
Durante o período junino, os municípios maranhenses transformam-se em verdadeiros cenários de celebração popular com as festas dos santos. O Bumba Meu Boi é uma das expressões mais emblemáticas da identidade maranhense, reunindo história, religiosidade, música, dança e ancestralidade em um espetáculo que atravessa gerações e os limites do Estado.
Essa manifestação, além de símbolo cultural, preserva memórias afetivas que acompanham os maranhenses desde a infância. Nele, a musicalidade desempenha papel central, pois é por meio dela que se estabelece a comunicação entre os participantes, os dançarinos e o público. Mas se engana quem pensa que o Bumba Meu Boi maranhense é uma coisa só. A tradição apresenta diferentes “sotaques”, termo utilizado para identificar os estilos musicais e performáticos dos grupos de boi. Cada sotaque possui características próprias de ritmo, indumentária, instrumentos e formas de cantar, refletindo diferentes influências indígenas, africanas e europeias presentes na formação cultural do Maranhão. Neles, as “toadas”— canções tradicionais — narram histórias de fé, resistência, trabalho e celebração, funcionando como registros da memória popular maranhense.
Bumba Meu Boi do Maranhão durante apresentação cultural em celebração da certificação como Patrimônio Cultural da Humanidade. (Foto: G1 Maranhão, 2025).
Os instrumentos do Bumba Meu Boi
Os sotaques são reconhecidos principalmente pela sua sonoridade, que vem acompanhada dos instrumentos artesanais. Conceitos como a “tropeada” e as “batidas dos batalhões” ajudam a explicar a identidade sonora que diferencia cada um deles. A tropeada é o conjunto de variações rítmicas, executadas pelos instrumentos de percussão, especialmente matracas e pandeirões, criando movimentos sonoros que dão dinâmica às toadas e às apresentações. Já as batidas dos batalhões se referem à forma coletiva como os grupos de músicos e brincantes executam os ritmos, produzindo uma marca sonora própria reconhecida pelo público e pelos próprios integrantes.
Boi de Ribamar durante apresentação do sotaque de matraca do Bumba Meu Boi do Maranhão. (Foto: divulgação/ Ascom SECMA, 2025).
Além da riqueza musical, os sotaques do Bumba Meu Boi expressam diferentes modos de viver e interpretar o mundo. Em comum, todos os sotaques trazem instrumentos confeccionados artesanalmente pelas próprias comunidades brincantes, reforçando o caráter coletivo e tradicional da festa.
Os instrumentos e os mestres artesãos
Os instrumentos artesanais do Bumba Meu Boi são produzidos por habilidosos mestres que herdaram esse conhecimento daqueles que vieram anteriormente. O trabalho em couro, madeira e metal realizado por esses artesãos, é um trabalho de luthieria, que exige precisão e cuidado para atingir a sonoridade desejada.
Podemos destacar três principais instrumentos maranhenses: o pandeirão, a matraca e o tambor-onça.
Pandeirão
Um grande tambor semelhante ao pandeiro, sem platinelas. Tradicionalmente é feito com couro animal e madeira, porém também possui versão com metal e nylon. Os instrumentos de couro são tradicionalmente afinados junto às fogueiras juninas, onde o calor tensiona o material até atingir a sonoridade ideal para acompanhar as toadas dos grupos. Com a frequência das chuvas durante o período de São João, os modelos revestidos com nylon passaram a ser utilizados como alternativa.
Pandeirão de couro. Foto: divulgação / Grupo Cupuaçu Facebook (2024)
O aro do pandeiro é construído manualmente, com ajuda de algumas ferramentas. O trabalho para entornar é de muito cuidado para não quebrar a madeira. O couro de cabra é limpo e pregado no aro. A afinação é feita na fogueira.
Mestre João Sodré dos Santos
Tudo o Mestre João aprendeu com artesãos mais velhos, inclusive o cuidado do momento de tirar a madeira, no escuro para evitar algumas pragas. A sabedoria popular que está profundamente ligada ao contato com a natureza, uma ciência ancestral. O mestre também desenvolveu uma mesa de gabarito que serve para dar a forma no aro e padronizar o tamanho dos pandeirões.
Matraca
São dois pedaços de madeira, batidos um contra o outro, que produzem um som poderoso, símbolo de um do sotaque da Ilha. Podem ser feitas de diversos tamanhos, entretanto o detalhe da sonoridade também está no tipo de madeira e no acabamento, as cavas que são feitas nas superfícies que são batidas. As madeiras utilizadas podem ser Pau-d'arco(ipê), Maçaranduba, Tatajuba.
As matracas aparecem também personalizadas, pintadas com motivos da brincadeira.
Boi da Floresta de Mestre Apolônio completa 50 anos e recebe homenagem em São Luís — Foto: divulgação / G1. (2022)
Antônio José e Robson Nunes – mestres artesãos
Irmãos que aprenderam o ofício em família, hoje trabalham juntamente com o sobrinho Roque Nunes. A família possui uma marcenaria, que produzem móveis, mas também as matracas. O uso de maquinários para o corte da madeira não exclui o trabalho manual do acabamento, momento em que o detalhe da sonoridade é dado com o entalhe das cavas. Em 2025, foram mais de 2000 pares de matracas já produzidas com muito orgulho de contribuir com a cultura do estado.
Tambor-onça
Tambor onça de Oswaldo Abreu. Foto: divulgação @ateliesonhosslz / Instagram. (2025).
É semelhante à cuíca, mas produz sons mais graves. Um pano molhado em fricção com a haste de madeira ou bambu presa ao couro é que gera o som.
