Presente nos lares há gerações, o utensílio que une saberes do barro ao carvão projeta o artesanato como referência mundial em filtragem de água.
Filtro de barro artesanal. Foto: Instagram / @atelie_da_zelia.
Conheça o filtro de barro, produzido de forma artesanal há décadas no Brasil. Mais do que tornar a água própria para consumo, ele faz parte de um conjunto de símbolos da identidade nacional e se destaca, segundo pesquisas, como um sistema de filtragem desenvolvido no Brasil mais eficiente do mundo.
Sua origem resulta de uma combinação rica de saberes originários a técnicas trazidas por imigrantes europeus, sobretudo portugueses e italianos. Esses imigrantes trouxeram consigo o conhecimento da cerâmica e da filtragem, que se tornariam fundamentais para a criação do utensílio. Porém, antes mesmo do filtro, povos indígenas já utilizavan moringas de argila para armazenar água fresca em climas quentes. Embora não filtrassem, esses recipientes revelavam um profundo entendimento sobre conservação térmica. A historiadora Joselice Souza, em entrevista ao jornal A Tarde, lembra que povos como os marajoaras e baniwa já dominavam a arte de moldar a argila em utensílios essenciais para a vida cotidiana antes da colonização.
Nos anos 1920, em meio ao crescimento urbano e ao saneamento precário, surgiu a necessidade de soluções práticas para garantir água potável. Nesse cenário, o imigrante italiano Victor Lamparelli foi pioneiro ao industrializar o filtro de barro, criando o famoso “filtro São João” em Jaboticabal, interior de São Paulo. Seu design inovador incluía um disco poroso de barro e carvão, capaz de filtrar a água com eficiência. O professor Marcelo Oliveira, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, lembra que essa invenção surgiu em um período em que doenças como cólera eram comuns, tornando a qualidade da água uma preocupação constante.
Filtro São João – anos 1940. Foto: Acervo Bellingieri / UNESP
Entre tradição e praticidade, o filtro de barro no dia a dia dos brasileiros
Filtro de barro. Foto: YouTube/@ceramicastefanisa/Reprodução
O uso do filtro de barro artesanal é simples e intuitivo. Basta encher o reservatório superior com água, que passa lentamente pela vela filtrante e se acumula no compartimento inferior, pronta para ser servida. Essa praticidade tornou o objeto indispensável em diversas situações, especialmente onde o acesso à água tratada é limitado.
Pesquisas realizadas por cientistas norte-americanos e publicadas no livro The Drinking Water Book, de Colin Ingram, revelam que o filtro de barro brasileiro artesanal possui o sistema de purificação mais eficaz do planeta. O estudo aponta que a vela de cerâmica com carvão ativado utilizada nesses filtros consegue reter mais de 85% dos pesticidas, além de eliminar o gosto de cloro, possíveis odores e ainda bloquear bactérias e parasitas.
Além disso, a durabilidade da cerâmica e o baixo custo reforçam sua popularidade. A vela deve ser trocada a cada seis meses e o recipiente pode durar até cinco anos, tornando-se uma solução econômica e confiável. A manutenção também é parte fundamental desse processo, realizando higienização simples com bicarbonato de sódio, o filtro destaca-se pela sua simplicidade e eficiência.
Processo Produtivo do Filtro de Barro
Artesão moldando o filtro no torno. Foto: YouTube Achamos em Minas_Filtro de barro / Record Minas.
A fabricação do filtro de barro começa na seleção da argila, etapa decisiva para a qualidade final do produto. Os artesãos e fabricantes utilizam, em geral, dois tipos principais: a preta e a amarela. A mistura entre elas garante maior liga e evita que a peça trinque durante o uso.
Após ser preparada, a argila passa por cilindros que eliminam impurezas e fragmentos de pedra. Esse processo é repetido até que a massa esteja completamente uniforme e em seguida é levada para a maromba, equipamento que molda a argila em bisnagas compactas. Elas são separadas para que a massa descanse por um período, até que possa retornar ao cilindro para a retirada das chamadas “pelotas”, pequenas imperfeições que poderiam comprometer a peça.
Bisnagas separadas antes de seguir para ser moldada Foto: YouTube Achamos em Minas_Filtro de barro / Record Minas.
Após o processo industrial de preparo da massa, são os artesãos que dão corpo e forma aos filtros. O olhar apurado e as habilidades manuais do artesão fazem com que, em poucos minutos, a peça ganhe o formato final, seguindo então para as etapas de secagem e acabamento.
