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Pião resgata brincadeiras e práticas que revelam tradições culturais no Brasil e no mundo

Datado de 4000 a.C., o brinquedo artesanal atravessa civilizações, sendo usado de forma lúdica e até mesmo em estudos científicos sobre rotação, equilíbrio e movimento.

16/10/2025Equipe CRAB

O pião, confeccionado de forma artesanal, é um dos brinquedos mais antigos da humanidade e, ao mesmo tempo, um dos mais presentes na memória afetiva brasileira. No Brasil, ele aparece em registros como os do historiador Câmara Cascudo no livro “Dicionário do Folclore Brasileiro”, que o inclui entre as brincadeiras tradicionais da infância. Ainda hoje, é comum encontrá-lo em rodas de crianças, especialmente em regiões onde o brincar ao ar livre permanece vivo. 

Vestígios arqueológicos indicam que o pião já girava há cerca de 4 mil anos. Feitos de argila, alguns formatos foram encontrados às margens do rio Eufrates. Ao longo da história, atravessou civilizações como Babilônia, Egito, Grécia e Roma, assumindo funções que iam além do entretenimento. Em diferentes culturas, seu movimento circular foi associado à rotação dos astros e incorporado a rituais de adivinhação. 

Referências históricas apontam que o pião transcende fronteiras geográficas e indicam que o brinquedo, feito à mão, já era citado por autores como Marco Pórcio, Catão e Virgílio, e representado em obras como “Jogos Infantis” de Pieter Brueghel, em meados do século XVI. 

No Oriente, especialmente no Japão, o pião ganhou status de arte performática, com técnicas que envolvem equilíbrio e movimento coreografado. O koma, nome tradicional do brinquedo, protagoniza apresentações performáticas em que artistas fazem o objeto dançar sobre fitas e tábuas com precisão milimétrica.  

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Coleção de piões japoneses (Japan House)

Essa forma de manusear o pião reforça seu valor como prática cultural que atravessa gerações, revelando como o gesto de girar pode assumir significados distintos entre diferentes povos. 

  foto-25_artesanato-brasileiro_piao-1.png Pião de madeira romano que data do século I A.C. (Foto: Studhistoria, 2021)

 

Na Roma Antiga, o pião aparecia em jogos de sorte: lançado no centro de círculos divididos em setores numerados, valia pontos conforme a área onde parasse. O filósofo grego Platão chegou a usá-lo como metáfora para o movimento e a condição humana, segundo estudos.  

 

O saber que gira com o tempo e mantém vivas tradições milenares 

  Em diferentes culturas, o pião assumiu outras funções além do brincar. Povos como egípcios e gregos incorporaram seu movimento giratório a práticas de adivinhação e à leitura de presságios. Essa dimensão conviveu lado a lado com o caráter lúdico, no qual crianças e adultos disputavam quem conseguia mantê-lo girando por mais tempo ou realizar manobras mais elaboradas, revelando sua função como jogo de destreza e habilidade. 

No Brasil, o pião, além de ser usado nas brincadeiras, é também aplicado em programas educativos. Até meados do século XX, nos intervalos dos colégios, ele era um ponto de encontro e interação, estimulando coordenação motora, raciocínio rápido e convivência entre diferentes faixas etárias. Pesquisas em educação mostram que, quando incorporado de forma planejada às atividades pedagógicas, o pião pode promover socialização, resgate cultural e até discussões sobre inclusão. 

  historia-do-piao.png Crianças brincando com pião retratada na pintura “Jogos Infantis”, de Pieter Brueghel, 1560. (Foto: Studhistória, 2021)

Entre sementes e madeira, o pião ganha forma na cultura brasileira 

No Brasil, a produção artesanal de piões é marcada por uma diversidade de técnicas e materiais que refletem a herança cultural. Entre os povos indígenas, a confecção assume características próprias, ligadas ao território e aos recursos naturais disponíveis. Galibis do Amapá e Panará, do Mato Grosso e Pará, por exemplo, usam sementes de tucumã ou pequenas cabaças para criar piões que, ao girar, produzem sons característicos.  

Essa escolha de matéria-prima não é apenas funcional, mas também simbólica, pois conecta o brinquedo ao ciclo da floresta e à transmissão oral de saberes. 

Além dos insumos da natureza, muitos artesãos utilizam materiais industrializados, tais como alumínio, acrílico e material reciclado, o que contribui para criar modelos mais leves ou, com efeito sonoros, tendo como inspiração os modelos confeccionados nos anos 80 e 90. A diversidade de insumos utilizados, desde a argila e cerâmica antigas à madeira e sementes, mostra como o pião se adapta a diferentes contextos sem perder sua essência. Cada peça carrega a marca de quem a produz, seja na precisão de tornear a peça, na escolha da matéria-prima ou nos detalhes decorativos. 

