
O poncho e sua origem
Representação histórica da indumentária gaúcha no início do século XX. (Foto: autor desconhecido, domínio público, c.1900. Fonte: OLIVEIRA; SILVA, 2013).
Muito antes de ser conhecido como Rio Grande do Sul, povos indígenas que habitavam o bioma do pampa já produziam mantos tecidos para enfrentar o vento, o frio e as mudanças bruscas de temperatura da região.
O poncho carrega séculos de história, cultura e identidade dos povos sul-americanos. Sua origem está associada às civilizações andinas e aos povos que habitaram esse território, onde a peça se consolidou como proteção contra o clima e expressão de pertencimento cultural.
O próprio nome "poncho" tem origem controversa. Alguns pesquisadores relacionam o termo ao quíchua punchu, enquanto outros apontam influências de diferentes línguas indígenas do Cone Sul. Independentemente da etimologia, a peça tornou-se um símbolo compartilhado por comunidades que ocupam territórios do Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e Bolívia.
Tropeiro paulista em viagem pelo Sul de Minas Gerais no final do século XIX. (Foto: Acervo Paulistânia Tradicional / Facebook, 2019).
Os extensos campos, a tradição pastoril e o deslocamento constante de tropeiros e trabalhadores rurais contribuíram para que a peça se tornasse uma companheira inseparável da vida cotidiana.
Amplamente adotado pelos gaúchos ao longo dos séculos, o poncho carrega um conhecimento dos povos originários. Inicialmente, era uma peça simples, feita com lã de ovelha e tingida com pigmentos naturais extraídos de plantas e minerais. Os povos nativos já utilizavam como proteção contra o frio e a chuva, adaptando o formato da peça, apenas com uma abertura para a cabeça, para facilitar os movimentos durante a caça e a vida ao ar livre. Com a chegada dos colonizadores europeus e a expansão da pecuária nos pampas, o poncho passou a ser produzido em maior escala, mantendo sua essência artesanal, mas incorporando outras técnicas de tecelagem manual. Ao longo do tempo, a costura artesanal aprimorou os acabamentos, tornando os ponchos mais resistentes e duráveis.
Muito além do frio
O poncho nasceu para proteger.
Protegia do frio intenso, da chuva fina que chega carregada pelo vento e do sereno das madrugadas passadas a cavalo. Sua forma simples permitia liberdade de movimento para quem percorria longas distâncias conduzindo rebanhos ou mercadorias.
Mas reduzir o poncho a uma função prática seria ignorar sua dimensão cultural.
Em muitos territórios sul-americanos, a peça também comunica pertencimento. Vestir um poncho é carregar uma paisagem sobre os ombros.
Ao longo do tempo, o poncho deixou de ser apenas uma solução prática para enfrentar o clima rigoroso dos campos sulinos e passou a ocupar um lugar simbólico na construção da identidade gaúcha. Estudos sobre a indumentária tradicional do Rio Grande do Sul apontam que o poncho tornou-se um dos elementos mais reconhecidos do imaginário regional, representando não apenas o homem do campo, mas também uma ideia de tradição construída e reafirmada por gerações. Mais do que vestir o corpo, ele ajuda a contar histórias sobre modos de vida, relações com o território e formas de compreender o mundo (OLIVEIRA; SILVA, 2013).
Dos campos à tecelagem: como nasce um poncho artesanal
A ovinocultura é uma atividade de grande importância econômica e de tradição para o Estado do Rio Grande do Sul. (Foto extraída do programa Rio Grande Rural, disponível no YouTube, acesso em jun. 2026).
A produção artesanal de um poncho começa muito antes de chegar ao tear.
Tudo tem início com a criação dos animais que fornecem a matéria-prima. No sul do Brasil, a lã ovina ocupa papel central nesse processo. A ovinocultura está profundamente ligada à formação econômica e cultural dos Pampas, criando uma relação histórica entre território, paisagem e artesanato.
Após a tosquia, a lã passa por diferentes etapas.
Primeiro, é limpa para remover impurezas naturais. Em seguida, as fibras são cardadas, processo que organiza e alinha os fios. Depois vem a fiação, realizada manualmente ou com auxílio de equipamentos tradicionais, transformando as fibras em fios contínuos.
Em muitas comunidades, os fios ainda recebem tingimentos naturais produzidos a partir de plantas, cascas, sementes e minerais encontrados na região.
Somente então começa a etapa da tecelagem.
Nos teares, os fios se entrelaçam lentamente até formar grandes mantas. Dependendo da técnica utilizada, a produção de um único poncho pode levar dias ou até semanas.
Cada etapa exige conhecimento técnico, sensibilidade e experiência acumulada ao longo de gerações.
Artesanato em lã ovina integra mulheres no município de Charqueadas - Rio Grande Rural. (Foto extraída do programa Rio Grande Rural, disponível no YouTube, acesso em jun. 2026).
Nem todo poncho é igual
Exemplos de ponchos confeccionados em diferentes materiais: lã de alpaca, lã ovina e tricô contemporâneo. (Fotos: La Mamita, Associação Mãos Femininas que Tecem e Pingouin).
Ao longo dos séculos, diferentes tipos de poncho surgiram na América do Sul.
Alguns são produzidos com lã mais espessa, destinados aos períodos de frio intenso. Outros apresentam tramas mais leves, adequadas para climas amenos. No Rio Grande do Sul, são tradicionais o uso de padronagens e outras versões do agasalho como as palas.
Também existem exemplares produzidos com algodão, misturas de fibras naturais e até materiais contemporâneos, ampliando as possibilidades criativas sem abandonar a essência da peça.
Poncho sesentalista pertencente ao acervo do Pavilhão da Criatividade do Memorial da América Latina. (Foto: Memorial da América Latina, 2020).
O poncho da foto é o “sesentalista” feito em tecido de seda, de autor anônimo. Tem um 1,20 m de largura por 1 metro de comprimento e foi produzido em Piribebuy, Departamento de la Cordillera, Paraguai. A peça integra o acervo do Pavilhão da Criatividade, do Memorial da América Latina.
Matéria-prima, lã de ovelha gera renda em projeto que reúne mulheres em Campos do Jordão — Foto: Montagem: Hellen Souza/G1 e Fotos: Fábio França/ G1 Lã de ovelha, matéria-prima tradicional dos ponchos produzidos nos Pampas brasileiros. (Foto/Montagem: Hellen Souza/G1; fotos: Fábio França/G1, 2019)
O poncho continua existindo porque há pessoas dedicadas a preservar os conhecimentos envolvidos em sua produção.
No Pampa brasileiro, famílias de tecelões mantêm técnicas transmitidas entre gerações, especialmente em municípios ligados à criação de ovinos e à cultura campeira.
Também se destacam iniciativas coletivas formadas por artesãs rurais que atuam em todas as etapas da cadeia produtiva da lã, desde o beneficiamento da matéria-prima até a confecção final das peças.
A preservação desses saberes depende do trabalho de artesãos que mantêm vivas as técnicas tradicionais de fiação, tingimento e tecelagem. No Rio Grande do Sul, destacam-se grupos como a Associação Ladrilã, de Pelotas, a Associação de Artesãos Tecelagem Lavrense, de Lavras do Sul, e a Associação Mãos Femininas que Tecem, de Charqueadas, iniciativas que valorizam o trabalho com a lã e a produção têxtil artesanal. Mais do que produzir objetos, essas comunidades ajudam a preservar memórias, fortalecer identidades e manter viva uma das mais importantes tradições têxteis da América do Sul.

