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Bonecas de pano: memória, afeto e tradição brasileira

As bonecas de pano são uma das expressões mais afetivas do artesanato brasileiro. Produzidas manualmente em diferentes regiões do país, elas preservam narrativas locais, saberes transmitidos entre gerações e memórias do brincar. Feitas com retalhos, costura e imaginação, essas peças transformam materiais simples em personagens que refletem identidades culturais e modos de vida. De tradições como a boneca Abayomi, símbolo de resistência e ancestralidade africana, ao trabalho de artesãs como Dona Morena, em Alagoas, e Maria Mendonça, no Maranhão, as bonecas de pano revelam como o fazer manual conecta arte, território e história, mantendo viva uma tradição que encanta e aproxima diferentes gerações.

09/10/2025Equipe CRAB

Boneca de pano, testemunhas do brincar e da memória brasileira

Produzidas artesanalmente em diferentes regiões do Brasil, as bonecas de pano preservam narrativas locais.

Muito antes de serem brinquedos, as bonecas já habitavam o imaginário humano. Presentes em rituais, cerimônias e práticas cotidianas desde tempos remotos, elas atravessaram civilizações como representações do corpo, da alma, e das emoções humanas. Em cada cultura, em cada época, essas figuras carregam significados que ultrapassam o lúdico: são espelhos da sociedade, moldadas por crenças, costumes e modo de viver.

No Brasil, a história das bonecas se entrelaça com a própria memória do país. Quando a corte portuguesa desembarcou no país em 1808, vieram também os modelos europeus e as chamadas “bruxas de pano’, bonecas simples, feitas de retalhos, que logo se tornaram parte do dia a dia das crianças de famílias com menos recursos.

Hoje em dia um estado brasileiro se destaca como refúgio da tradição das bonecas de pano. Sergipe, embora pequeno em extensão territorial, abriga uma riqueza cultural estampada nas mãos de suas artesãs. Desde os tempos coloniais, a região foi moldada por encontros entre povos indígenas, colonizadores e missionários, e essa mistura reflete até hoje nas manifestações populares.

Personagens como noivas, freiras, brincantes e mestres ganham forma nas mãos das bonequeiras, que transforma o cotidiano em arte. Cada figura carrega não apenas a beleza local, mas também o afeto, as histórias e os saberes transmitidos oralmente por gerações.

bonecas-de-pano-produzidas-por-artesas-sergipanas.png Bonecas de pano produzidas por artesãs sergipanas (Foto: Feitas de Pano, 2023)

Bonequeira da Ilha do Ferro transforma pano em memória e afetividade

  dona-morena_ilha-do-ferro_bonequeira.png Dona Morena segura uma de suas bonecas (Foto: Bazar, 2023)

Bernadete Rosália Teixeira, conhecida como Dona Morena, é a mais antiga bonequeira da Ilha do Ferro, povoado ribeirinho do município de Pão de Açúcar, no sertão de Alagoas. Nascida em 1926, ela soma quase um século de vida dedicada à arte popular. Poeta, benzedeira, bordadeira e devota de Padre Cícero, Dona Morena é referência na região por transformar pano em memória e afetividade. Suas bonecas de pano, feitas com tecidos variados e roupas enfeitadas, carregam histórias e identidade própria. O ofício começou ainda na infância, quando, ao se sentir injustiçada por receber uma boneca menos bonita que a das irmãs, rasgou todas e costurou a sua própria. O gesto, então, revelou o talento da bonequeira e a paixão que a acompanha até hoje.

Considerada patrimônio cultural vivo, Dona Morena inspira gerações com seus saberes tradicionais e sua visão de mundo. Em 2025, foi homenageada pela Assembleia Legislativa de Alagoas com a Comenda Lêdo Ivo, em reconhecimento às suas contribuições para o desenvolvimento da cultura alagoana. Mesmo aos 99 anos, continua sendo celebrada por sua trajetória, que entrelaça arte, memória e resistência à beira do Velho Chico.

bonecas-dona-morena.png Bonecas de Dona Morena (Foto: Jairo Campos, 2021)

Artesã maranhense realiza exposição com 80 bonecas de pano

bonecas-de-maria-mendonca.png  Bonecas de Maria Mendonça (Foto: O Imparcial, 2018)

 

Aos 90 anos, Maria Mendonça apresentou sua sexta exposição em São Luís: “Bonecas de Maria”, uma mostra com 80 bonecas de pano feitas à mão, confeccionadas com retalhos e carregadas de memória afetiva, realizada no ano de 2017. Natural de Bacurituba, no Maranhão, a artesã começou a criar ainda na infância, quando em seu imaginário queria muito reproduzir o vestido usado por sua professora de descendência árabe. Por ocasião do destino, a bonequeira viu um pedaço de pano no vento, parecido com o que a mestre usava, e quando ele caiu, imediatamente o pegou. Maria então usou o tecido para fazer o vestido que tanto sonhava, e o episódio marcou sua história com a costura.

Desde então não parou de produzir. Já perdeu a conta de quantas bonecas criou, mas lembra que suas peças chegaram até os Estados Unidos, incluindo uma encomenda que retratava toda uma família. O gosto pelas artes também foi herdado pelos filhos, entre eles a artista plástica Marlene Barros, que cresceu entre bonecas e tecidos, e hoje celebra a trajetória da mãe com orgulho.

Fazer manual costura memórias e dá vida as bonecas e pano

bonequeira-costurando-parte-das-bonecas.png Bonequeira costurando parte das bonecas. (Foto: Feitas de Pano, 2023)

Para confeccionar, artesanalmente, uma boneca de pano é necessária técnica, afeto e memória. O processo artesanal valoriza o manuseio dos insumos, a escolha dos tecidos e a atenção aos detalhes. Cada etapa carrega inúmeras possibilidades de criação, fazendo com que simples retalhos sejam transformados em personagens, contando histórias e reforçando laços culturais.

