. Os desenhos são pintados e depois recortados para serem costurados nas roupas que receberão o bordado.
O trabalho do artesanato em grupos de boi é uma ciência – tem método, conhecimento e muita prática. Os bordados têm a criação de diferentes grupos, mas também semelhanças já que as aplicações de paetês, miçangas, canutilhos e pedrarias sobre couro e veludo ilustram a devoção popular com santos, a fauna e flora maranhense. A qualidade e a originalidade desses bordados têm conquistado reconhecimento além dos arraiais. Marcas de projeção nacional, como a Farm — marca carioca de roupas —, já incorporaram referências do Bumba Meu Boi em coleções inspiradas na cultura maranhense, incluindo parcerias com artesãos ligados ao Boi de Santa Fé, de São Luís. O mesmo ocorre com a marca ludovicense Moda do João, que incorpora elementos da tradição popular em suas criações. Em algumas coleções, os bordados produzidos por artesãos do Boi da Floresta acrescentam autenticidade e valorizam ainda mais as peças, evidenciando a força do artesanato maranhense no universo da moda contemporânea.
Segundo Maria Paes, do Boi Mimo de São João, o processo de criação dos bordados acontece de maneira intuitiva, ligado à devoção popular:
“O santo que a gente acha bonito, a gente amplia e vai colocando no couro do boi. E aí, a gente vai vendo as cores e colocando.” (Beto Matuck Filmes, 2011). “O santo que a gente acha bonito, a gente amplia e vai colocando no couro do boi. E aí, a gente vai vendo as cores e colocando.” (Beto Matuck Filmes, 2011).
O uso de pedrarias e canutilhos define a identidade de cada grupo. Uma particularidade do bordado Costa de Mão é justamente o uso dos canutilhos em todos os desenhos.
Dona Luiza, a bordadeira do Bumba Meu-Boi Rama Santa
Maria Luiza Santos Abreu – Bordadeira do Bumba-Meu-Boi Rama Santa (Costa de Mão). Foto: divulgação / AMAISNOTÍCIAS.
Referência no bordado tradicional, Maria Luiza construiu uma trajetória de mais de 46 anos dedicada à arte da agulha e da linha. Nascida em 1959, na comunidade Cabanil, em Serrano do Maranhão, aprendeu o ofício de forma autodidata, desmontando indumentárias de vaqueiros para compreender a técnica dos pontos. Especialista no sotaque Costa de Mão, destaca-se pelo trabalho com miçangas, canutilhos e pedrarias e atua há mais de uma década como bordadeira-chefe do Boi Rama Santa. Ex-lavradora e mãe de sete filhos, transformou o artesanato em fonte de renda e autonomia, tornando-se inspiração para outras mulheres da comunidade. Devota de São João, imprime em suas peças elementos da fé popular e, atualmente, dedica-se à transmissão desse conhecimento por meio de oficinas voltadas a crianças e jovens.
Assista aqui parte do processo de Dona Luiza: https://www.instagram.com/p/C9XNrXIxBUu/
Caboclo de fita
O colorido dos Caboclos de fitas (Foto: G1 MA, 2023)
Os caboclos de fita — também chamados de vaqueiros de fita ou “rajados” — estão presentes, principalmente, nos sotaques de Matraca (ou da Ilha) e de Zabumba. Eles usam chapéus adornados com centenas de fitas coloridas, além de camisas e calças de cetim, golas e saiotes de veludo bordados manualmente. Os chapéus marcam presença principalmente nos sotaques de Matraca. Eles também podem aparecer em grupos do sotaque da Baixada e Costa de Mão.
As fitas simbolizam os gravetos e cercas utilizados para proteger o gado nas fazendas, reforçando a função simbólica desses personagens de “proteger o boi” durante as apresentações.
No sotaque de Costa de Mão, originário da região de Cururupu, no litoral noroeste do Maranhão, os rajados usam o chapéu em formato de cone com fitas coloridas longas, bordados e renda. O personagem também representa a população negra escravizada.
Chapéu do Boi Rama Santa, sotaque de Costa de Mão, no Arraial de Santo. (Foto: Instragram @ja2_photos, 2025).
Assista ao vídeo https://www.youtube.com/watch?v=IqBDAI_MoHQ para conhecer mais sobre o sotaque Costa de Mão e as particularidades de suas indumentárias.
