
Tradição familiar ganha novos traços
A herança de J. Borges na família. Foto: divulgação/ Diário de Pernambuco
Há histórias que atravessam gerações. Na família Borges, elas foram gravadas na madeira por meio da xilogravura. No mês em que celebramos o Dia dos Pais e o Dia da Arte Popular, a trajetória iniciada por José Francisco Borges, conhecido como Mestre J. Borges (saiba um pouco mais do artista e as técnicas de xilografia), revela como um saber popular se transformou em patrimônio cultural e segue vivo nas mãos de seus descendentes.
Reconhecido como um dos maiores nomes da arte popular brasileira, J. Borges levou o imaginário nordestino, inspirado na literatura de cordel, a museus e instituições internacionais. O artista produziu mais de 300 obras de cordel. Após sua morte, em 2024, filhos, netos e a nora assumiram a missão de preservar e renovar esse legado, mantendo viva a tradição da xilogravura e inspirando novas gerações.
Bacaro Borges - Jovem usa paredes como tela e faz temas contemporâneos dialogarem com a tradição da xilogravura
Bacaro Borges. Foto: Divulgação / Instagram @bacaroborges.xilo, 2026.
J. Borges deixou um legado no qual a arte de contar histórias e revelar a beleza do sertão em traços e cores é mantida e perpetuada por gerações. Filho caçula, Bacaro Borges, ainda novo, seguiu os passos do pai. Aos cinco anos de idade, já esboçava os primeiros desenhos, graças ao incentivo paterno.
Nascido em uma geração com ideais e visão inovadora, o jovem alia as técnicas passadas por seu pai a temáticas mais contemporâneas, garantindo um resultado singular às obras produzidas. Em seu ateliê na cidade de Bezerros, Bacaro mantém a simbologia nordestina em suas peças, ao mesmo tempo em que investe em novos formatos e materiais para dar vida à sua arte.
Bacaro preparando matriz de uma de suas obras. Foto: Divulgação /Instagram @bacaroborges.xilo, 2026.
Azulejos e itens de vestuário estampam suas gravuras, criando oportunidades de negócio. No ano de 2024, o jovem assinou ilustrações do Festival de Inverno de Garanhuns – FGI, considerado um dos maiores eventos multiculturais da América Latina, e reúne durante duas semanas artistas, exposições e oficinas.
Para o artista, a tradição da xilogravura mantida pelo pai, tios e primos, assim como do irmão Pablo que também enveredou na profissão, compõe a forma de seus traços que também carregam a visão mais moderna de produções artísticas.
Uma das obras de Bacaro Borges. Foto: Divulgação /Instagram @bacaroborges.xilo, 2026.
Pablo Borges - Crescendo entre matrizes e gravuras
Continuar a missão de J. Borges era o que o outro filho, Pablo Borges, pensava quando pequeno. Ele sentia que precisava manter o legado e recorda-se de ser visto como “a continuação da tradição paterna”. Aos 4 anos de idade, Pablo já mostrava seu desejo de desenhar, preferia papel e caneta quando o assunto era brincar. Foi brincando que o jovem revelou aos poucos que tinha talento. Ainda pequeno, lembra das inúmeras vezes que acompanhou as etapas de produção das artes.
Pablo Borges. Foto: Divulgação / Instagram @ateliepabloborges, 2026.
Essa vivência foi responsável por aperfeiçoar as habilidades de Pablo, que, no alto dos seus 7 anos, fez sua primeira xilogravura. Anos mais tarde, seu nome começou a ganhar referência. As variações de cores e padrões deram vida a Lampião e Maria Bonita, assim como reforçaram a riqueza de detalhes em obras como a de São Francisco de Assis. Pablo, a partir dos traços e sensibilidade artística, consegue imprimir beleza e alma em todas as peças produzidas, como a inspirada no grande pintor Portinari, chamada “Retirantes”.
Obra de Pablo Borges “A Mãe do Brasil”. Foto: Divulgação / Instagram @ateliepabloborges, 2025.
Pablo, além de produzir sua arte, promove oficinas e cursos, compartilhando a técnica e os aprendizados. Uma delas foi a imersão cultural realizada no Sesi de Rio Claro durante a exposição “J. Borges – O Mestre da Xilogravura”, no final de 2025.
Oficina ministrada por Pablo Borges. Foto: Divulgação / Instagram @ateliepabloborges, 2025.
J. Miguel - Cinco décadas dedicadas à xilogravura
Diferente dos outros irmãos, J. Miguel, já em sua pré-adolescência, era quem acompanhava J. Borges na gráfica, ajudando-o na impressão dos cordéis. A proximidade dele com as atividades no ateliê foi o pontapé inicial para ele produzir as primeiras matrizes. Por questão de respeito ao ofício, J. Miguel fazia as artes sem que o patriarca soubesse, meio que escondido. Mas, graças às conversas com sua mãe, decidiu mostrar ao pai o seu feito, e recebeu o apoio necessário para enveredar pela arte.
