
O artesanato como narrativa
O bordado como resistência, memória e protagonismo feminino. (Foto: Ayla Guadalupe / Instagram, 2026.)
Durante séculos, costurar, bordar e remendar foram atividades associadas ao universo doméstico feminino. Aprendidos entre mães, avós e filhas, esses saberes ocuparam um lugar invisível na história da arte, frequentemente classificados como trabalhos manuais ou artes aplicadas, raramente reconhecidos como produção artística.
Nas últimas décadas, esse cenário começou a mudar. Cada vez mais artistas passaram a utilizar técnicas tradicionais do artesanato para discutir memória, identidade, ancestralidade, território e questões sociais. Essa mudança reflete uma valorização das raízes. O uso de técnicas manuais como cerâmica, tecelagem e bordado na arte contemporânea subverte a antiga divisão entre "arte erudita" e "artesanato". Nesse movimento, o bordado aparece como homenagem e reverência àquelas que reproduziam a técnica como sustento ou atividade corriqueira de uma vida dedicada ao cuidado.
Entre essas artistas estão Ayla Guadalupe, Mitti Mendonça e Rosana Paulino. Embora pertençam a diferentes gerações e desenvolvam pesquisas visuais próprias, as três compartilham uma característica fundamental: utilizam técnicas tradicionalmente ligadas ao fazer artesanal para produzir obras que provocam reflexão sobre quem somos e quais histórias escolhemos preservar.
Rosana Paulino - São Paulo
Rosana Paulino utiliza costura, fotografia e gravura para revisitar a história da população negra brasileira. (Foto: Isabella Matheus / ArteRef, 2023.)
Rosana Paulino é uma artista que transforma técnicas têxteis em uma linguagem política com imensa potência. Nascida em São Paulo, em 1967, a artista visual, pesquisadora e doutora pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) desenvolve, há mais de três décadas, uma produção que investiga os impactos do colonialismo, do racismo e das desigualdades de gênero na formação da sociedade brasileira. Em sua obra, técnicas tradicionalmente associadas ao universo doméstico feminino, como a costura, o bordado e a manipulação de tecidos, convivem com fotografia, gravura, desenho, instalação e escultura para construir narrativas que questionam as ausências da história oficial.
A pesquisa de Rosana Paulino parte, frequentemente, de fotografias históricas, imagens de arquivos e retratos de mulheres negras produzidos durante o século XIX. Em vez de apresentá-los como documentos estáticos, a artista intervém sobre essas imagens com linhas, costuras e bordados que ora unem, ora fecham ou tensionam os corpos retratados. A linha deixa de cumprir apenas uma função técnica e transforma-se em metáfora visual das marcas deixadas pela escravidão, pelo silenciamento e pelas violências herdadas do período colonial.
O tecido também ocupa um papel central em sua produção. Lençóis, panos, bastidores e outros suportes têxteis são incorporados às obras como elementos carregados de significados, aproximando a arte contemporânea dos saberes tradicionalmente preservados por costureiras, bordadeiras e artesãs. Ao deslocar essas técnicas do espaço doméstico para museus e galerias, Rosana contribui para ampliar o reconhecimento do fazer manual como uma forma legítima de produção artística e intelectual.
Entre suas obras mais conhecidas está a série Bastidores (1997), na qual fotografias de mulheres negras são costuradas com linhas que atravessam olhos, bocas e pescoços, evidenciando processos históricos de silenciamento e apagamento. Já em Assentamento (2013), fotografias, gravuras, costuras e tecidos são combinados para refletir sobre a diáspora africana, a escravidão e a construção da identidade brasileira. Em toda a sua produção, o ato de costurar ultrapassa a dimensão técnica e torna-se um gesto simbólico de reconstrução da memória.
Na série Bastidores, Rosana Paulino utiliza linhas e fotografias para discutir silenciamento e memória das mulheres negras. (Foto: Primeiros Negros, 2024.)
Reconhecida internacionalmente, Rosana Paulino participou de importantes exposições no Brasil e no exterior, com obras presentes em instituições como a Pinacoteca de São Paulo, a Fundação Bienal de São Paulo, a Bienal de Veneza, o Perez Art Museum Miami (PAMM), a Pinacoteca de São Paulo, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) e o Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York. Em 2018, recebeu o Prêmio PIPA, um dos principais reconhecimentos da arte contemporânea brasileira.
Ayla Guadalupe - Pernambuco
“Eu gosto de brincar com as linhas, pensar a partir das palavras e ver pessoas caminhando” – disse Ayla em sua biografia no Instagram. (Foto: Ayla Guadalupe / Instagram, 2025.)
Artista e artesã têxtil recifense, filha de Susana e neta de Guadalupe, Ayla aprendeu a bordar ainda na infância ajudando a mãe a finalizar vestidos de noiva. Foi com as mulheres da família que descobriu não apenas o ofício, mas também a potência do bordado como forma de preservar histórias.
Ao transformar fotografias de família, documentos e objetos pessoais em obras têxteis, a artista cria narrativas que atravessam experiências individuais e alcançam memórias compartilhadas por muitas mulheres.
Sua produção parte da ideia de que bordar também é um gesto de escuta. Em vez de utilizar a linha apenas como elemento decorativo, Ayla a transforma em linguagem visual para recuperar histórias que permaneceram silenciadas ou pouco registradas. Em suas obras, o fio costura lembranças, recompõe ausências e evidencia as marcas deixadas pelo tempo sobre corpos, afetos e relações familiares. O tecido torna-se um arquivo vivo, onde memória e matéria se entrelaçam.
