Efigênia Rolim, em Curitiba. Foto: RPC / G1, 2026
Artesã, escritora, poeta, escultora, narradora e performer, Efigênia Rolim, nascida em Abre Campo (MG), é reconhecida como uma das mais expressivas artistas populares do país. Com papéis brilhantes de doces e outros materiais descartados, criou universos poéticos e transformou resíduos em indumentárias cênicas exuberantes, levando encantamento ao cotidiano. Faleceu em março de 2026, aos 94 anos, deixando uma obra que transitou entre a cultura popular e os espaços institucionais da arte.
Obra “Vai o Carrinho com Cavaleiro e Anjinhos” (2017), de Efigênia Rolim. Foto: RPC / G1, 2026.
Ao longo das décadas, conquistou reconhecimento nacional ao participar de exposições, eventos culturais, performances, desfiles, filmes e congressos. Sua obra passou a integrar o acervo do Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba. Em 2007, recebeu o Prêmio de Culturas Populares, do Ministério da Cultura, e, em 2009, a Ordem do Mérito Cultural. Sua trajetória também inspirou dois documentários e uma biografia escrita por Dinah Ribas “A Viagem de Efigênia Rolim nas asas do peixe voador” (2012).
A jornalista Dinah Pinheiro Ribas e a artista Efigênia Rolim. Foto: Gazeta do Povo, [s.d.].
Narradora que transforma descarte em memória
Efigênia Rolim assumiu-se artista após os 60 anos, quando passou a transformar sua experiência de vida em matéria criativa. No artigo “Efigênia Rolim: a narradora trapeira”, as pesquisadoras Nathany Andrea Wagenheimer e Marta Dantas a definem como uma “narradora trapeira” — aquela que recolhe restos, memórias e fragmentos do cotidiano para convertê-los em narrativa e sentido.
Ao vestir-se com criações feitas de resíduos e dar vida a objetos em suas histórias, Efigênia transforma o ato de narrar em presença e troca com o público. Sua arte valoriza a experiência e a velhice em uma sociedade que frequentemente descarta ambos — assim como descarta os materiais que ela ressignifica, convertendo-os em expressão poética e identidade.
A pesquisadora Maria Teixeira Coelho em seu artigo Um corpo inconformado: arrebatamentos na vida e obra de Efigênia Rolim, defende que a persona e a manifestação artística de Efigênia Rolim ultrapassam qualquer interpretação reduzida a uma atitude “ingênua” ou “simplória”, revelando uma produção marcada pela potência expressiva, pela performance e pela construção simbólica de sua trajetória artística.
Efigênia Rolim ficou conhecida por transformar materiais descartados em obras de arte. Foto: RPC / G1, 2026.
Trajetória da artista
A trajetória de Efigênia é marcada pela passagem de espaços populares para instituições de arte. Na Feira do Largo da Ordem, em Curitiba, consolidou sua linguagem ao transformar materiais descartados em narrativas visuais. Foi ali que ganhou os apelidos de “Rainha do Papel de Bala” e “Rainha do Lixo”, expressões que sintetizam sua poética.
Nascida em 1931, em Minas Gerais, mudou-se para o Norte do Paraná em 1965 e, em 1971, estabeleceu-se em Curitiba, onde desenvolveu sua trajetória artística.
Efigênia foi condecorada com a Comenda da Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo Ministério da Cultura em 2008 — reconhecimento que possibilitou à artista adquirir sua primeira e única propriedade: a casa-ateliê localizada na Vila Oficinas, na periferia de Curitiba.
Com o tempo, ampliou sua presença no circuito institucional, destacando-se na Bienal Internacional de Curitiba de 2013, no MON. Suas obras — compostas por trajes, bonecos e objetos feitos de resíduos — ocuparam uma sala dedicada exclusivamente a sua produção, provocando estranhamento e, ao mesmo tempo, fascínio no público e nos bastidores da instituição.
Obra de Efigênia Rolim integra o acervo do Museu Oscar Niemeyer (MON). Foto: Conexão Planeta, [s.d.].
Além da Bienal, Efigênia já havia participado de outras exposições em espaços institucionais, como a mostra “Bispo do Rosário +3”, também no MON, consolidando sua inserção no ambiente artístico formal. Durante a Bienal, sua presença extrapolou a exposição estática: ela realizou performances, integrou o material educativo do evento e foi convidada como destaque em ações pedagógicas do museu, como o projeto “Domingo + Arte”.
Em 2022, o Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC-PR) realizou a exposição “Os Significadores do Insignificante”, reunindo a vida e cerca de 260 trabalhos de Efigênia Rolim e Hélio Leites, que evidenciam a originalidade de suas criações. Com curadoria de Dinah Ribas e Maria José Justino, a mostra destacou o uso do lixo e de materiais descartados como matéria-prima para a construção de arte, poesia e narrativa, ampliando o debate sobre consumo e sustentabilidade. Além das obras, o projeto incluiu ações educativas, visitas mediadas e recursos de acessibilidade, propondo uma experiência imersiva e reflexiva sobre a capacidade de transformar o que é considerado insignificante em expressão artística e valor simbólico.
