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A Arte da Folia de Reis no Rio de Janeiro: tradição, devoção e artesanato

O artigo explora a rica tradição da Folia de Reis no Rio de Janeiro, destacando sua origem ibérica e a adaptação cultural brasileira, que incorpora influências europeias, africanas e indígenas. A manifestação, celebrada entre dezembro e janeiro (estendendo-se até 20 de janeiro no RJ), é apresentada como um universo artesanal, onde máscaras, estandartes, indumentárias e instrumentos são criados manualmente, preservando a memória e a identidade das comunidades. São detalhados os personagens centrais da Folia, como o Mestre, Alferes, Bastião (palhaço), Reis Magos, coro e instrumentistas, e a importância dos elementos visuais e sonoros para o ritual. O texto também mapeia a presença da Folia de Reis em diversas regiões do estado do Rio de Janeiro, incluindo a Baixada Fluminense (com o maior número de grupos ativos), a Região Serrana (com influências estéticas germânicas e italianas), a Região dos Lagos e Costa Verde (interagindo com tradições caiçaras), o Vale do Café e o Norte e Noroeste Fluminense. São citados grupos específicos e suas particularidades, reforçando a diversidade e a vitalidade da Folia em cada localidade. A conclusão enfatiza que, apesar de por vezes esquecida, a Folia de Reis é uma tradição vibrante que resiste ao tempo e se reinventa, fortalecendo economias locais e inspirando novas gerações através do trabalho coletivo e da fé materializada na arte. Em suma, o artigo oferece uma visão abrangente da Folia de Reis no Rio de Janeiro, abordando sua dimensão histórica, cultural, religiosa e artesanal, além de apresentar um panorama geográfico dos grupos e suas características regionais, ressaltando a relevância dessa manifestação para a identidade cultural fluminense.

2026-01-05Postado por: Equipe CRAB

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Grupos de Folias de Reis comandam os festejos em Cabo Frio. Divulgação: Pref. de Cabo Frio

O universo artesanal que mantém viva a Folia de Reis

_Anda meio esquecido Mas é o dia da festa De Santo Reis

Eles chegam tocando Sanfona e violão Os pandeiros de fita Carregam sempre na mão_

– “A Festa do Santo Reis” interpretada por Tim Maia, composição de <u>Márcio Leonardo</u>

A Folia de Reis, também conhecida como Santo Reis, é uma manifestação cultural profundamente enraizada no imaginário popular brasileiro, sendo destaque nos meses de dezembro em janeiro em cidades do interior do Estado do Rio de Janeiro. Entre cortejos, cantorias e personagens emblemáticos, essa tradição, que remonta ao ciclo natalino e às antigas celebrações ibéricas, é também expressão do artesanato. Máscaras, estandartes, bordados, instrumentos, adereços e indumentárias são feitos manualmente por artesãos que carregam, em cada fio, pincelada e entalhe, a memória de suas comunidades.

Folia de Reis no Rio de Janeiro: origem e tradições

Máscara de Folia de Reis em apresentação popular – Divulgação: Blog Selvedge

A Folia de Reis é uma herança das festas de Reis Magos, celebradas em Portugal e Espanha desde a Idade Média. No Brasil, ganhou novos significados com o encontro entre influências europeias, africanas e indígenas. No Rio de Janeiro, a tradição se consolidou principalmente entre os séculos XIX e XX, e hoje segue sendo praticada amplamente no estado: Baixada Fluminense, Região Serrana, Norte e Noroeste Fluminense, Costa Verde e Região dos Lagos.

A manifestação pode ser dividida em dois períodos. O “giro” é o período da Folia que inicia em 25 de dezembro e tradicionalmente tem a data de término no dia 6 de janeiro (dia de reis), porém no Rio de Janeiro, é estendido até o dia de São Sebastião, 20 de janeiro, padroeiro da cidade. O segundo momento é o “arremate”, o fechamento do ciclo. Acontece sem uma data fixa, pois precisa conciliar os calendários dos grupos de folias, já que o mestre de cada uma convida as demais para a grande confraternização em sua casa.

