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Design e artesanato: A convergência entre cultura brasileira, moda e inovação

Imagine esta cena: concentrado em seu ateliê, cercado por madeira, couro e linhas curvas, Sérgio Rodrigues desenha uma cadeira.  Esta peça, no futuro, vai se tornar símbolo do design brasileiro. Mas o que poucos percebem de imediato é que, por trás do design modernista, está presente um mergulho profundo nos saberes populares: a marcenaria tradicional,  o jeito brasileiro de habitar os espaços. Essa fusão entre o olhar do designer e as raízes culturais do país revela a essência da brasilidade, um encontro entre tradição e contemporaneidade, entre o Brasil que se reinventa e o que nunca deixou de ser. 

23/07/2025Equipe CRAB

sergiojmatos_1709910967_3319296230604996293_23992696-820x1024.jpg _Artesã Ângela Morais pelos olhos de Sérgio Matos: o design vernacular carrega tradição e história (Foto: Acervo Pessoal Instagram @sergiojmatos, 2024) _

Imagine esta cena: concentrado em seu ateliê, cercado por madeira, couro e linhas curvas, Sérgio Rodrigues desenha uma cadeira.  Esta peça, no futuro, vai se tornar símbolo do design brasileiro. Mas o que poucos percebem de imediato é que, por trás do design modernista, está presente um mergulho profundo nos saberes populares: a marcenaria tradicional,  o jeito brasileiro de habitar os espaços. Essa fusão entre o olhar do designer e as raízes culturais do país revela a essência da brasilidade, um encontro entre tradição e contemporaneidade, entre o Brasil que se reinventa e o que nunca deixou de ser. 

 

  ** O que é Design Vernacular? **

21.04.17-ramito-pintor-abridor-breves-foto-nailana-thiely-3.avif _Os abridores de letras são artistas populares que dominam a técnica artesanal de pintar nomes e frases em barcos da região amazônica. Essa prática vai além de uma simples decoração: é uma expressão cultural rica em história, criatividade e simbolismo (Foto: Nailana Thiely, 2024 ) _ A criação vernacular fala sobre a criatividade que se desenvolve fora das escolas e ambientes acadêmicos. Ele volta o seu olhar para tudo aquilo que evolui conectado à cultura popular.  São soluções estéticas e funcionais que nascem das necessidades do dia a dia, como letreiros pintados à mão em feiras livres ou os trançados das palhas que chegam às marcas de moda. Desta forma, as raízes do Brasil acabam influenciando uma estética no design e carregando consigo a herança cultural de suas regiões. O valor deste conhecimento está  justamente na criação de uma ponte entre o tradicional e o contemporâneo, unindo passado e presente e se consolidando como fonte legítima de inspiração.  

 

**A redescoberta do artesanato brasileiro  ** O Brasil se destaca no mundo como um polo criativo, impulsionado por sua vasta diversidade cultural. Parte de toda esta originalidade provém do artesanato; um repertório rico de técnicas e símbolos que, mesmo após décadas de marginalização, está voltando ao centro das atenções. 

Durante boa parte do século XX, o design industrial se desenvolveu sem vínculos com as tradições artesanais no Brasil, diferente de países como Japão e Itália. Por trás desta realidade está uma visão imperialista, que associa o trabalho manual ao atraso e a progressão manufaturada como progresso. Este quadro começou a se transformar graças a um grande número de iniciativas de revitalização cultural; são projetos comunitários, feiras de economia criativa, ação de gestores que valorizam o artesanato, educação do público sobre a importância de nossas raízes e produções locais, uma nova geração de designers que vêm se apoiando no feito à mão. O resultado é uma recente valorização do artesanato como elemento de inovação e sustentabilidade, valores essenciais no mercado contemporâneo.  

 

**Colaborações transformadoras: designers e comunidades **

captura-de-tela-2025-07-23-132359.png _Peças desenvolvidas pelo grupo “A Gente Transforma”, projeto que usa o design para expor a alma brasileira e mergulhar na cultura dos povos do país (Acervo Pessoal Instagram @agentetransforma, 2023)  _

Regiões remotas do Brasil apresentam verdadeiras riquezas em técnicas tradicionais. A cidade de Várzea Queimada, no Piauí, conta com o projeto “A gente transforma", que já levou estudantes e profissionais de design para conviver com artesãos locais. Dessa imersão, surgiram produtos criados em parceria, como peças de mobiliário e decoração inspiradas na cultura sertaneja, que chegaram a ser expostas no Salão do Móvel de Milão, um dos principais eventos internacionais de design. A iniciativa, liderada por Marcelo Rosenbaum, revelou ao mundo o potencial de inovação contido em saberes transmitidos oralmente por gerações. 

