Quando moda e artesanato falam a mesma língua
É crescente a aproximação entre moda e artesanato. O São Paulo Fashion Week (SPFW) de 2024, por exemplo, mostrou que o trabalho manual tem se tornado uma ferramenta importante para fortalecer a identidade nacional da moda. “O que a gente tem visto na moda brasileira é essa visão política e social, enquanto reflexo na maneira que a gente consome. A moda tem se tornado mais consciente e, nesse contexto, o artesanato surge como uma ferramenta de fortalecimento de identidade, tanto para as marcas quanto para a moda brasileira como um todo.”, disse o diretor criativo da Foz, Antônio Castro, em entrevista para o portal Artesol.
A marca Severinas relaciona-se com o artesanato como sua principal matéria-prima cultural e criativa. A marca transforma as técnicas manuais, a arte popular e a identidade do estado de Sergipe em moda autoral. Essa relação se destaca de três formas principais: colaboração com artesãos locais; tradução visual da cultura popular; e valorização da economia criativa.
Rafa Castro e a criação da Severinas
A Severinas já nasceu para levar o DNA sergipano para o mundo. (Foto: Severinas / Instagram, 2019)
No seu perfil no Instagram, Rafa Castro se define como “Filha dos ventos”. A expressão traduz uma personalidade inquieta, livre e movida pelo desejo constante de criar.
Historiadora de formação, Rafa Castro nunca imaginou que a moda se tornaria seu principal instrumento de narrativa. Após atuar como professora, passou a empreender no setor de vestuário e, em 2018, criou a Severinas. O nome é uma homenagem ao clássico Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, obra que retrata a resistência e a força das populações nordestinas.
Em entrevista ao Portal Sebrae Sergipe, Rafa resume o que motivou a criação da marca:
Com um bebê nos braços, o modo como eu conduzia minha lojinha de roupas multimarcas já não fazia mais sentido. Eu queria um propósito para seguir, queria me identificar nas roupas que eu fazia, imprimir minhas paixões e identidade. Desta inquietação nasceu o que hoje chamo da minha segunda filha, a caçula, Severinas. Minhas peças refletem minhas alegrias, minhas tristezas, minhas conquistas, CASTRO, Rafaela, Portal Sebrae Sergipe, 2024._
A Severinas nasceu para vender as potencialidades de Sergipe. Com um investimento inicial de menos de R$ 5mil suas primeiras peças já valorizavam a identidade, a cultura e a fauna regional, com estampas e paleta de cores que conversavam com o universo de Sergipe. Hoje, Severinas é uma marca consolidada que veste artistas nacionais e exporta o orgulho nordestino em forma de estampas.
O artesanato como ponto de partida
Na Severinas, o artesanato não entra no processo criativo como adorno. Ele é o ponto de partida.
Ao contrário do modelo mais comum na indústria da moda — em que a peça é criada e os elementos artesanais são adicionados posteriormente —, as coleções da marca são desenvolvidas considerando desde o início as características técnicas dos bordados, rendas e aplicações manuais. Modelagens, cortes e acabamentos são adaptados para respeitar as especificidades dos fazeres artesanais e valorizar o trabalho de quem os produz.
Mais do que resultado estético, essa metodologia cria oportunidades para artesãs e fortalece cadeias produtivas locais ligadas ao patrimônio cultural sergipano.
Coração todo feito à mão em renda irlandesa. Cada coração leva em média 7 dias para ficar pronto. (Foto Severina / Instagram, 2022)
A renda irlandesa
Renda irlandesa é uma técnica de bordado tradicional na cidade de Divina Pastora (SE) (Foto: Caio Rodrigues / Setur, 2024)
A renda irlandesa é uma renda de agulha executada sobre um suporte estrutural, diferenciando-se de rendas feitas com bilros ou crochê tradicional. A Severinas trabalha de forma rotativa com rendeiras de diferentes municípios, como Divina Pastora, Laranjeiras e São Cristóvão, ampliando a circulação econômica do ofício entre as artesãs sergipanas.
Em 2008, o modo de fazer da Renda Irlandesa foi registrado pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil. Em 2012, a técnica também conquistou a Indicação Geográfica (IG), tornando-se a primeira manifestação artesanal sergipana a receber esse reconhecimento. Atualmente, centenas de mulheres participam da cadeia produtiva da renda irlandesa em Sergipe, especialmente nos municípios de Divina Pastora, Laranjeiras e Maruim, mantendo viva uma técnica que atravessa gerações.
Eu me deparei com a renda irlandesa e me apaixonei. Vi um potencial muito grande, mesmo sem ainda trabalhar com moda. Anos depois, já à frente da marca Severinas, criada em 2018, eu decidi incorporar a renda irlandesa às peças da marca como elemento de identidade, CASTRO, Rafaela, Mangue Jornalismo, 2026.
