Arte Sacra. Foto: Francisco Leal / Governo do Piauí, 2024.
No Piauí, troncos de madeira se transformam em santos, anjos e figuras regionais nas mãos de mestres artesãos. Essa tradição, reconhecida em 2024 como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, revela nas esculturas a devoção popular e fortalece a identidade cultural, consolidando o estado como referência nacional na obra sacra.
Produzida desde o período colonial, a arte santeira eterniza comemorações ao divino
Anjo esculpido em madeira. Foto: Divulgação / IPHAN, 2024.
Santeiros do Piauí são os artesãos que revelam símbolos da devoção popular, a partir de troncos de árvores e pedaços de madeira. Em suas mãos, santos católicos, anjos e figuras regionais ganham forma.
No ano de 2024, a arte santeira foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
Na Páscoa, quando a lembrança da Paixão de Cristo renova práticas de fé, esses mestres artesãos ganham visibilidade. Nesse período, igrejas e templos encomendam obras para reverenciar momentos históricos como a Via Sacra. As imagens além de tocar o coração de devotos, eternizam as comemorações ao divino.
As raízes desse fazer manual tem origem na colonização brasileira, quando padres jesuítas e franciscanos trouxeram imagens da Europa e introduziram a religião católica no país. Santos em madeira, barro e pedra, foram produzidos ao longo de séculos, criando uma tradição que se consolidou em muitos locais do Brasil e, no Piauí especialmente com a madeira.
A arte santeira nesse território desenvolveu nomes que se tornaram referência nacional e internacional. Mestres como Dezinho, Expedito, Cornélio e Dico, além de artesãos de cidades como Parnaíba, Piracuruca e José de Freitas, projetaram o Piauí como um dos grandes pólos da escultura sacra no Brasil.
Obras sacra personificam divindades
Obras de santeiros do Piauí. Foto: Divulgação / Agência Brasil, 2024.
Santos católicos como São Francisco de Assis, Santo Antônio, Nossa Senhora da Conceição e São José são talhados manualmente pelos mestres santeiros. A riqueza de detalhes presente em cada escultura enriquece o imaginário popular e fortalece a fé de milhares de fiéis.
Devotos recorrem às entidades protetoras e veem nas esculturas a personificação da cura para doenças e enfermidades de familiares e entes queridos. Entre as mais veneradas pela população brasileira estão: Nossa Senhora Aparecida, Santa Luzia e São Sebastião, cujas devoções se relacionam à esperança de proteção, saúde e bem-estar.
Além dos santos, os artesãos esculpem imagens de anjos e cenas bíblicas. Obras como a Via-Sacra, a Pietá e a representação de Adão e Eva no Paraíso retratam tradições cristãs. Destacam-se ainda imagens do Menino Jesus, Cristo Crucificado e Cristo Ressuscitado. A expressividade de cada peça, marcada por traços barrocos, revela a capacidade dos artesãos em unir sensibilidade artística e visão cultural.
As obras, além de adornarem o interior das igrejas, atendem às práticas religiosas dos fiéis. Em gratidão pelas graças alcançadas, muitos encomendam ex-votos, pequenas esculturas que representam partes do corpo humano, como braços, pernas e corações. Essas peças são oferecidas como pagamento de promessas feitas às entidades. No Piauí, os ex-votos são considerados uma das expressões mais autênticas da religiosidade popular.
O processo criativo da arte santeira
Artesão talhando imagem. Foto: Divulgação / IPHAN, 2024.
Para esculpir e dar vida às obras, os santeiros utilizam madeiras como o cedro, mulungu e imburana. O artesão escolhe o tronco observando densidade, formato e proporções, imaginando a figura que surgirá.
Veja a seguir algumas etapas do processo produtivo:
Obra sendo esculpida. Foto: Divulgação / Raiz Art, 2022.
Cortes: com enxó e serrote, o artesão abre a madeira e define a estrutura principal, cabeça, tronco, braços e base. É a fase mais pesada e exige firmeza.
Esculpir: formões de diferentes tamanhos, facas afiadas e compassos permitem talhar feições do rosto, mãos e indumentária.
Desenho: os artesãos, de modo geral, iniciam o trabalho desenhando olhos, boca, cabelos e ornamentos a lápis, antes de começar a talhar.
Acabamento: superfícies são raspadas e arredondadas, suavizando o contorno e preparando a peça para o polimento.
Polimento: lixas de diferentes espessuras deixam a textura macia ao toque, eliminando imperfeições e marcas da madeira.
Proteção final: aplicação de cera de carnaúba para nutrir e preservar a cor da madeira.
Mestres da Arte Santeira: Dezinho, Expedito e Cornélio
Esculturas dos Mestres Dezinho e Expedito. Foto: Divulgação / Band Piauí, 2023.
A história da arte santeira do Piauí não pode ser contada sem destacar os mestres que lhe deram forma, identidade e projeção. Entre eles, Dezinho, Expedito e Cornélio se tornaram referências, cada um com estilo próprio.
Eles consolidaram o Piauí como um dos grandes centros do imaginário religioso do Brasil. Esses mestres, além de criarem obras de grande valor artístico, também transmitem o saber do fazer à mão, formando discípulos e ajudando a consolidar a arte santeira como patrimônio cultural.
Mestre Dezinho
Escultura de Mestre Dezinho. Foto: Divulgação / Alexei Arremate, 2023.
Mestre Dezinho, José Alves de Oliveira, nascido na cidade de Valença do Piauí, ocupa lugar central na arte santeira. Sua obra, abrigada na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, foi responsável por dar visibilidade nacional à tradição. Reconhecido como patrono da arte santeira no Piauí, o artista iniciou sua trajetória confeccionando ex-votos. Ele começou produzindo estatuetas, pinturas e representações de partes do corpo humano, todas talhadas em madeira.
