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Entrevistas

Joel Cordeiro e a inovação ligada aos novos usos do miriti

28/08/2026Postado por: Equipe CRAB

Conversa Fiada com Joel Cordeiro da Silva, artesão e empreendedor, criou a Miriti Conceito, que funciona em Abaetetuba, Belém – PA. Nesta conversa conduzida por Alice Meditsch, Joel compartilha sua história e a relação com o miriti a partir da inovação.

_DSC3249.jpg Joel Cordeiro da Silva com o papel de miriti. Foto: Sharlene Melaine. Acervo / CRAB (2025).

O projeto Conversa Fiada é uma série de entrevistas com pessoas que trazem pontos de vistas inventivos sobre a relação com o fazer artesanal e sua rede. São artesãos inovadores, artistas visuais, designers, pesquisadores, criativos, professores e muitas outras pessoas que estão pensando sobre e fazendo artesanato, trazendo desafios, soluções e inovações para o setor.

Essa série é uma série especial em que entrevistamos participantes do III Seminário "Mãos que Promovem o Brasil", que também fizeram parte do Mosaico Amazônia Legal, o Mapeamento Cultural do Artesanato Brasileiro. Para saber mais, baixe nosso e-book em: https://crab.sebrae.com.br/pesquisa-desenvolvimento/pd-mosaicos/mosaico-para-mapeamento-cultural-do-artesanato-brasileiro

Alice Meditsch, especialista do CRAB entrevista Joel Cordeiro, paraense de Abaetetuba. Ele criou a Miriti Conceito, que transforma o miriti no que chama de biocompensado, assumindo múltiplas aplicações desde tecnologias para educação à aplicação no design e arquitetura.

Joel Cordeiro da Silva - Sou artesão há 23 anos. Nasci na cidade de Abaetetuba, no estado do Pará, que é considerada a capital mundial do brinquedo de Miriti. Lá tem muito esse tipo de artesanato de miriti por conta do Círio de Nazaré, que é uma tradição cultural secular segundo o IPHAN. As pessoas, na época do Círio, carregam uma casinha na cabeça pagando a sua promessa para a Santa.

Quando a gente olha para o brinquedo de miriti tradicional, a gente vê que ele é um brinquedo que reproduz muito o dia a dia do caboclo amazônico, do cara que vive lá, os barquinhos, as canoinhas, os brinquedos que se movem(o pila-pila, soca-soca, as casinhas, os pássaros, a cobra).

O girandeiro é o cara que carrega a Girândola na época do Círio, carregada de brinquedos para vender. Alguns compram o brinquedo de alguns artesãos e acompanham o Círio para também pagar sua promessa.

Alice Meditsch - Para quem não conhece o miriti, descreve um pouquinho ele para a gente

Joel - O miriti é uma palmeira que te ensina, ela tem uma vida inteligente, a gente só tira quando o braço do miriti está maduro. Se não, a fibra quebra todinha. É um material super leve, a secagem dele é feita no sol. Ela também dá um óleo, vendido na indústria da beleza.

A partir dos quatro anos depois de plantar, já posso começar a tirar.

Ele vai me dar até uns 20 anos os braços de miriti, depois disso ela está

muito alta e os braços vão diminuindo, então não compensa fazer essa retirada. Ela é uma árvore maravilhosa.

Na Amazônia, tu vai andando de barco num rio e vendo a palmeira mais alta que tem. Tem umas que conseguem atingir 30 metros de altura. Ela sempre vai dar perto da beira de rios, de igarapé.

Se tu plantar miriti, ela tem um tipo de raiz qquase invisível, que vai buscar água no último lençol freático. A água sobe nela, vai alimentar tudo o que ela tem e depois ela fica pingando pelas raízes que são em cima da terra. Tem gente que diz assim: “mas ela precisa de muita água!”. Ela precisa, mas ela também devolve. Então esse é um processo poderoso.

Alice - Então conta para a gente sobre o projeto. Como que você chegou no biocompensado de miriti? O que você fazia antes do biocompensado e como é que chegou nessa tecnologia?