J.Miguel e sua obra: “As profissões do mestre J.Borges”. Foto: Divulgação / Instagram @ateliejmiguel, 2025.
J. Miguel destaca em suas obras cenas do cotidiano sertanejo, referências à religiosidade e personagens simbólicos, conseguindo aproximar sua arte do universo do cordel por intermédio de narrativas visuais. Com um acervo de mais de 100 obras, algumas de suas peças estão expostas na Casa de Cultura Serra Negra, na cidade de Bezerros.
Obra de J. Miguel “O Carnaval”. Foto: Divulgação / Instagram @ateliejmiguel, 2023.
O artista participou de eventos como a Bienal Naifs do Brasil, em exposições pelo Brasil e suas obras já chegaram a países da América do Norte e da Ásia. Ao longo de 50 anos, J. Miguel tem se dedicado à xilogravura, dando continuidade a tradição familiar. Seu filho José Jefferson segue o mesmo caminho, mostrando também o gosto e habilidade na técnica.
Obra de J. Miguel “O Sertão”. Foto: Divulgação / Instagram @ateliejmiguel, 2025.
Gustavo Borges - Um olhar contemporâneo sobre o sertão
Gustavo Borges. Foto: Divulgação / Instagram @xilo_gustavoborges, 2025.
Representando a terceira geração da família Borges, o neto Gustavo, de 22 anos, carrega no sangue as habilidades do avô. O jovem já participou de grandes eventos como a Fenearte, do Sebrae, dentre outros, e aproveita o universo digital para comercializar suas obras. Foi no ateliê do patriarca que o talento foi despertado. Em meio a brincadeiras no espaço, Gustavo acompanhava a forma dele produzir as matrizes, manusear ferramentas e madeiras. A vivência lhe conferiu um olhar que, anos mais tarde, o ajudaria a decidir seguir o ofício.
Obra assinada por Gustavo Borges. Foto: Divulgação / Instagram @xilo_gustavoborges, 2026.
Há mais de quatro anos, o jovem atua profissionalmente com xilogravura em um pequeno ateliê na casa da avó. Assim como o irmão Pablo, ele também ministra oficinas, ressaltando o imaginário nordestino com uma linguagem mais contemporânea. O artista, com seu olhar inovador, busca novos formatos para expor sua arte e, para tanto, aplica a técnica de xilogravura em ambientes, como salas, paredes e fachadas. Recentemente, Gustavo Borges participou da Fenearte 2026 e levou para o evento i acervo das obras produzidas.
Obra Yemanjá de Gustavo Borges. Foto: Divulgação / Instagram @xilo_gustavoborges, 2025.
Edna Silva - Um olhar feminino sobre a xilogravura
Edna silva e suas obras. Foto: Divulgação / Nau Cultural 2026.
O legado de J. Borges não se resume a filhos e netos. A nora Edna Silva, casada com um dos filhos do artista, Carlos Borges, também mantém as técnicas do sogro em suas obras. A artista, vinda de família com habilidades do fazer manual, conheceu a xilogravura na época do namoro com o herdeiro.
Obra “Cestaria” de Edna Silva. Foto: Divulgação / Instagram @gravurise, 2025.
Durante alguns anos, trabalhou com o sogro em seu ateliê. No ano de 2022, seguiu o ofício com foco no universo feminino, sempre retratando elementos do agreste. Participou de eventos do setor e em importantes feiras no Brasil, tais como Fenearte e ExpoMinas.
Suas gravuras estampam, em sua maioria, mulheres nordestinas, rendeiras, indígenas, dentre outras. A jovem trouxe para o seu trabalho o diferencial de produzir trabalhos personalizados para homenagear personalidades, famílias, casais, dentre outras criações, com protagonismo feminino.
Edna também enveredou pelo universo das oficinas. A jovem ministra curso para adultos e para crianças, ensinando o manuseio da madeira, pintura e demais detalhes da técnica de xilogravura.
Obra em referência aos povos originários. Foto: Divulgação / Instagram @gravurise, 2025.
Se a obra de Mestre J. Borges ajudou a projetar a xilogravura brasileira para o mundo, hoje são seus herdeiros que mantêm essa história em movimento. Presentes na edição 2026 da Fenearte, filhos, netos e a nora demonstraram que a tradição permanece viva, renovada por diferentes estilos e olhares, mas fiel às raízes que fizeram da família Borges uma referência da arte popular brasileira. Em cada matriz gravada e em cada nova obra, o legado do mestre continua a inspirar gerações e a fortalecer a cultura do país.