Caboclos de pena
No sotaque de Matraca, as indumentárias utilizadas pelos bois de matraca apresentam características únicas, distintas dos demais sotaques. Por serem originários da zona rural da Grande Ilha de São Luís, os trajes eram confeccionados, tradicionalmente, com materiais provenientes do meio natural, como penas de aves rústicas e couro de animais. Hoje são feitas com outros materiais comercializados. Eles usam grandes capacetes (cocares) e palas nos braços e pernas, feitos sobre estruturas aramadas ou de papelão. As penas são aplicadas uma a uma, sobrepondo-se para criar um efeito volumoso. Podem ser tingidas com cores vivas e escuras.
Caboclos de pena do sotaque de matraca. (Foto: Divulgação/Centro Cultural Vale. G1, 2022)
Cazumbá
No sotaque da Baixada, o Cazumbá, uma figura mística entre homem e bicho, usa uma máscara de madeira de nariz comprido, que inclui também bordados e muito brilho. Veste roupas compridas e chocalhos, e aparece para proteger o boi e divertir o público.
Cazumbá: nem homem, nem mulher e nem animal: um ser mágico. Foto: Wikipedia, 2025.
“Índios”
Os personagens chamados “Índios” ocupam lugar de destaque por representarem, simbolicamente, os povos indígenas que historicamente habitaram o Maranhão. Suas indumentárias coloridas, adornadas com penas, pinturas corporais e acessórios inspirados em referências indígenas, com cocar feito com penas naturais ou artificiais. Perneiras e munhequeiras, confeccionadas sobre telas ou rendas, bordadas manualmente com pedrarias e finalizadas com penas nas pontas para dar movimento à dança.
A representação simbólica dos indígenas nos grupos de Bumba Meu Boi. (Foto: Divulgação. G1 MA – Rede Mirante, 2023)
Mais do que um elemento visual, os “Índios” exercem uma função simbólica dentro da brincadeira. As personagens evocam a força da natureza, a proteção dos elementos naturais e a transmissão de conhecimentos entre gerações.
A presença dos “Índios”, no entanto, varia conforme o sotaque e a região de origem dos grupos. Nos bois de sotaque de orquestra, por exemplo, essa personagem assume papel central na encenação. Grupos como o Boi de Nina Rodrigues, Boi de Axixá, Boi de Morros, Boi Brilho da Ilha e Boi Novilho Branco são conhecidos por destacar os “Índios” em suas apresentações, transformando-os em uma das marcas visuais e culturais desse estilo de Bumba Meu Boi.
Vaqueiros
O personagem do vaqueiro é uma das mais marcantes do Bumba Meu Boi. Composta por calças e camisas de manga comprida confeccionadas em cetim, a vestimenta ganha imponência com golas, capas e saiotes estruturados em veludo. Cada peça é cuidadosamente ornamentada à mão com miçangas, canutilhos, paetês e outros adornos que conferem brilho e riqueza de detalhes aos figurinos.
Bois de orquestra têm brilho e mistura de sons e cores. (Foto: Divulgação Centro Cultural da Vale. G1, 2022)
O chapéu passa por um processo minucioso que pode levar semanas até a finalização. A peça é confeccionada sobre uma estrutura revestida de veludo e recebe bordados elaborados com miçangas, canutilhos, lantejoulas e pedrarias, formando desenhos inspirados na tradição da brincadeira. Após o bordado, são aplicados os acabamentos, como fitas e franjas, que garantem o colorido e o brilho característicos do adereço. O chapéu de vaqueiro possui formatos distintos, fitas coloridas e penas. Ele é elemento tradicional nos sotaques de Zabumba, Baixada, Costa de Mão e Matraca.
Chapéu elaborado com miçangas, canutilhos Foto: Instagram @boimeutamarineirooficial, 2026
Os chapéus de Vanda Bandeira
O chapéu bordado tornou-se um dos ícones da moda junina maranhense e tem impulsionado o trabalho das artesãs, já que passou a ser adotado não apenas pelos integrantes dos grupos folclóricos, mas também pelo público durante os festejos. No ateliê da artesã Vanda Bandeira, a produção exige paciência, técnica e habilidade, pois cada detalhe é cuidadosamente bordado à mão, resultando em peças exclusivas com inspiração no cenário de São Luís. A produção é feita também em família, sua irmã, Dayana, também participa de todas as etapas do processo de confecção.
Artesã Vanda recebe encomendas de turistas em seu ateliê em São Luiz. Foto: Instagram, 2026.
Os chapéus são produzidos com miçangas, canutilhos, lantejoulas, pedrarias com símbolos religiosos, pontos turísticos de São Luís e até mesmo os tradicionais azulejos que ornamentam o Centro Histórico da capital. As peças podem ser encomendadas pelo Instagram @vandaarteslz.