Joel - Eu morei 7 anos em Natal, no Rio Grande do Norte, na década de 90.

Voltei para o Pará no ano de 2000. Quando eu estava no Rio Grande do Norte, eu olhei para o meu estado, porque por causa de uma cena, isso mudou a minha concepção de mente, por causa de uma cena. E eu disse que eu ia voltar para o norte, eu ia voltar para o Pará e eu não ia ser empregado de ninguém, mas eu não sabia o que eu ia fazer.

A cena foi o seguinte, um dia eu estava numa praia chamada Jacumã, lá no Rio Grande do Norte, e passei em cima de um pedaço de tábua lá. Dois cearenses, de longe, eles avistaram esse pedaço de tábua e saíram correndo. Eles começaram a brigar por causa desse pedaço de tábua.

Quando foi no outro dia, eu estava no mesmo lugar, e perguntei para um deles: “O que era que tinha naquele pedaço de tábua ontem que tu brigou com teu amigo?"

"Joel, sabe aquelas esculturas que a gente faz de madeira? Pois é, aquilo é melhor do que eu vender 100 redes.”

Aí eu até falei para ele, se tu morasse no meu estado, tu era o homem mais rico do mundo, porque lá as pessoas pegam a madeira e queimam árvores inteiras. Isso foi determinante para eu querer voltar para o Pará e trabalhar por minha conta.

Alice - E você tinha me contado que no Rio Grande do Norte você já tinha trabalhado com marcenaria.

Joel - No Pará, no Rio Grande do Norte, eu tenho um pouco de conhecimento de marcenaria e marchetaria. Quando eu voltei para o Pará, em 2000, eu comecei a trabalhar com lapidação de gemas orgânicas, para fazer colares, pulseiras e tal. Fui aprender também com outras pessoas para fazer, era eu e minha irmã que fazíamos isso.

Nesse trajeto, eu tinha que estar junto com o pessoal do artesanato de miriti, porque eles tinham a parceria com o Sebrae para participar das feiras. Foi de 2000 até 2003 nesse processo e eu sempre ouvia as pessoas querendo uma coisa de miriti, embalagem de miriti. Eu perguntava para os artesãos se faziam embalagem de miriti, e eles respondiam "Ah, isso não dá lucro, eu não quero nem saber, isso é só trabalho".

Eu ficava pensando como é que pode: um mercado aqui que quer essa embalagem de miriti e quem sabe fazer, não quer saber disso. Eu comecei a me enturmar com o pessoal, procurar saber como eles faziam. E realmente, da maneira que eles faziam, não tinha como dar lucro, dar dinheiro. Se ele fosse trabalhar da forma como ele trabalha com artesanato tradicional, ia passar o dia inteiro para fazer, digamos, cinco embalagens.

Tudo o cliente compra, tem um limite de preço para gastar com embalagem, não pode passar disso.

Alice – Existe essa não valorização da embalagem por não se pensar na durabilidade dela, né? A embalagem como algo descartável, muitas vezes feita com material plástico sem precisar ser feita desse material ou ainda não poder ser reciclada. E aí você chega com a solução do biocompensado de miriti.

Joel - A gente passa a produzir umas embalagens, não é em escala industrial, mas é numa escala artesanal. A primeira parte da fabricação são as chapas, depois recortar, colar, fazer acabamento.

A maior dificuldade do artesão é que às vezes ele é artesão, mas não é empreendedor. E eu tive muitas ajudas. O parceiro que mais me ajudou foi o Sebrae. Em 2010, foi quando eu fundei a minha startup, me tornei empreendedor individual e fiz o Empretec do Sebrae. Aquilo mudou a minha vida, a minha concepção.

Alice - Como que você virou startup e por que startup?

Joel - No ano de 2007, essa questão do biocompensado começou a chamar um pouco a atenção da academia. Isso foi um processo de inovação dentro do artesanato, porque não existia antes.