Entenda o processo produtivo das bonecas de pano:

Escolha dos materiais

Para confeccionar, é necessário separar tecidos como, por exemplo, algodão cru para o corpo e tricoline ou chita para as roupas, reservar o enchimento, linhas, agulhas, lã para os cabelos, tinta ou caneta para tecido que será usada no rosto.

Preparação dos moldes

producao-de-bonecas-de-pano.png Produção de uma boneca de pano (Foto: Feitas de Pano, 2023)

Após separar o material, é necessário preparar pequenos moldes para definir o formato da cabeça, tronco, braços e pernas. Essa etapa ajuda as artesãs a manterem as medidas corretas da boneca e facilitam o corte dos tecidos.

Corte e costura das partes

 

Com os moldes prontos, é necessário recortar os tecidos em duas partes de cada molde (frente e verso), costurá-las, deixando uma abertura para o enchimento. Depois é preciso virar a peça do avesso para esconder as costuras e dar o acabamento.

**Enchimento e montagem do corpo **  

Com a costura inicial, cada parte da boneca vai recebendo parte do enchimento, distribuído para dar forma ao brinquedo. Em seguida, são costurados os braços e pernas, unindo-as à cabeça com pontos firmes para não abrir.

Criação dos cabelos

Para trazer características únicas as bonecas, são usadas lã ou linha de crochê para formar os cabelos. Os elementos são costurados ou colados no topo da cabeça e modelados conforme o estilo definido para a boneca, com tranças, coques ou até mesmo com o cabelo solto.

Confecção das roupas ** Para dar vida à peça, são confeccionados, artesanalmente, pequenos vestidos, saias ou calças com retalhos coloridos. Para tanto, são usadas rendas, botões ou fitas que personalizam e conferem identidade à boneca. ** Pintura ou bordado do rosto

Já nas etapas finais, são desenhados os olhos, boca e nariz com caneta de tecido, tinta acrílica, ou bordado com linha.

**Toques finais ** Para concluir os arremates, são adicionados acessórios como laços, chapéus ou sapatinhos. Após todas as etapas, é importante dar um nome para a boneca e contar uma história sobre ela, o que trará significado único para a peça.

 

Ao costurar com propósito, artesã leva identidade e alma para bonecas de pano

bonecas-flor-de-tucuma.png Bonecas Flor de Tucumã (Foto: Instagram Flor de Tucumã, 2025)

 

Em cada canto do Brasil, há uma artesã de mãos cheias quando o assunto é confeccionar, de forma artesanal, bonecas de pano.

Elementos da natureza e características regionais ditam os cortes e recortes de artesãos como a Vanda Amaral, que revelam no trabalho artesanal a riqueza da Amazônia. A artista, moradora da cidade de Manaus, começou a confeccionar, artesanalmente, bonecas de pano para dar de presente para sua sobrinha. Na época, a artista não tinha muitas pretensões em enveredar profissionalmente nesse tipo de artesanato.

No entanto, em 2022, a artesã trouxe seu propósito de vida enraizado em cada boneca de pano confeccionada. Em seu processo produtivo, Vanda estampou em cada traço das peças o valor das mulheres do Norte, bem como sua cultura, herança indígena e os costumes regionais. No ano seguinte, após lançar a boneca Flor de Tucumã, como uma referência da mulher amazonense, seu trabalho ganhou projeção e reconhecimento.

 

De nó em nó, bonecas de pano preservam costumes ancestrais

bonecas-abayomi.png Bonecas Abayomi (Foto: Conexao Lusofona)

 

Feita com retalhos de tecido e nós apertados, a boneca chamada Abayomi é símbolo de afeto e resistência. Denominada a partir do termo “iorubá” de origem africana que significa “encontro precioso”, a boneca surgiu durante o período da escravidão, quando mães confeccionavam, artesanalmente, bonecas a partir de pedaços de suas roupas, para que pudesse levar um pouco de conforto para os filhos diante da separação.

Sem costura, sem cola e sem traços faciais, a Abayomi carrega em sua simplicidade uma força simbólica que atravessa gerações. É reconhecida como expressão de identidade e representatividade. Sua forma simples e sem traços definidos permite que qualquer criança se reconheça nela, tornando-se um símbolo de inclusão. Em espaços educativos, ela é utilizada para promover diálogos sobre ancestralidade, pertencimento e diversidade.

Museu da Boneca de Pano cultiva a memória, afeto e resistência costurados à mão

execucao-do-projeto-costurando-novas-historias-do-museu-da-boneca-de-pano.png Execução do Projeto Costurando novas histórias do Museu da Boneca de Pano (Foto: Mapa Cultural do Ceará, 2023)

Inspirada pelas lembranças da infância, quando sua mãe confeccionava bonecas, a pedagoga Liduina Maria Lopes Rodrigues, já adulta, buscou especialização na arte de produzir as peças. Seu interesse em preservar o fazer manual a ajudou a fundar, no ano de 2013, o Museu da Boneca de Pano no Bairro Planalto Pici, em Fortaleza.

O espaço é um exemplo de museologia social voltado à valorização da cultura popular. O museu chega para suprir a carência por instituições empenhadas na preservação do saber, reconhecendo a confecção artesanal de bonecas de pano como expressão do patrimônio cultural brasileiro.

Com ações que integram arte, memória e participação comunitária, o museu promove atividades educativas, oficinas criativas e eventos que despertam o olhar para o fazer artístico em suas múltiplas formas.

Artesanato no Brasil

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