Mais do que uma técnica artesanal, a renda irlandesa representa uma rede de mulheres que há gerações mantêm vivo esse saber em Sergipe. Em Divina Pastora, principal referência da produção, muitas rendeiras aprenderam o ofício ainda na infância, observando mães, avós e vizinhas trabalharem os fios e as agulhas. O conhecimento é transmitido de forma oral e prática, em encontros familiares e comunitários que transformam a renda em um importante elemento de identidade local. Ao incorporar essas peças às suas coleções, a Severinas contribui para ampliar a visibilidade do trabalho dessas artesãs e fortalecer a permanência do ofício nas novas gerações.
Historicamente aplicada em superfícies planas e rígidas (como toalhas e passadeiras), Rafa desenvolveu métodos para aplicar a renda em malhas elásticas usadas na moda praia sem deformar o desenho artesanal. (Foto: Severinas / Instagram, 2024)
Bordados e outros fazeres
Em coleções especiais como Noda de Severinas, a estilista une o bordado de pedrarias e paetês à tradicional renda irlandesa. (Foto: Severinas / Instagram, 2026)
Além da renda irlandesa, a Severinas dialoga com diferentes expressões do artesanato sergipano. A marca desenvolve trabalhos com artesãs que atuam em bordados manuais, aplicações de pedrarias e costura criativa, valorizando técnicas transmitidas entre gerações. Em municípios como Laranjeiras, São Cristóvão e Aracaju, grupos de mulheres mantêm viva a tradição do bordado por meio da produção de peças que carregam referências à flora, à religiosidade, às festas populares e ao cotidiano nordestino.
Mestre Véio: quando o artesanato vira estampa
Autodidata e apaixonado pelas histórias do sertão, Véio tem fascínio por lendas e tradições sertanejas, que moldam seu trabalho e suas relações com o mundo. (Foto: divulgação Artista Véio. Fonte: Portal DOL)
Em 2023, Rafa participou do edital de Economia Criativa do Sebrae e venceu com o projeto de uma coleção intitulada “Infinito Colorido de Véio”. A base da coleção foi o trabalho artístico de Véio (Cicero Alves dos Santos) escultor do sertão sergipano e doutor honoris causa pela Universidade Federal de Sergipe. As estampas marcantes das roupas em viscose que ilustram as icônicas esculturas de Véio foram todas desenhadas por Breno Loeser, outro artista sergipano.
As figuras criadas por Mestre Véio nunca foram apenas esculturas. Em suas mãos, bois, cavalos, vaqueiros, pássaros e personagens do cotidiano sertanejo transformavam-se em narrativas visuais sobre a vida no interior sergipano. Décadas depois, esse universo voltou a ganhar movimento nas coleções da Severinas. Em vez da madeira, as histórias passaram a ocupar tecidos, estampas e modelagens que traduzem para a moda a força poética do artesão.
Única peça exclusiva da coleção infinito colorido de Véio. Detalhes em renda irlandesa e aplicação de miçangas. (Foto: Severinas / Instagram, 2023)
Projetos, passarelas e artistas
Expedita, filha de Lampião e Maria Bonita, vestindo o figurino com renda irlandesa. Ao fundo, a estilista Rafaela Castro. (Foto: arquivo pessoal. Fonte: Mangue Jornalismo)
Com apoio de instituições como o Sebrae, a Severinas atua como uma vitrine para a herança cultural do Nordeste, garantindo que as técnicas tradicionais gerem renda e sejam reconhecidas nacionalmente.
O primeiro trabalho de projeção nacional da Severinas ocorreu no Carnaval de 2023. Rafa foi a responsável por desenhar e criar o figurino oficial usado por Dona Expedita Ferreira (única filha viva de Lampião e Maria Bonita, então com 90 anos) para o desfile da escola de samba Mancha Verde, em São Paulo. A peça celebrou a estética do cangaço com a sensibilidade e o acabamento artesanal característicos da Severinas.
Depois, artistas como Nattanzinho Lima, Mestrinho, João Gomes e Jota Pê também utilizaram peças com renda irlandesa produzidas pela estilista, inclusive no projeto musical “Dominguinho”. Nando Reis e Saulo Fernandes também vestiram a marca.
Nando Reis em show realizado em Aracaju (Foto: Agência Sebrae de Notícias, 2024)
O sucesso de sua gestão e modelo de negócios voltado para a "sergipanidade" fez com que Rafaela Castro se tornasse Embaixadora do Sebrae, inspirando outras mulheres na cultura empreendedora do estado. “De tudo que eu faço, desenvolver artesãs é sem sombra de dúvidas o meu maior feito profissional. Isso só é possível quando a artesã permite ser parte do processo e mergulha nas minhas ideias”, disse Rafa em um post do Instagram da marca Severinas.
Ao aproximar rendeiras, bordadeiras, artistas populares e consumidores contemporâneos, Rafa Castro demonstra que tradição e inovação não são caminhos opostos. Na Severinas, o artesanato deixa de ocupar um lugar secundário para se tornar protagonista do processo criativo. O resultado são peças que carregam histórias, identidades e saberes coletivos, mostrando que a moda pode ser também uma ferramenta de preservação cultural e valorização dos territórios brasileiros.