E eu consegui milimitrar ele, de três milímetros para cima, eu tiro qualquer milimetragem. Consegui fazer várias formas, por exemplo, fazer uma embalagem redonda aqui sem esse bio compensado, não tinha nem como fazer antes, hoje a gente faz.

Às vezes as pessoas me chamavam para falar sobre a questão da sustentabilidade, que naquele tempo eu nem sabia direito o que é isso, mas eu já fazia. E eu ia falar daquilo, das transformações que estavam sendo feitas, da forma como ela estava sendo feita, sem perder a ancestralidade, sem perder essa questão do passado.

E aí eu andava com os camaradas que nessa época estava surgindo o primeiro vale de startup do estado do Pará, que foi o Assaí Valley. Às vezes eu andava com esse pessoal, eles olhavam pra mim e diziam: "Cara, teu projeto tem cara de startup e tal". Até que quando foi um dia, eu perguntei pra um amigo meu: "Bicho, paga pra ser startup?” "Não, Joel, tu já é uma startup".

Então a partir de hoje, eu sou uma startup.

E eu passei a acompanhar e buscar mais conhecimento junto com eles. Eu era uma das poucas startups do interior do estado que participava dentro de Belém, a gente foi tendo mais conhecimento de algumas coisas, por exemplo, Parque Tecnológico do Guamá, que faço parte. Também tenho parceria com a UFRA, que é a Universidade Federal da Amazônia.

Alice – E o que é tecnologia para ti?

Joel - A gente desenvolve tecnologia social. Ela está fora desse processo da tecnologia, muito embora hoje, com o óculos de realidade virtual, a gente faça essa relação. O que a gente desenvolve na realidade são tecnologias sociais que estão longe desse mundo da "alta tecnologia”, digamos assim.

Alice - Ou da tecnologia digital também?

Joel - Da tecnologia digital, exatamente. Porque hoje as pessoas estão muito nesse mundo, mas isso uma hora vai saturar. Sem o uso das mãos para se fazer as coisas, a tecnologia não vai sobreviver. Por isso que 70% do valor do meu custo é mão de obra, e eu nunca vou mudar.

Eu posso trazer uma outra inovação ou tecnologia, mas para ela agregar, não para substituir (o trabalho manual).

Alice - Falamos de embalagem, mas que outras possibilidades de produtos existem com o biocompensado? Que outras frentes você está atuando?

Joel - Quando criou o biocompensado, a gente só pensava em fazer embalagem, porque via o pessoal querendo. Depois eu comecei a entender que se eu cruzasse ele, eu ia dar resistência. Fibras cruzadas. Eu fui fazendo tudo sozinho, sem apoio acadêmico nesse processo. Sem saber, por exemplo, que isso que eu fazia era um teste de resistência mecânica.

Então eu fui começando a fazer isso e eu fui ver que dava para fazer outras coisas, fiz uma mesa para um amigo meu. E então comecei a chamar designers, arquitetos, alguns engenheiros para colocar o miriti na arquitetura. Está fazendo dois anos e meio que eu conheci dois camaradas (Gustavo Valle e Luiz Guedes da Guá Arquitetura). Esse ano a gente participou da XIV Bienal Internacional de Arquitetura com o Pavilhão de miriti. Esse pavilhão é gigante, ele tem quatro metros de circunferência. É um pavilhão mesmo para você sentar, ficar lá confortável nele, com uma cortina de miriti.

Agora a gente está buscando uma impermeabilização, que ela seja uma natural. Por que a gente está falando de sustentabilidade, mas às vezes as pessoas incluem coisas que não tem nada a ver com a sustentabilidade e o projeto perde essa característica. A obrigação da gente que fala de sustentabilidade é entregar um produto sustentável, e estamos lutando para isso.

Começamos o processo de mobiliários, fazer poltronas, sofás e revestimento de parede. O miriti também é isolante térmico e acústico.

A grande dificuldade do artesanato é dialogar com o mercado, responder a alguns padrões. No nosso caso, vamos conseguir quantificar e vender por metro quadrado, o que facilita muito, só alterando em espessura: 5 milímetros, 6 milímetros, 7 milímetros.