O ritual e seus elementos

folia-de-reis-rio-das-ostras_prefeitura-rio-das-ostras.jpg Folia de Reis se apresenta em Rio das Ostras – Divulgação: Prefeitura Rio das Ostras

A Folia de Reis anuncia o nascimento de Jesus e reconta a jornada dos Reis Magos através de cantorias, cortejos e visitas às casas de seus devotos. Os elementos presentes nas roupas, bandeiras, coroas e instrumentos carregam símbolos do catolicismo com o olhar das manifestações populares brasileiras, cheios de cores, materiais e técnicas. Durante o cortejo, diferentes personagens participam da festa chamando a comunidade para participar enquanto recolhem donativos para as festas de Reis.

Personagens da Folia

O Mestre
O grande responsável pela organização do grupo, conduz o canto e o cortejo. Usa farda semelhante a de marinheiro, que pode ser adornada com fitas coloridas, cetim, bordados, simbolizando sua autoridade e imersão na religiosidade.

Alferes da bandeira

Tem a função de carregar a bandeira ou estandarte, apresentando e reverenciando o chefe da residência onde a folia passa, para receberem os donativos oferecidos pela família.

O Bastião ou palhaço

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Folia de Reis em Cabo Frio. Foto: Divulgação Cabo Frio.gov

Talvez o personagem mais emblemático e reconhecido pelo público em geral. Seria a representação dos soldados de Herodes, que teriam a missão de de matar o Menino Jesus, mas ao deparar-se com sua bondade, passaram a adorá-lo. Arrependidos, eles seguiram com os Reis Magos, pedindo esmolas nas portas para fugir do castigo de Herodes ao não cumprirem o combinado. Trazem alegria com brincadeiras, danças, rodopios e interação com o público, além de citar textos sagrados e poesias para abençoar os lares. O Bastião usa roupas vibrantes e coloridas, máscaras que podem imitar peles ou ter chifres, transmitindo ar assustador e festivo ao mesmo tempo.

Os Reis Magos

Os Reis Magos (Gaspar, Melchior, Baltazar) são as figuras que dão nome à Folia e representam a busca pela divindade. Podem ser representados por foliões, mas em geral os próprios Mestre, Contramestre e Alferes representam os três reis.

Coro e instrumentistas

O conjunto de instrumentistas e cantadores é guiado pelo Mestre. Os instrumentos podem variar para cada grupo, assim como o número de componentes.

valenca-valedocaferi-768x502.jpg Valença, RJ. Igor Alecsander/Vale do Café Rio

Máscaras de palhaços: a cara da Folia de Reis

globo.jpg Reisado: Folia de Reis do grupo Caipirando. Foto: Carolina Maduro / O Globo

As máscaras do personagem palhaço são um dos símbolos mais reconhecíveis da Folia de Reis. Produzidas em papel machê, couro, tecido engomado, coloridas com tintas ou colagem de outros materiais, dão expressão ao personagem. Cada máscara é única, carrega a assinatura do artesão que a produziu e as características do grupo.

Estandartes bordados com fitas, miçangas, pedrarias, franjas e pinturas

brava-baixada-768x432.png Estandarte Reizado Flor do Oriente. Foto: Divulgação / Brava Baixada

O estandarte apresenta a Folia. Elaborado com bordados minuciosos, aplicações de lantejoulas, pedrarias, fitas, ele costuma incluir imagens dos Reis Magos, estrelas e passagens religiosas pintadas a mão. Além de identificar o grupo, o estandarte compõe o ritual de proteção e devoção comunitária.