Mestre Dezinho, em boa parte de suas obras, manteve o tamanho natural das figuras representadas. Nas vestes dos santos, frutos e outros detalhes da natureza sertaneja transformam cada peça em um retrato da identidade cultural do Piauí.
Esse estilo fez sua obra ser conhecida em várias cidades brasileiras e em outros países. Esculturas de Dezinho foram exibidas na Europa e em outros continentes, levando ao mundo a arte santeira piauiense.
Mestre Expedito
Mestre Expedito. Foto: Divulgação / TV Assembleia, 2017.
Natural da cidade de Domingos Mourão, Mestre Expedito Antonino dos Santos trabalhou desde novo em diferentes ofícios. Ele já atuou como pedreiro, carpinteiro, sapateiro, ferreiro e até fabricante de instrumentos musicais. Mas foi como marceneiro que se encantou com a escultura em madeira. Seu talento foi notado quando, incentivado pelo prefeito de sua cidade, participou de uma feira de arte popular em Teresina e conquistou o primeiro lugar.
Em 1969, mudou-se com a família para Teresina, onde aumentou a sua produção e passou a realizar obras de grande porte. Trabalhou ao lado de Mestre Dezinho na Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, criando molduras da Via-Sacra, uma pia batismal e peças em alto e baixo relevo. Inspirado pela obra de Aleijadinho, incorporou ao seu estilo traços barrocos, destacando feições naturais em suas esculturas, sem perder as características regionais.
O santeiro, falecido no ano de 2022, aos 90 anos, já produziu mais de dez mil esculturas, segundo o portal Escritório de Artes. Dentre elas, estão imagens de santos como São Francisco, Nossa Senhora da Conceição e Santo Antônio. Suas obras estão espalhadas em igrejas de várias localidades, tais como Piauí, Rio de Janeiro e até no Chile. Reconhecido no Brasil e no exterior, recebeu diversos prêmios e, em 2005, foi condecorado com a Medalha do Mérito Renascença do Piauí.
Mestre Cornélio
Escultura Mestre Cornélio. Foto: @xapuribrasil / Instagram, 2023.
Mestre José Cornélio de Abreu nasceu na cidade de Campo Maior, no Piauí. Iniciou sua trajetória artística ainda adolescente, quando o padre italiano de sua comunidade pediu que esculpisse a imagem de Cristo para a nova capela. Usando um galho de cajueiro envelhecido, produziu uma figura com o braço torto, em virtude das condições da madeira. Mesmo assim, para o padre, a obra conseguiu retratar com fidelidade a imagem sacra. Apesar da resistência do pai, que via pouco futuro no ofício, Cornélio recebeu incentivo de religiosos e amigos, que compravam suas peças para motivá-lo.
Suas primeiras obras incluíram uma Pietá e uma cabeça de jumento entalhada em madeira de flamboyant, que chamou atenção em feiras e centros de artesanato. Esses trabalhos abriram caminho para sua participação em concursos e exposições, onde começou a ser reconhecido pelo talento e criatividade.
Em 1974, Cornélio concorreu ao concurso de presépios ao lado de mestres como Dezinho e Expedito, ficando em segundo lugar. A partir daí, acumulou prêmios e representou o Brasil em Padova, na Itália, concretizando a profecia do padre que o incentivara na juventude: sua arte, nascida de um simples galho de cajueiro, o levaria a cruzar fronteiras e se tornar um dos grandes nomes da arte santeira piauiense. Ao lado de Dezinho e Expedito, Cornélio ajudou a consolidar o núcleo de mestres que se tornaram referência para toda uma geração.
Nova geração de santeiros, Mestre Kim
Escultura Mestre Kim. Foto: @ brasileirinhotiradentes / Instagram, 2025.
A trajetória de Mestre Dezinho não se encerrou com sua partida; ao contrário, abriu caminho para que novos artesãos perpetuassem sua obra. Entre seus discípulos está José Joaquim, conhecido como Kim. Foi aprendiz direto de Dezinho e guarda na memória as lições transmitidas pelo mestre, tanto na técnica quanto nos valores.
A convivência com o mestre moldou sua trajetória. Joaquim recorda não apenas os ensinamentos práticos, mas também as histórias e conselhos que ouviu durante o tempo em que trabalhou ao lado de Dezinho. Essa experiência consolidou nele o compromisso de manter a qualidade das peças, mesmo quando vendidas a preços modestos.
Hoje, Kim é reconhecido como mestre e continua a produzir esculturas que dialogam com a fé popular e com a estética regional. Sua obra é vista como extensão do legado de Dezinho.
Arte Santeira reconhecida como Patrimônio Cultural
Anjo esculpido em madeira. Foto: Lívia Ferreira / G1, 2024.
Em 2024, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconheceu a arte santeira do Piauí como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. O título, além de valorizar o trabalho dos artistas, garante a preservação de uma das manifestações mais autênticas da cultura popular brasileira.
A conquista abre caminho para políticas públicas voltadas ao fortalecimento da atividade.
Igreja preserva obras santeiras do Piauí
Igreja Nossa Senhora de Lourdes. Foto: Divulgação / Portal AZ, 2025.
Construída entre as décadas de 1960 e 1970, a Igreja Nossa Senhora de Lourdes, em Teresina, no Piauí, conhecida como Igreja da Vermelha, abriga um dos maiores acervos da arte santeira do Piauí. Grande parte das esculturas sacras é de autoria do Mestre Dezinho, contando também com peças produzidas pelo Mestre Expedito. Em 2024, a arquitetura e o acervo do templo foram tombados como Patrimônio Cultural do Brasil.

