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Sotaques do Bumba Meu Boi do Maranhão e seus instrumentos tradicionais

O Bumba Meu Boi é a tradição popular do Maranhão que no mês de junho vai às ruas com seus diferentes sotaques — estilos que distinguem os grupos pela musicalidade, pelos instrumentos artesanais, pelas danças e pelas vestimentas. A identidade de cada região do estado é representada na festa dessa manifestação que envolve maranhenses e turistas.

10/06/2026EQUIPE CRAB

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Durante o período junino, os municípios maranhenses transformam-se em verdadeiros cenários de celebração popular com as festas dos santos. O Bumba Meu Boi é uma das expressões mais emblemáticas da identidade maranhense, reunindo história, religiosidade, música, dança e ancestralidade em um espetáculo que atravessa gerações e os limites do Estado.

Essa manifestação, além de símbolo cultural, preserva memórias afetivas que acompanham os maranhenses desde a infância. Nele, a musicalidade desempenha papel central, pois é por meio dela que se estabelece a comunicação entre os participantes, os dançarinos e o público. Mas se engana quem pensa que o Bumba Meu Boi maranhense é uma coisa só. A tradição apresenta diferentes “sotaques”, termo utilizado para identificar os estilos musicais e performáticos dos grupos de boi. Cada sotaque possui características próprias de ritmo, indumentária, instrumentos e formas de cantar, refletindo diferentes influências indígenas, africanas e europeias presentes na formação cultural do Maranhão. Neles, as “toadas”— canções tradicionais — narram histórias de fé, resistência, trabalho e celebração, funcionando como registros da memória popular maranhense.

foto 2.png Bumba Meu Boi do Maranhão durante apresentação cultural em celebração da certificação como Patrimônio Cultural da Humanidade. (Foto: G1 Maranhão, 2025).

Os instrumentos do Bumba Meu Boi

Os sotaques são reconhecidos principalmente pela sua sonoridade, que vem acompanhada dos instrumentos artesanais. Conceitos como a “tropeada” e as “batidas dos batalhões” ajudam a explicar a identidade sonora que diferencia cada um deles. A tropeada é o conjunto de variações rítmicas, executadas pelos instrumentos de percussão, especialmente matracas e pandeirões, criando movimentos sonoros que dão dinâmica às toadas e às apresentações. Já as batidas dos batalhões se referem à forma coletiva como os grupos de músicos e brincantes executam os ritmos, produzindo uma marca sonora própria reconhecida pelo público e pelos próprios integrantes.

foto 3-ajustada.png Boi de Ribamar durante apresentação do sotaque de matraca do Bumba Meu Boi do Maranhão. (Foto: divulgação/ Ascom SECMA, 2025).

Além da riqueza musical, os sotaques do Bumba Meu Boi expressam diferentes modos de viver e interpretar o mundo. Em comum, todos os sotaques trazem instrumentos confeccionados artesanalmente pelas próprias comunidades brincantes, reforçando o caráter coletivo e tradicional da festa.

Os instrumentos e os mestres artesãos

Os instrumentos artesanais do Bumba Meu Boi são produzidos por habilidosos mestres que herdaram esse conhecimento daqueles que vieram anteriormente. O trabalho em couro, madeira e metal realizado por esses artesãos, é um trabalho de luthieria, que exige precisão e cuidado para atingir a sonoridade desejada.

Podemos destacar três principais instrumentos maranhenses: o pandeirão, a matraca e o tambor-onça.

Pandeirão

Um grande tambor semelhante ao pandeiro, sem platinelas. Tradicionalmente é feito com couro animal e madeira, porém também possui versão com metal e nylon. Os instrumentos de couro são tradicionalmente afinados junto às fogueiras juninas, onde o calor tensiona o material até atingir a sonoridade ideal para acompanhar as toadas dos grupos. Com a frequência das chuvas durante o período de São João, os modelos revestidos com nylon passaram a ser utilizados como alternativa.

GRUPO CUPUAÇU.jpg Pandeirão de couro. Foto: divulgação / Grupo Cupuaçu Facebook (2024)

O aro do pandeiro é construído manualmente, com ajuda de algumas ferramentas. O trabalho para entornar é de muito cuidado para não quebrar a madeira. O couro de cabra é limpo e pregado no aro. A afinação é feita na fogueira.