Efigênia Rolim e Hélio Leites. Foto: MAC-PR, 2022.
Infância, ruptura e criação
Nascida em 1931, no interior de Minas Gerais, Efigênia viveu uma infância rural, filha de lavrador, em um contexto de poucos recursos e forte tradição oral. Essa vivência proporcionou os ensinamentos familiares, que moldaram sua sensibilidade. A religiosidade, o cuidado com o entorno e o olhar atento para os animais, as pessoas e os objetos foram heranças preservadas da convivência com a mãe. Efigênia carregava ainda a resistência de quem nasceu em meio a 21 irmãos e sobreviveu a um parto prematuro de sete meses — episódio que, segundo a própria artista, marcou simbolicamente sua trajetória de força e permanência.
Mais tarde, já adulta, mudou-se para Curitiba com a família, enfrentando dificuldades financeiras severas, incluindo períodos de extrema vulnerabilidade social. Sua trajetória foi marcada pela condição de retirante, atravessando diferentes regiões do país em busca de melhores condições de vida para ela e a família. Ao logo do percurso, ela teve nove filhos.
Foi somente após a morte do marido, em 1988, que a arte emergiu como um ponto de inflexão em sua vida. Segundo relato da própria artista, esse momento foi marcado por uma experiência emocional intensa, que ela descreve como uma espécie de “explosão” interna — o instante em que “a arte nasceu”.
Esse nascimento tardio da artista é significativo. Efigênia não se formou em escolas de arte, nem seguiu padrões estéticos tradicionais. Sua criação se insere no conceito de arte bruta, termo formulado por Jean Dubuffet para designar produções realizadas fora dos circuitos culturais institucionalizados, nas quais o impulso criativo emerge de forma espontânea e autônoma. Como destaca Marta Dantas, no artigo ‘A arte de narrar de Ranchinho e de Efigênia Rolim’, essas produções revelam uma criação “reinventada no interior de todas as suas fases”, baseada na experiência individual e não na arte formal.
Poética do descarte
O uso do papel de bala, como elemento central de sua obra, não foi aleatório. Em 2022, durante uma exposição do Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC-PR) que celebrou a vida e obra de Efigênia, o Governo do Paraná divulgou uma declaração da multiartista em que ela explicou a conexão com o que foi a sua principal matéria-prima. Efigênia conta que, ao encontrar um objeto brilhante no chão, imaginou tratar-se de uma joia. Ao perceber que era apenas um papel de bala, sentiu inicialmente decepção, mas logo ressignificou aquele achado, chamando-o de “um mísero caído”. Essa expressão tornou-se central em sua poética: dar vida aos “míseros caídos” passou a ser não apenas um gesto artístico, mas uma missão existencial.
Essa ideia de ressignificação está no cerne de sua obra. Ao transformar resíduos em arte, Efigênia não apenas questiona os limites entre o lixo e o valor estético, mas também constrói uma metáfora sobre as próprias pessoas marginalizadas pela sociedade. Assim como os objetos descartados, muitos indivíduos são invisibilizados, considerados sem valor. Sua arte, portanto, opera como um ato de resgate simbólico, conferindo dignidade tanto aos materiais quanto às narrativas que carrega.
Segundo Claude Lévi-Strauss, a bricolagem consiste na criação a partir de restos e fragmentos disponíveis no cotidiano — uma lógica que se aproxima diretamente do fazer artístico de Efigênia. Essa prática evidencia um modo de produção que valoriza o reaproveitamento e a reinvenção, elementos fundamentais em sua trajetória.
Além da dimensão material, sua produção também incorpora fortemente a oralidade. Efigênia não se limitava à criação de objetos: ela performava. Vestia-se com roupas feitas de resíduos, recitava poesias nas ruas e interagia com o público, especialmente na tradicional Feira do Largo da Ordem, em Curitiba. Seus trajes e acessórios funcionavam como extensões de sua expressão artística, criando uma experiência estética que combinava palavra, corpo e objeto.
Essa performance, no entanto, nem sempre foi compreendida. Muitas vezes, sua atitude era interpretada como excentricidade ou até loucura. A própria artista refletia sobre isso em seus versos, questionando quem, afinal, seriam os verdadeiros “loucos”. Em um de seus poemas, ela afirma: “me chamam de louca porque visto lixo”, ao mesmo tempo em que reivindica um reconhecimento mais profundo de sua proposta.
Outro aspecto relevante de sua obra é a relação com a sustentabilidade, ainda que não formulada em termos acadêmicos. Ao reutilizar materiais descartados, Efigênia antecipa discussões contemporâneas sobre consumo, descarte e meio ambiente. Sua prática se aproxima do conceito de bricolagem e reforça uma ética ecológica baseada na transformação do que é rejeitado em algo significativo.
Efigênia Rolim deixou um legado que ultrapassa categorias artísticas. Sua obra articula memória, oralidade e experiência, propondo uma reflexão sobre valor e criatividade.
Para saber mais sobre Efigênia, assista: https://www.youtube.com/watch?v=aNDImpsKInc