Em regiões rurais e pequenas cidades, a produção do pião passa por técnicas que combinam o saber passado por gerações e ferramentas mais modernas, mantendo viva a tradição de confeccionar o brinquedo, utilizando madeiras resistentes, como jacarandá, caviúna ou madeiras reaproveitadas, que garantem equilíbrio e durabilidade.  

Nesse processo produtivo, o corpo do pião é geralmente moldado no torno, depois lixado e, em muitos casos, pintado à mão. A ponta, responsável pelo contato com o solo, pode ser de metal, para maior durabilidade, ou de madeira, em versões mais tradicionais. 

  piao-tucuma.png Pião de Tucumã. (Foto: Jornal de Araraquara, 2024)

Produzido por mãos que resgatam o saber ancestral, esse brinquedo milenar continua encantando gerações com sua simplicidade e precisão. Cada região mantém na produção do pião, os insumos disponíveis da localidade. Troncos de madeira, semente de vegetação, dentre outros elementos, são usados na confecção.   

Pião de babaçu 

piao-babacu-1024x658.png Pião de babaçu. (Foto: Território do brincar, 2014)

No Maranhão, crianças produzem seus piões com semente de babaçu. O elemento é cortado e moldado até chegar no formato adequado para brincar. O poder de improvisação dos pequenos e a habilidade manual, herdados de outras gerações, são rapidamente aplicados durante o manuseio da semente no momento de sua produção. 

 

Pião de tucumã 

No Parque Xingu, entre o Pará e o Mato Grosso, indígenas da etnia Panará aplicam o saber ancestral no cuidado com a natureza e extraindo dela meios de subsistência e sobrevivência, assim como formas de gerar entretenimento para os mais jovens, como o de produzir o pião, a partir da semente de tucumã, planta nativa da região amazônica. O brinquedo é talhado com faca e recebe uma haste em uma das extremidades da semente, o que irá ajudar na rotação do objeto. 

 

Veja abaixo, como produzir o brinquedo a partir da semente de tucumã. 

1 - Após escolher a semente, é necessário fazer três furos em pontos específicos:  na parte superior, na inferior e na lateral, fazendo com que a parte interna da semente esbranquiçada apareça.   

piao-tucuma-2.png Semente de Tucumã. (Foto: Território do brincar, 2014) 

 

2 - Em seguida é necessário fixá-la em uma vareta que será moldada até que fique no tamanho exato para passar pelos furos realizados na semente.  

  piao-tucuma-3-1024x614.png Semente de Tucumã. (Foto: Território do brincar, 2014)

3 - Depois, é aplicada cera de abelha queimada para tampar os pequenos furos. Para finalizar, é produzido um pequeno suporte com fio resistente que será usado para realizar o lançamento do pião ao chão e fazê-lo girar. 

piao-tucuma-4.png Semente de Tucumã. (Foto: Território do brincar, 2014)

 

Em Bauru, artesão resgata a produção do pião para manter viva a tradição nas novas gerações 

foto-24_artesanato-brasileiro_piao-1.png Benilson em sua oficina. (Foto: De Ponta a Ponta, 2012)

Na cidade de Bauru, no interior paulista, o marceneiro e artesão Benílson mantém viva uma tradição que resiste ao tempo: a fabricação de piões, bilboquês e outros brinquedos de madeira. Conhecido como “pioneiro”, em alusão, equivocada, para o suposto nome de quem produz pião, com ferramentas improvisadas e muita dedicação, transforma pedaços de madeira em objetos que remetem à infância de gerações passadas. 

Seu carinho pelo artefato e a falta de artesãos na região que produzissem a peça, o fez desenvolver técnica própria, no qual escolhe a madeira mais adequada, conforme peso e densidade, define os pontos de corte, realiza a modelagem no torno com serra circular e finaliza a peça com lixa para madeira. Todas essas etapas conferem ao pião equilíbrio, pois se ele não girar direito, não tem serventia alguma, explica o artesão. O resultado são peças resistentes, com bom acabamento e prontas para rodar. 

Em matéria para a TV Globo, Benilson ressalta que os brinquedos são eternos, resistem ao tempo e a todas as condições. O artesão destaca que seus piões já rodaram o mundo, chegaram à Bélgica, Roma e Paraguai. 

Como não havia concorrentes na produção, ele vende as peças com facilidade. Além de produzir, o artesão também joga pião e já venceu dezenas de disputas na vizinhança e guarda com orgulho uma coleção de mais de 70 piões conquistados, que é quando o pião derruba o outro em disputa.  

Para o “pioneiro”, os brinquedos atuais, como vídeo game e outros eletrônicos, não geram a mesma satisfação de ver as manobras que o pião pode fazer apenas com alguns movimentos manuais. Benilson destaca: “Vou dar continuidade nesse trabalho, custe o que custar”. 

 

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