Alice - É super versátil, né? E aí, como é que funciona essa interação entre o biocompensado com outras com outras tecnologias. Por exemplo o corte a laser? E como foi o processo de criação dos óculos?

Joel - Eu acho que eu fui a primeira pessoa a implementar a questão de laser no Miriti. Já usava pirógrafo, silk.

O Valter da Intersteller, criou o óculos de realidade virtual, só que não tinham como fazer em escala. Hoje a gente faz uma faixa de mil óculos mensais. Essa foi uma construção conjunta, ele me deu liberdade para isso. Hoje o projeto dele está em sete estados brasileiros, já tem alguns países para fora do Brasil.

Alice - E quantas famílias nessa produção do óculos?

Joel - Hoje eu tenho, diretamente no meu galpão, oito colaboradores, direto. Desses oito, cinco são mulheres, três homens. Eu sempre deixo os homens para fazer a coisa mais pesada, corte, as mulheres fazem trabalhos mais finos. Isso dentro do meu galpão. Temos um processo de trabalhar com cerca de duzentas famílias hoje, comprando o braço de miriti delas.

O braço de miriti, é retirado pelos artesãos tecelões, que fazem paneiros para vender para frutas em Belém. Eles já plantam o miriti dentro do próprio açaizal e retiram alguns braços quando já está maduro, deixando os outros lá no processo de manejo. Se o ribeirinho cortar um braço que não esteja maduro, ele não serve para fazer o paneiro. A natureza ensina.

Alice - A gente estava conversando antes um pouco sobre o artesanato com o Miriti e todo o processo de trabalhar com o Miriti. Como que as mulheres têm chegado mais recentemente para trabalhar?

Joel - Acho que tudo na vida precisa de um referencial. Dentro do brinquedo do Meriti, do artesanato de miriti, existia uma mestra chamada Nina Abreu. Ela foi a primeira mulher a não ter medo de se inserir no artesanato. Não sei se era muito machismo ou se era só os homens que dominavam isso mesmo, porque eram só artesãos e mestres homens.

A mestra Nina Abreu, foi uma mulher que sempre gostou da cultura no nosso município. Ela era famosa lá, gostava de arte, de cultura e vivia isso. Foi a primeira a buscar o espaço, como mulher negra. E ela encorajou outras mulheres. Então hoje tem a Dorielma, que ela já puxou o marido, que faz por causa dela, mas ela que é a mestra. Tem a Socorro, que é uma pessoa que faz chapéus, faz umas coisas bem diferentes. Tem a Mestre Cid, mulher de um artesão.

No nosso projeto, 70% da nossa mão de obra é feminina e todos ganham igual.

Alice - Joel, muito obrigada. Acho que é muito bacana isso que tu traz sobre essa relação com outras tecnologias. Porque é isso, você faz, você produz tecnologia também. E trazer também essas novas relações, como é que o artesanato pode estar se relacionando também com outras frentes, com outras áreas é muito interessante.

Joel - Quero agradecer pela oportunidade do CRAB estar começando a entender esse processo. A minha chegada aqui era impossível sem o Mosaico*, o CRAB nunca ia entender que o Joel, que é um artesão que vem depois, ele conseguiu fazer uma coisa que mudou a concepção do município de Abaitetuba.

Eu quero começar a fazer pranchas de miriti, prancha de surf, de stand up para essas comunidades que eu compro. Eu quero fazer isso um dia como uma forma de mostrar para eles que tem um valor muito maior do que eles podem imaginar!

Para assistir ao Conversa Fiada, acesse:

https://www.youtube.com/watch?v=id-THJd7iNY

_DSC3284.jpg Joel Cordeiro da Silva com o óculos de realidade virtual. Foto: Sharlene Melaine. Acervo / CRAB (2025).

_DSC3234.jpg Produtos da Miriti Conceito. Foto: Sharlene Melaine. Acervo / CRAB (2025).

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