 

cine3-1-original.avif _Peças desenvolvidas por artesãos da Região dos Lagos no Rio de Janeiro pelo projeto Artesa Design de Luiza Bomeny que usa o design como agente de transformação social  (Foto: Acervo Pessoal Instagram @artesadesignbr, 2023) _

Já o estado do Rio de Janeiro foi o ponto de partida do projeto Artesa Design, iniciativa da consultora de moda e design Luiza Bomeny, que investe no mapeamento de talentos e a posterior capacitação de artesãos. Os grupos já tiveram seu trabalho vendido em feiras como a Carandaí 25, e em espaços pop-up nos shoppings Rio Sul e Casa Shopping, no Rio. No Natal de 2023, foi também responsável pela criação e desenvolvimento dos presépios da igreja São José da Lagoa, e da capela do Cristo Redentor. O último, por sinal, foi reconhecido pelo Vaticano como um dos 100 presépios mais bonitos do mundo. A Artesa ocupou também um espaço na Casa de Cultura Laura Alvim durante a cúpula do G20, mostrando para líderes internacionais a força da união entre o artesanato e o design.  

_a765e9_906a26b9691b4117b1fe3a788a01de4fmv2.png Peças desenvolvidas por artesãos da Região dos Lagos no Rio de Janeiro pelo projeto Artesa Design de Luiza Bomeny que usa o design como agente de transformação social  (Foto: Acervo Pessoal Instagram @artesadesignbr, 2023) _

No mundo da moda, movimentos semelhantes ganham cada vez mais força. O estilista mineiro Ronaldo Fraga construiu sua carreira celebrando referências artesanais brasileiras em suas coleções, através de peças que  contam histórias de rendas nordestinas, bordados do Vale do Jequitinhonha, grafismos indígenas e outras memórias culturais do país. Essa aproximação entre estilistas e artesãos dá novo fôlego à moda brasileira, agregando valor afetivo e simbólico às roupas. 

  image_processing20240118-1462678-6617cr-750x533-1.webp _Coleção inspirada nas marés de janeiro do projeto Artesanato em Rede - MULHERES DO MAR (Foto: Divulgação do Projeto, 2024) _

Mais um exemplo inspirador vem do Ceará, onde um grupo de 15 artesãs da Comunidade da Graviola, em Fortaleza, colaborou com a designer Joana Gurgel para criar a coleção de moda "Mulheres do Mar". Por meio do projeto "Artesanato em Rede", essas mulheres participaram de workshops, oficinas e consultorias de design, aperfeiçoando técnicas tradicionais de crochê e renda. O resultado são biquínis, acessórios e vestuário em cores vibrantes, inspiradas no litoral cearense, que foram  lançados em 2024 e imediatamente chamaram atenção nas redes sociais pela beleza e propósito da coleção. 

  ** Sustentabilidade e identidade partir do território **

yanomami_izabella-perez.png  Arte Yanomami, tradição em fibras naturais (Foto:  Amanda Latosinski, 2023) 

A união entre artesanato e design no Brasil também responde a um apelo global por sustentabilidade e consumo consciente. Técnicas tradicionais frequentemente envolvem o uso inteligente de recursos naturais locais,  como madeira de reflorestamento, fibras vegetais abundantes e corantes naturais, de baixo impacto ambiental. O ritmo artesanal, oposto à produção massificada, também reforça valores de durabilidade e apreço pela história de cada peça. 

Sob a ótica da criação vernacular, a sustentabilidade não é apenas ambiental — ela é, sobretudo, cultural. Incorporar saberes e fazeres tradicionais aos objetos que criamos hoje é uma forma de manter vivas técnicas, histórias e territórios que, há gerações, moldam o modo brasileiro de produzir e habitar. Mais do que preservar, trata-se de ativar essas culturas locais, promovendo autonomia econômica e reconhecimento simbólico por meio do design. 

É o que faz o designer Sérgio Matos, natural de Campina Grande, Paraíba. Reconhecido internacionalmente por suas criações com forte identidade brasileira, ele desenvolve projetos colaborativos com comunidades indígenas, ribeirinhas e sertanejas, promovendo o uso de materiais naturais como cipó, buriti, arumã e palha de tucum. Ao invés de impor um repertório estético externo, Sérgio parte do que já existe: os gestos, os trançados, as histórias. Um de seus trabalhos mais emblemáticos foi realizado com a etnia Mehinako, no Alto Xingu, onde desenvolveu luminárias a partir das técnicas de cestaria da comunidade. O resultado? Objetos que carregam a alma do território, mas circulam em mostras de design contemporâneo, mostrando que inovação e tradição não são opostos, mas  camadas de uma mesma matéria. 

Outro nome fundamental é o de Renato Imbroisi, designer têxtil que há mais de trinta anos atua com grupos de artesãos em diferentes regiões do Brasil. Seu trabalho vai além do desenho: é uma pedagogia do fazer, um convite à autonomia criativa. Em suas andanças por Minas Gerais, Maranhão, Pernambuco e Moçambique, Renato compartilha técnicas de tingimento, estimula a criação de padronagens autorais e promove o diálogo entre o artesanato e os circuitos de moda, design e cultura. Mais do que adaptar o artesão ao mercado, ele propõe reposicionar o mercado a partir do artesão, reconhecendo sua autoria e o valor simbólico de cada fio tecido à mão. 