Mestre João Sodré dos Santos

Tudo o Mestre João aprendeu com artesãos mais velhos, inclusive o cuidado do momento de tirar a madeira, no escuro para evitar algumas pragas. A sabedoria popular que está profundamente ligada ao contato com a natureza, uma ciência ancestral. O mestre também desenvolveu uma mesa de gabarito que serve para dar a forma no aro e padronizar o tamanho dos pandeirões.

Matraca

São dois pedaços de madeira, batidos um contra o outro, que produzem um som poderoso, símbolo de um do sotaque da Ilha. Podem ser feitas de diversos tamanhos, entretanto o detalhe da sonoridade também está no tipo de madeira e no acabamento, as cavas que são feitas nas superfícies que são batidas. As madeiras utilizadas podem ser Pau-d'arco(ipê), Maçaranduba, Tatajuba.

As matracas aparecem também personalizadas, pintadas com motivos da brincadeira.

boida floresta.webp Boi da Floresta de Mestre Apolônio completa 50 anos e recebe homenagem em São Luís — Foto: divulgação / G1. (2022)

Antônio José e Robson Nunes – mestres artesãos

Irmãos que aprenderam o ofício em família, hoje trabalham juntamente com o sobrinho Roque Nunes. A família possui uma marcenaria, que produzem móveis, mas também as matracas. O uso de maquinários para o corte da madeira não exclui o trabalho manual do acabamento, momento em que o detalhe da sonoridade é dado com o entalhe das cavas. Em 2025, foram mais de 2000 pares de matracas já produzidas com muito orgulho de contribuir com a cultura do estado.

Tambor-onça

Tambro onça.jpg Tambor onça de Oswaldo Abreu. Foto: divulgação @ateliesonhosslz / Instagram. (2025).

É semelhante à cuíca, mas produz sons mais graves. Um pano molhado em fricção com a haste de madeira ou bambu presa ao couro é que gera o som.

Mestre Zé Pretinho (José Raimundo Fontes)

Aprendeu com grandes mestres como Roseno, Calça curta e Peba. Seu filho Lite Nogueira, segue o legado, produzindo juntos o tambor de onça.

maraca.webp Maracá de flandres. Foto: divulgação / O Buriti. (2025).

Outros instrumentos presentes são a zabumba, um tambor de grandes dimensões que produz sons graves, e o maracá de flandres, um chocalho confeccionado com uma estrutura metálica e pequenas esferas internas.

Oswaldo Abreu, jovem artesão

Oswaldo Abreu.jpg Oswaldo Abreu. Foto: divulgação @oswaldoylu / Instagram. (2019)

Oswaldo Abreu é um jovem artesão, percussionista, compositor, professor de música e produtor cultural. Com o Ateliê do sonho em São Luiz, produz diversos instrumentos que fazem parte da brincadeira do Bumba Meu Boi com estampas e grafismos que oferecem ainda mais personalidade às peças. O artesão também produz móveis e esculturas em madeira. Oswaldo é a continuidade da tradição que aprendeu com sua família e a disseminação da cultura maranhense através de suas diversas atuações.

Para visualizar o processo e conhecer os artesãos: https://redeglobo.globo.com/ma/tvmirante/noticia/veja-como-sao-produzidos-os-instrumentos-musicais-do-bumba-meu-boi-do-maranhao.ghtml

A força dos instrumentos em cada sotaque

foto 4.webp Os pandeirões do boi de matraca (Foto: Divulgação/Governo do Maranhão. G1 MA, 2022)

Sotaque da Ilha ou Matraca

O sotaque da Ilha, também conhecido como sotaque de matraca, é originado na região de São Luís, que inclui o município de São José de Ribamar. Sua principal característica é o ritmo forte produzido pelas matracas, criando uma sonoridade intensa e marcante.

BOI_DA_MAIOBA_BRINCANTE_DO_CORO_-_SÃO_LUÍS_MA.jpg Boi da Maioba. Foto: divulgação / Wikipedia https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:BOI_DA_MAIOBA_BRINCANTE_DO_CORO-S%C3%83O_LU%C3%8DS_MA.jpg

Nesse sotaque, também se destacam os grandes pandeirões, tocados com uma mão enquanto a outra segura o instrumento no alto. Além disso, o maracá de flandres complementa a percussão com o som metálico característico. O sotaque da Ilha possui forte influência indígena, percebida tanto na musicalidade quanto nas coreografias e vestimentas dos brincantes. O ritmo acelerado transforma os arraiais em grandes cortejos culturais, conhecidos como “arrastões”, que reúnem centenas de brincantes e admiradores.