Indumentárias multicoloridas

indumentaria-multicolorida-da-folia-de-reis_temporealrj.jpg Indumentárias de chita e outros tecidos na Folia de Reis – Divulgação: Tempo Real RJ

Os figurinos da Folia de Reis variam conforme seus personagens e coletivos. Da chita às fardas da banda, elementos como bordados, símbolos cristãos, espelhos, fitas e brilhos são incorporados às peças.

Instrumentos artesanais como caixa, pandeiro, tamborim, viola, reco-reco e ganzá

folia-dos-penitentes-santa-marta_portal-g1.jpg Folia de Reis Penitentes do Santa Marta – Divulgação: Portal G1

A música é sustentada por instrumentos como caixa, pandeiro, tamborim, viola, reco-reco e ganzá, muitos deles produzidos por artesãos e luthiers que dominam a marcenaria e os saberes musicais. Madeira, couro, metal e fibras vegetais são trabalhados com precisão para criar os instrumentos. Esses sons marcam o ritmo do cortejo, orientando as cantorias e as danças da festa. É o conjunto de elementos produzidos manualmente, dos instrumentos aos adereçoes, que expressam o trabalho coletivo das comunidades e fortalecem a identidade da Folia de Reis no estado.

Mapa da Folia de Reis no Estado do Rio

apresentacao-popular-de-folia-de-reis_pmvr.jpg Apresentação popular de Folia de Reis – Divulgação/PMVR

A grande diversidade territorial do Rio de Janeiro permite que a Folia de Reis assuma características distintas conforme a região onde acontece. A seguir, vamos apresentar um pouco sobre cada território:

Baixada Fluminense, o maior número de grupos ativos

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Folia de Reis na Baixada Fluminense – Divulgação / Prefeitura de Nova Iguaçu.

Municípios como Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Mesquita e São João de Meriti concentram dezenas de folias tradicionais, muitas com mais de 70 anos de existência. Os grupos costumam se apresentar durante todo o ciclo natalino, encerrando as atividades no Dia de Reis (6 de janeiro), porém algumas até o dia de São Sebastião (20 de janeiro)

Folia de Reis Estrela D’Alva (Duque de Caxias): é uma das mais tradicionais da Baixada Fluminense, reconhecida pelo forte vínculo comunitário e pelas apresentações vibrantes que percorrem bairros populares de Duque de Caxias. O grupo é conhecido por suas apresentações com a presença de 23 componentes, liderados pelo Mestre Poli.

mestre-pedro-_estrela-do-oriente_portal-c3.jpg Mestre Pedro, grande líder da Folia de Reis Estrela do Oriente, Deus é o Nosso Guia – Divulgação: Portal C3.

Folia de Reis Estrela do Oriente, Deus é Nosso Guia é um grupo icônico de São João de Meriti, que foi liderado por décadas pelo falecido Mestre Pedro, referência cultural da região. Reconhecido como Patrimônio Imaterial da Baixada Fluminense, o grupo é conhecido por seus encontros festivos, como o “Giro da Folia” no Morro do Embaixador.

diario-do-rio.png Folia Flor do Oriente. Foto: Divulgação / Diário do Rio.

Folia de Flor do Oriente – Fundado em 1872 em Minas Gerais e desde 1944 fixou a sede no bairro Vila Rosário, em Duque de Caxias, trazida pelo Mestre Manoel.

Região Serrana, tradição e influências estéticas

em-nova-friburgo-tambem-tem-folia-de-reis_vozdaserra.jpg Em Nova Friburgo também tem Folia de Reis – Divulgação: A Voz da Serra

Na Serra fluminense, principalmente em cidades como Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo, observa-se a influência germânica e italiana nas técnicas de costura, bordado e confecção de máscaras.

**Folia de Reis Estrela Guia (Teresópolis): **uma das mais reconhecidas da região, com atividades registradas desde a década de 1980. A Estrela Guia é único grupo em atividade na cidade, liderado pelo mestre Reginaldo da Silva Lopes, que mantém viva a manifestação, reconhecida como Patrimônio Imaterial do Município.