** Políticas públicas e redes de apoio **

  34294390-97e3-4849-be57-4ee16e81a460.jpeg Ronaldo Fraga em workshop com artesãos reunidos pelo PAP - Programa de Artesanato Paraibano (Foto: André Lúcio, 2023) 

O florescimento da união entre artesanato e design no Brasil não surgiu por acaso; este movimento vem sendo cuidadosamente cultivado por uma rede de instituições, políticas públicas e representantes da economia criativa. Desde 1992, o Programa Artesanato Brasileiro (PAB) promove o desenvolvimento integrado do artesanato, bem como a valorização do artesão em todo o país. Nos últimos anos, este incentivo do poder público criou programas de fomento e editais específicos para a área, canalizando recursos para projetos que unem design e produção artesanal  

**Um caminho sustentável e original **

  cobogo-feito-com-casca-de-sururu-e-reconhecido-em-premio-internacional3-1024x695.webp Cobogó da Mundaú, feito a partir da casca do molusco sururu. O desenho da peça é inspirado no contorno da concha do animal, considerado patrimônio cultural imaterial de Alagoas (Foto: Pointer / Divulgação, 2021) 

A convergência entre artesanato brasileiro e design de produto aponta para um futuro promissor, em que inovação e tradição caminham juntos, tecendo histórias em cada objeto do nosso cotidiano. Buscando inspiração nos saberes tradicionais para criar novos produtos, o design brasileiro não apenas produz itens estéticamente diferenciados mas também reforça a sustentabilidade cultural e ambiental.  

No entanto, capitalizar todo esse potencial requer continuidade nos esforços. É preciso assegurar políticas públicas consistentes – editais regulares, programas de formação de artesãos e designers, mecanismos de financiamento e proteção da propriedade intelectual coletiva. As boas práticas já estão em curso: cooperativas capacitadas em gestão, centros de referência como o CRAB, feiras internacionais levando mestres artesãos para o exterior, plataformas online conectando o produtor do interior ao cliente global. O desafio agora é ampliar a escala dessas iniciativas, sem perder o cuidado com a ética e o respeito às comunidades de origem. O design deve empoderar, nunca explorar. 

Assim, quando pensamos no Brasil que desponta na próxima década, podemos imaginar uma economia criativa pulsante onde moda e objetos utilitários carreguem alma. A criação vernacular brasileira nos ensina que inovar não significa abandonar o passado, mas sim interpretá-lo com inteligência. Através da preservação do que nos faz singulares e da conexão entre gerações, estamos trilhando um caminho de desenvolvimento sustentável, com peças únicas que contam histórias. Essa é a contribuição do Brasil para o design global: produtos com ginga, com afeto, com raízes fincadas na terra e olhos no futuro. 

Bibliografia

**REFERÊNCIAS  ** BORGES, Adélia. Design + Artesanato: o caminho brasileiro. São Paulo: Terceiro Nome, 2011. 

CARVALHO, Geovanni. Artesanato em Rede lança coleção feita por mulheres da Comunidade da Graviola, em Fortaleza. Brasil de Fato, 2024. Disponível em: https://brasildefato.com.br. 

CRAB – Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro. Documentos institucionais. Disponível em: https://crab.sebrae.com.br. 

PETROSKI, Jonathan. O que é design vernacular e sua influência no Brasil. Aliens Design Blog, 2021. Disponível em: https://aliensdesign.com.br.ARRUDA, Rafaela M. Design social como ferramenta para valorizar o artesanato. TCC (IFSC), 2020. Disponível em: https://repositorio.ifsc.edu.br. 

APEXBRASIL. Exporta Mais Brasil leva artesanato brasileiro ao mercado internacional. Portal Apex, 2023. 

GOBIERNO DE MÉXICO. ORIGINAL: colaboraciones justas entre artesanos y diseñadores. Secretaria de Cultura, 2021. Disponível em: https://www.gob.mx. 

JORNAL DO COMÉRCIO DO CEARÁ. Prefeitura de Fortaleza e Sebrae realizam 2ª Jornada Iberoamericana de Design e Artesanato. 2018. Disponível em: https://jcce.com.br. 

UNESCO Creative Cities Network. João Pessoa e Fortaleza como Cidades Criativas. Disponível em: https://dezem.co. 

REDE ARTESANATO BRASIL (PAB/UFMG). Projeto institucional. 2022. Disponível em: https://redeartesanatobrasil.com.br. 

SEBRAE. Dados institucionais, programas de fomento e CRAB. Disponível em: https://sebrae.com.br. 

ARTESA DESIGN. O Projeto Artesa Design – Plataformas e Biomas. 2023. Disponível em: https://artesadesign.com.br. 

Artesanato no Brasil

Artesanato no Brasil

Uma seção inteira tecida para a rede do artesanato brasileiro. Aqui, você percorre o mapa para encontrar artesãos e artesãs, mestres, grupos, lojistas, centros culturais e feiras, ampliando conexões e fortalecendo vínculos. Também pode navegar pelas páginas dos estados e conhecer as principais características produtivas de cada território.

Pesquisa & Desenvolvimento

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