Bois de destaque: Boi de Maracanã, Boi da Maioba e Boi da Pindoba.

Sotaque de Zabumba ou Guimarães

foto 5.webp No rimo das zabumbas, uma batida ancestral. (Foto: O IMPARCIAL, 2026)

Originário da região de Guimarães, no Litoral Ocidental Maranhense, e muito presente na região de Cururupu, é o sotaque mais antigo de bumba-meu-boi. Sua musicalidade é marcada pela percussão mais grave e cadenciada. Seu principal instrumento é o que dá seu nome. Nesse sotaque, também são utilizados o tambor-onça, o tamborinho ou pandeirito feito de jenipapo e cobertos com couro e os tambores de fogo, que lembram os instrumentos dos rituais de tambor de crioula.

Bois de destaque: Boi de Leonardo, Boi de Vila Passos, Boi da Fé em Deus, Boi Unidos Venceremos e Boi de Guimarães.

Sotaque de Orquestra

O sotaque de Orquestra surgiu na região do Rio Munim, abrangendo municípios como Rosário, Axixá e Morros. Vindo do interior do estado e posteriormente difundido em outras regiões, a origem deste sotaque nasce do encontro dos grupos de bumba meu boi com as bandas de fanfarra. Essa mistura incorporou instrumentos de sopro e de corda, como saxofones, clarinetes, flautas e banjos. Os elementos artesanais permanecem presentes nos tambores, maracás e figurinos produzidos manualmente pelas comunidades. O sotaque de Orquestra dialoga com diferentes influências musicais sem perder sua essência popular.

Bois de destaque: Boi de São Simão, Boi de Barbosa, Boi de Nina Rodrigues, Boi de Axixá

Sotaque da Baixada ou Pindaré

BOI DE SANTA FÉ.jpg Boi de Santa Fé. Foto: divulgação / OImparcial. (2015)

Característico da Baixada Maranhense, esse sotaque apresenta um ritmo embalado por pequenos pandeiros, matracas e tambores-onça. As toadas apresentam forte valorização da oralidade e das narrativas tradicionais, reforçando os vínculos comunitários e a memória cultural das populações rurais maranhenses.

Bois de destaque: Boi da Floresta de Apolônio, Boi Oriente, Boi União da Baixada, Boi de Pindaré, Boi Unidos de Santa Fé e Boi Penalva do Bairro de Fátima.

Sotaque Costa-de-Mão ou Cururupu

Sotaque Costa de Mão. Foto: Márcio Vasconcelos / Joel Jacintho (2020)

Típico da cidade de Cururupu, o sotaque Costa-de-Mão recebeu esse nome pela forma singular como os pandeiros são tocados: com os dorsos das mãos. O ritmo lento e marcado é acompanhado por maracás, pandeiros sem platinelas, taróis e tambores-onça.

Bois de destaque: Rama Santa, Brilho da Sociedade, Soledade e Brilho da Areia Branca.

Seja qual for o sotaque, a produção dos instrumentos artesanais ajuda a preservar os conhecimentos transmitidos entre gerações que sustentam o Bumba Meu Boi. No próximo artigo, vamos mostrar ainda mais a diversidade desse patrimônio brasileiro com o olhar sobre os adereços, personagens e vestimentas da brincadeira.

Bibliografia

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CERQUEIRA, Daniel Lemos. Bumba-meu-boi do Maranhão: uma releitura de seus primeiros registros sonoros. Revista NUPEART, Florianópolis, v. 16, n. 2, p. 81-98, 2017. DOI: 10.5965/2358092516162016081. Disponível em: https://www.revistas.udesc.br/index.php/nupeart/article/view/9124. Acesso em: 27 maio 2026.

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INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão agora é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Brasília, 2019. Disponível em: https://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/5499/complexo-cultural-do-bumba-meu-boi-do-maranhao-agora-e-patrimonio-cultural-imaterial-da-humanidade. Acesso em: 27 maio 2026.

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O IMPARCIAL. Você conhece os sotaques do Bumba-Meu-Boi? O Imparcial, São Luís, 28 maio 2020. Entretenimento e Cultura. Disponível em: https://oimparcial.com.br/turismo/2020/05/voce-conhece-os-sotaques-do-bumba-meu-boi-2/. Acesso em: 27 maio 2026.