**AGFRNF (Associação dos Grupos de Folia de Reis de Nova Friburgo): **Em Nova Friburgo, o destaque é a AGFRNF, organização formal dos grupos da cidade. O objetivo principal da associação é fortalecer, preservar e divulgar a prática das Folias de Reis, congregando os diversos grupos existentes e organizando os principais eventos e encontros.

Região dos Lagos e Costa Verde e influência caiçara

preparativos-para-folia-de-reis-em-paraty_vozdosmunicipios.jpg Preparativos para Folia de Reis em Paraty – Divulgação: Voz dos Municípios

Em municípios como Cabo Frio, Búzios, Angra dos Reis e Paraty, a Folia de Reis convive com tradições caiçaras.

Folia de Reis Estrela D’Alva (Cabo Frio, bairro Praia do Siqueira): mesmo com a modernização, o grupo mantém as raízes da tradição da Folia de Reis desde a década de 60. Conhecido por se apresentar na orla, o Estrela D’Alva é parte essencial do esforço de preservação da memória e fortalecimento das raízes culturais da cidade.

Folia de Reis Estrela do Oriente (Cabo Frio / Arraial do Cabo): grupo com forte atuação no resgate cultural, o Estrela do Oriente oferece aulas de instrumentos e confecção de adereços para crianças em sua sede. Estpa presente nos grandes eventos na Praça da Cidadania junto com outras folias como a Estrela D’alva.

Vale do Café

vale-do-cafe.png Vassouras, RJ, Foto: Luísa Avelino/ Vale do Café

A região possui registros das Folias de Reis desde o século XIX, provavelmente iniciada pelos imigrantes mineiros. Municípios como Valença, Vassouras e Rio das Flores, com a Folia mais antiga de Mestre Tachico, têm forte tradição, com encontros anuais dos grupos.

Norte e Noroeste Fluminense

folia-de-reis-de-miracema_blog-miracema.jpg Folia de Reis de Miracema – Divulgação: Blog Miracema

Grupos de Folia em São Fidélis (Norte Fluminense): São Fidélis também é território importante dessa tradição, com grupos que participam de encontros locais e regionais. Recentemente, um novo grupo formado por crianças e adolescentes, o Estrela dos Anjos do Oriente, revela o interesse da juventude pela manifestação.

A** Folia de Reis Estrela de Belém do Norte **é uma das mais antigas, fundada em 1944 por mestre Cenilson Franco Ferreira. Já a Folia de Reis Estrela Guia, liderada pelo Mestre Ricardo Terra, destaca-se pela preservação rigorosa dos ritos tradicionais. O grupo nasceu de uma brincadeira de infância entre amigos e consolidou-se com o apoio da comunidade local e do coletivo Pedra Doce e Cia, que auxilia na profissionalização da gestão cultural.

Grupos de Folia em Miracema (Noroeste Fluminense): recentes resgates da tradição marcam a manifestação na cidade. Em 2025, foliões retomaram a entrada na Igreja Matriz após 34 anos de interrupção, um acontecimento significativo para a comunidade e para a valorização simbólica da Folia de Reis. Há registro de pelo menos 12 grupos da Folia de Reis em atividade no município, destacando Folia Mensageiros do Menino Jesus, liderado pelos Mestres Ademir e Jorge Barcelos; Folia Estrela dos Anjos, liderado pelo Mestre Romário e Folia Estrela Nova do Oriente, de mestre Rafael Finamor.

O mapa da Folia de Reis no Rio de Janeiro revela uma tradição vibrante e viva, mesmo que por alguns esquecida. Cada grupo, território e cada mestre formam uma rede de preservação cultural que resiste ao tempo e se reinventa com as próprias mãos. A produção de cada grupo materializa a fé em seus figurinos, adereços, músicas, fortalecendo as economias locais e inspirando novas gerações de artistas.

Artesanato no Brasil

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