Só então ela é moldada pelos artesãos. Em poucos minutos, o filtro vai ganhando forma. Em seguida, as peças são colocadas em uma estante para iniciar a etapa de secagem e, finalmente, são queimadas em fornos de alta temperatura, processo que confere resistência e durabilidade à cerâmica.
Filtros no forno. Foto: YouTube Achamos em Minas_Filtro de barro / Record Minas.
O acabamento pode sofrer variações: alguns filtros mantêm o tom natural do barro, outros recebem esmaltes ou pinturas decorativas. A etapa final é a colocação da vela filtrante, feita com cerâmica porosa e carvão ativado. É essa vela que garante a purificação da água, permitindo que o filtro de barro seja reconhecido como um dos sistemas mais eficientes do mundo.
Pintura manual dos filtros. Foto: YouTube Achamos em Minas_Filtro de barro / Record Minas.
A criatividade nos filtros: artesãos que inovaram o utensílio
Filtro de barro decorado. Foto: Divulgação / Instagram @marza_decor
Nos últimos anos, o filtro de barro ganhou um novo status como peça decorativa. Com a valorização do chamado design afetivo, ele passou a ser desejado por quem busca trazer nostalgia e autenticidade para dentro de casa. Artistas e artesãos têm explorado novas formas e materiais, criando filtros que não apenas cumprem sua função, mas também se transformam em decoração.
É importante destacar que tintas e produtos químicos não devem ser aplicados em filtros de barro, pois podem alterar o gosto da água e até contaminá-la. Para fins decorativos, a recomendação é optar por tintas atóxicas, que preservam a integridade da cerâmica sem riscos à saúde, como a tintura natural de outras argilas utilizada tradicionalmente no artesanato do Vale do Jequitinhonha.
Conheça alguns desses grupos e artesãs que inovaram no formato e acabamento dos filtros de barro tradicionais:
Dona Zélia do Vale do Jequitinhonha – MG
Dona Zélia. Foto: Divulgação / Instagram @atelie_da_zelia
Há 28 anos, Dona Zélia encontrou no barro não apenas um ofício, mas uma profissão que se tornou parte essencial de sua rotina. Artesã no Vale do Jequitinhonha, ela ressalta a paixão em trabalhar com a argila para produzir peças artesanais, entre elas o tradicional filtro de barro.
Quando jovem, ajudava o pai na roça e, após se casar, encontrou no artesanato a única alternativa de trabalho. Na época, suas cunhadas e a sogra já produziam de forma artesanal peças de barro e a convidaram para experimentar. Desde então, nunca mais deixou o ofício.
Hoje, o ateliê de Dona Zélia é o lugar onde a família se dedica ao artesanato. Seus filhos colocam a mão na massa, participam da produção dos filtros e mantêm viva a tradição do trabalho artesanal que garante a renda da casa. Cada peça que sai de suas mãos carrega não apenas a utilidade prática, mas também a história de perseverança e dedicação da artesã que fez do barro o caminho para sustentar sua família.
Filtro de barro decorado. Foto: Divulgação / Instagram @atelie_da_zelia
Do quintal de Adriana para o Brasil
Filtro Cactos. Foto: Divulgação / Instagram @maos.movimento
Já popular entre os filtros de barro mais inovadores, o Filtro Cacto foi criado no quintal de Adriana Xavier, também no Vale do Jequitinhonha, junto ao projeto Mãos em Movimento. Como um objeto-manifesto, a união entre o design e o artesanato tradicional, simboliza a resistência à seca no sertão mineiro. Intensificada pela monocultura do eucalipto na região, a escassez de água é um dos desafios dos moradores locais, além de outros impactos ambientais que precisam enfrentar.
Serra da Capivara: arte milenar em novas superfícies
Filtro Cerâmica Serra da Capivara. Foto: divulgação / ECO21
Já tradicionais entre as peças artesanais brasileiras, a Cerâmica Artesanal Serra da Capivara também produz filtros de barro. No entorno do Parque Nacional de mesmo nome, o maior conjunto de sítios arqueológicos das Américas, está localizado um polo de cerâmica. Fundada em 1994 por Niéde Guidon, arqueóloga que descobriu as pinturas rupestres no local, a iniciativa de produção artesanal visava trazer visibilidade ao parque e fortalecer o território. A empresa está localizada em Coronel José Dias e possui cerca de 40 artesãos trabalhando na produção de peças com os desenhos que reproduzem as pinturas milenares.