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SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA DO MARANHÃO. Os sonhos e os ritmos do sotaque de orquestra do Bumba Meu Boi do Maranhão. Governo do Maranhão, São Luís, 3 jun. 2025. Disponível em: https://cultura.ma.gov.br/noticias/os-sonhos-e-os-ritmos-do-sotaque-de-orquestra-do-bumba-meu-boi-do-maranhao. Acesso em: 27 maio 2026.

YOUTUBE. Sotaque da Ilha ou Matraca. YouTube, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://youtu.be/GJhMrBdu4DQ?si=jHcx8GcZWBiL7s-d. Acesso em: 22 maio 2026.

Fonte das imagens

O Bumba Meu Boi se organiza em cinco sotaques convencionados pelos próprios brincantes. (Foto: Divulgação / O Imparcial, 2020). Disponível em: https://oimparcial.com.br/turismo/2020/05/voce-conhece-os-sotaques-do-bumba-meu-boi-2/. Acesso em: 27 maio 2026.

Bumba Meu Boi do Maranhão durante apresentação cultural em celebração da certificação como Patrimônio Cultural da Humanidade. (Foto: Divulgação / G1 Maranhão, 2025). Disponível em: https://g1.globo.com/ma/maranhao/cultura/noticia/2025/08/14/bumba-meu-boi-do-maranhao-sera-certificado-como-patrimonio-cultural-da-humanidade.ghtml. Acesso em: 21 maio 2026.

Boi de Ribamar durante apresentação do sotaque de matraca do Bumba Meu Boi do Maranhão. (Foto: Ascom SECMA / Governo do Maranhão, 2025). Disponível em: https://cultura.ma.gov.br/noticias/as-matracas-que-dao-o-ritmo. Acesso em: 27 maio 2026.

Pandeirão de couro. Foto: divulgação / Grupo Cupuaçu Facebook (2024). Disponível em: https://www.facebook.com/photo/?fbid=1035105838619353&set=pcb.1035105905286013. Acesso em: 27 maio 2026.

Boi da Floresta de Mestre Apolônio completa 50 anos e recebe homenagem em São Luís — Foto: divulgação / G1. (2022). Disponível em: https://www.instagram.com/p/DLaYwVMO--p/?img_index=2. Acesso em: 27 maio 2026.

Tambor onça de Oswaldo Abreu. Foto: divulgação @ateliesonhosslz / Instagram. (2025). Disponível em: https://www.instagram.com/p/DLaYwVMO--p/?img_index=2. Acesso em: 27 maio 2026.

Oswaldo Abreu. Foto: divulgação @oswaldoylu / Instagram. (2019). Disponível em: https://www.instagram.com/p/Bw9m8nOp3Wk/ Acesso em: 27 maio 2026.

Maracá de flandres. Foto: divulgação / O Buriti. (2025). Disponível em: https://www.instagram.com/p/DLaYwVMO--p/?img_index=2. Acesso em: 27 maio 2026.

Pandeirões do boi de matraca, instrumentos que sustentam a base rítmica do sotaque da Ilha. (Foto: Divulgação / Governo do Maranhão via G1 MA, 2022). Disponível em: https://g1.globo.com/ma/maranhao/sao-joao/2022/noticia/2022/06/19/bumba-meu-boi-de-matraca-historia-personagens-e-a-cadencia-marcante-de-um-dos-sotaques-mais-populares-do-maranhao.ghtml. Acesso em: 29 maio 2026.

No ritmo das zabumbas, a batida ancestral marca a força do sotaque de Guimarães. (Foto: Divulgação / O Imparcial, 2026). Disponível em: https://oimparcial.com.br/noticias/2026/05/zabumba-a-batida-ancestral-que-moldou-a-identidade-do-bumba-meu-boi-enfrenta-o-desafio-da-visibilidade/. Acesso em: 29 maio 2026.

Boi de Santa Fé. Foto: divulgação / OImparcial. (2015). Disponível em: https://joeljacintho.com.br/fotografo-marcio-vasconcelos-prepara-livro-e-exposicao-para-homenagear-titulo-de-bumba-meu-boi-como-patrimonio-imaterial-da-humanidade/. Acesso em: 29 maio 2026.

Sotaque Costa de Mão. Foto: Márcio Vasconcelos / Joel Jacintho (2020). Disponível em: https://joeljacintho.com.br/fotografo-marcio-vasconcelos-prepara-livro-e-exposicao-para-homenagear-titulo-de-bumba-meu-boi-como-patrimonio-imaterial-da-humanidade/. Acesso em: 29 maio 2026.

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