Ayla Guadalupe transforma tecidos, fotografias e linhas em narrativas sobre memória e pertencimento. (Foto: NORDESTESSE / Instagram, 2025.)
Embora desenvolva uma produção autoral, Ayla compreende seu trabalho como parte de uma rede mais ampla de mulheres que preservam técnicas têxteis e compartilham experiências por meio do fazer manual. Essa dimensão coletiva aparece tanto na valorização das práticas artesanais quanto na escolha de materiais e processos que respeitam o tempo do bordado e a manualidade de cada peça. Entre as técnicas, a renda renascença, tradicional do cariri paraibano, está entre a escolha da artista como base para seus bordados. Em vez da velocidade da produção industrial, suas obras revelam a lentidão do ponto e da memória construída fio a fio.
Sua pesquisa tem sido apresentada em exposições que ampliam o debate sobre arte têxtil e narrativas femininas. Entre elas destaca-se A Nordeste do Nordeste, realizada em Lisboa, que reuniu artistas contemporâneos ligados às múltiplas identidades nordestinas, propondo um olhar sobre a produção artística da região para além dos estereótipos. Ao integrar essa mostra, Ayla reafirma o bordado como linguagem capaz de conectar autobiografia, memória coletiva e patrimônio cultural.
Mitti Mendonça - Rio Grande do Sul
Memória, ancestralidade e identidade negra atravessam a pesquisa artística de Mitti Mendonça. (Foto: Nonada, 2022.)
A artista visual, ilustradora e arte-educadora Mitti Mendonça encontrou no bordado uma forma de transformar memórias familiares em narrativas visuais sobre ancestralidade, identidade negra e pertencimento. Natural de São Leopoldo (RS), sua produção articula arte têxtil, desenho, pintura e recursos digitais para investigar histórias que, durante muito tempo, permaneceram à margem dos registros oficiais.
A relação com o bordado nasceu muito antes da carreira artística. A técnica faz parte da história das mulheres de sua família há mais de um século. Tias e avós bordavam fantasias de carnaval, roupas e peças do cotidiano, um conhecimento construído na prática e em família. Como a própria artista afirma, suas obras procuram valorizar a arte têxtil e reconhecer essas mulheres como produtoras de cultura e de arte.
Mão Negra: um ateliê para criar novas narrativas
Releitura de fotografia da tia materna de Mitti, ponto russo sobre tecido de linho. (Foto: Mitti Mendonça, Instagram, 2021)
Essa pesquisa deu origem, em 2017, ao Mão Negra, ateliê, marca autoral e espaço cultural criado por Mitti para fomentar narrativas visuais negras por meio da arte têxtil. Além da produção de obras, o projeto promove oficinas, encontros, exposições e atividades formativas que aproximam o público do bordado como linguagem artística contemporânea. O espaço também funciona como lugar de experimentação, circulação de artistas e valorização do fazer manual, reafirmando o artesanato como prática cultural viva e em constante transformação.
O bordado permanece como eixo central de sua pesquisa, mas dialoga constantemente com outras técnicas e materiais. Fotografias de álbuns de família, desenhos, pintura, colagem, arte digital e tapeçaria são incorporados às composições, criando superfícies que sobrepõem tempos, memórias e referências visuais. Em muitas obras, tecidos estampados inspirados em matrizes africanas ampliam o significado das imagens, estabelecendo conexões entre herança familiar, diáspora e identidade negra.
A consistência dessa pesquisa levou Mitti Mendonça a participar de importantes exposições no Brasil e no exterior. Entre os destaques estão Presença Negra, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS); Quilombo: Vida, Problemas e Aspirações do Negro, no Instituto Inhotim (MG); e Empowerment, realizada no Kunstmuseum Wolfsburg, na Alemanha. Suas obras também integram acervos de instituições como a Fundação Vera Chaves Barcellos, o MARGS e o Instituto Lojas Renner, consolidando sua presença no circuito da arte contemporânea brasileira.
Entre os reconhecimentos recebidos ao longo da carreira, destaca-se o segundo lugar no Prêmio Aliança Francesa de Arte Contemporânea de Porto Alegre, em 2020. Além da produção artística, Mitti atua como arte-educadora, ministrando oficinas em instituições como a Fundação Iberê Camargo, o Instituto Tomie Ohtake e o MARGS. Nesses encontros, compartilha técnicas de bordado livre ao mesmo tempo em que propõe reflexões sobre memória, identidade e ancestralidade, aproximando o saber artesanal das práticas educativas e da criação artística contemporânea.
A linha também é linguagem
Enquanto Ayla Guadalupe aproxima o bordado das experiências comunitárias, Mitti Mendonça transforma a herança afetiva em linguagem visual e Rosana Paulino utiliza linhas e costuras para revisitar a história da população negra no Brasil. Em comum, as três demonstram que técnicas tradicionalmente associadas ao trabalho doméstico feminino podem ocupar museus, galerias e centros culturais sem perder sua origem artesanal.
Ao fazer da linha um instrumento de criação, Ayla Guadalupe, Mitti Mendonça e Rosana Paulino demonstram que o artesanato continua produzindo novas formas de imaginar, registrar e transformar o mundo. Elas revelam que cada ponto também pode ser um gesto de memória, resistência e criação.