Mestre Zé Pretinho (José Raimundo Fontes)
Aprendeu com grandes mestres como Roseno, Calça curta e Peba. Seu filho Lite Nogueira, segue o legado, produzindo juntos o tambor de onça.
Maracá de flandres. Foto: divulgação / O Buriti. (2025).
Outros instrumentos presentes são a zabumba, um tambor de grandes dimensões que produz sons graves, e o maracá de flandres, um chocalho confeccionado com uma estrutura metálica e pequenas esferas internas.
Oswaldo Abreu, jovem artesão
Oswaldo Abreu. Foto: divulgação @oswaldoylu / Instagram. (2019)
Oswaldo Abreu é um jovem artesão, percussionista, compositor, professor de música e produtor cultural. Com o Ateliê do sonho em São Luiz, produz diversos instrumentos que fazem parte da brincadeira do Bumba Meu Boi com estampas e grafismos que oferecem ainda mais personalidade às peças. O artesão também produz móveis e esculturas em madeira. Oswaldo é a continuidade da tradição que aprendeu com sua família e a disseminação da cultura maranhense através de suas diversas atuações.
Para visualizar o processo e conhecer os artesãos: https://redeglobo.globo.com/ma/tvmirante/noticia/veja-como-sao-produzidos-os-instrumentos-musicais-do-bumba-meu-boi-do-maranhao.ghtml
A força dos instrumentos em cada sotaque
Os pandeirões do boi de matraca (Foto: Divulgação/Governo do Maranhão. G1 MA, 2022)
Sotaque da Ilha ou Matraca
O sotaque da Ilha, também conhecido como sotaque de matraca, é originado na região de São Luís, que inclui o município de São José de Ribamar. Sua principal característica é o ritmo forte produzido pelas matracas, criando uma sonoridade intensa e marcante.
Boi da Maioba. Foto: divulgação / Wikipedia https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:BOI_DA_MAIOBA_BRINCANTE_DO_CORO-S%C3%83O_LU%C3%8DS_MA.jpg
Nesse sotaque, também se destacam os grandes pandeirões, tocados com uma mão enquanto a outra segura o instrumento no alto. Além disso, o maracá de flandres complementa a percussão com o som metálico característico. O sotaque da Ilha possui forte influência indígena, percebida tanto na musicalidade quanto nas coreografias e vestimentas dos brincantes. O ritmo acelerado transforma os arraiais em grandes cortejos culturais, conhecidos como “arrastões”, que reúnem centenas de brincantes e admiradores.
Bois de destaque: Boi de Maracanã, Boi da Maioba e Boi da Pindoba.
Sotaque de Zabumba ou Guimarães
No rimo das zabumbas, uma batida ancestral. (Foto: O IMPARCIAL, 2026)
Originário da região de Guimarães, no Litoral Ocidental Maranhense, e muito presente na região de Cururupu, é o sotaque mais antigo de bumba-meu-boi. Sua musicalidade é marcada pela percussão mais grave e cadenciada. Seu principal instrumento é o que dá seu nome. Nesse sotaque, também são utilizados o tambor-onça, o tamborinho ou pandeirito feito de jenipapo e cobertos com couro e os tambores de fogo, que lembram os instrumentos dos rituais de tambor de crioula.
Bois de destaque: Boi de Leonardo, Boi de Vila Passos, Boi da Fé em Deus, Boi Unidos Venceremos e Boi de Guimarães.
Sotaque de Orquestra
O sotaque de Orquestra surgiu na região do Rio Munim, abrangendo municípios como Rosário, Axixá e Morros. Vindo do interior do estado e posteriormente difundido em outras regiões, a origem deste sotaque nasce do encontro dos grupos de bumba meu boi com as bandas de fanfarra. Essa mistura incorporou instrumentos de sopro e de corda, como saxofones, clarinetes, flautas e banjos. Os elementos artesanais permanecem presentes nos tambores, maracás e figurinos produzidos manualmente pelas comunidades. O sotaque de Orquestra dialoga com diferentes influências musicais sem perder sua essência popular.
Bois de destaque: Boi de São Simão, Boi de Barbosa, Boi de Nina Rodrigues, Boi de Axixá
Sotaque da Baixada ou Pindaré
Boi de Santa Fé. Foto: divulgação / OImparcial. (2015)
Característico da Baixada Maranhense, esse sotaque apresenta um ritmo embalado por pequenos pandeiros, matracas e tambores-onça. As toadas apresentam forte valorização da oralidade e das narrativas tradicionais, reforçando os vínculos comunitários e a memória cultural das populações rurais maranhenses.
Bois de destaque: Boi da Floresta de Apolônio, Boi Oriente, Boi União da Baixada, Boi de Pindaré, Boi Unidos de Santa Fé e Boi Penalva do Bairro de Fátima.
Sotaque Costa-de-Mão ou Cururupu
Sotaque Costa de Mão. Foto: Márcio Vasconcelos / Joel Jacintho (2020)
Típico da cidade de Cururupu, o sotaque Costa-de-Mão recebeu esse nome pela forma singular como os pandeiros são tocados: com os dorsos das mãos. O ritmo lento e marcado é acompanhado por maracás, pandeiros sem platinelas, taróis e tambores-onça.
Bois de destaque: Rama Santa, Brilho da Sociedade, Soledade e Brilho da Areia Branca.
Seja qual for o sotaque, a produção dos instrumentos artesanais ajuda a preservar os conhecimentos transmitidos entre gerações que sustentam o Bumba Meu Boi. No próximo artigo, vamos mostrar ainda mais a diversidade desse patrimônio brasileiro com o olhar sobre os adereços, personagens e vestimentas da brincadeira.

