Dos brinquedos para os filhos às obras reconhecidas no Brasil e no mundo
Família Cândido (Na foto, à direita está a matriarca, ao seu lado sua filha Maria Cândido (in memoriam), a neta Caroline, a filha Maria das Dores e Daiane e Aucilene, respectivamente, neta e nora da ceramista). Foto: Patrícia Araújo/ Diário do Nordeste, 2021.
O Dia do Folclore é um convite para revisitar tradições e costumes preservados pela arte popular. Um dos exemplos dessa riqueza cultural está em Juazeiro do Norte, no Ceará, onde a Família Cândido encontrou no barro uma forma de contar essas histórias. No início, Maria de Lourdes produzia pequenos brinquedos para seus filhos brincarem, mas em pouco tempo começou a produzir outros formatos e dentre eles as placas de paredes, também conhecidas como “placas temáticas” ou “temas”.
Suas obras tornaram-se referência no artesanato e fizeram a Família Cândido ser conhecida em várias regiões do Brasil e no exterior. As artes da mestra narram os costumes regionais, o cotidiano do povo nordestino, símbolos do agreste e do folclore brasileiro.
No ano de 2004, a artesã foi reconhecida pelo estado do Ceará como “Mestre da Cultura”, recebendo também o título de Tesouro Vivo da Cultura Tradicional Popular do Ceará. Dada a importância do trabalho realizado pela Família Cândido, a Casa da Moeda, em uma das edições do passaporte nacional, escolheu como um dos símbolos iconográficos do documento suas peças em argila, ressaltando a diversidade cultural do Brasil.
Nas mãos de Maria de Lourdes, o folclore nordestino ganhou mais cor e beleza
Maria de Lourdes. Foto: Divulgação / Instagram @arte.embarro, 2023.
Maria de Lourdes Cândido Monteiro, nasceu no ano de 1939 no Ceará, Vinda de uma família grande com 11 irmãos, que tinha como fonte de renda o trabalho na lavoura, teve seu primeiro contato com a argila na infância. Ainda criança, manuseava o barro ao participar junto aos seus familiares de mutirão para a construção de casas de taipa.
Quando moça, se casou com João Américo Monteiro, com quem teve 11 filhos. Para entreter as crianças, começou a produzir de forma artesanal minipeças como panelas e bichos. Algum tempo depois, graças à sua irmã, Cícera Fonseca da Silva, conhecida como Ciça, começou a se dedicar mais ao que chamava de “miudezas”, aumentando a produção e ensinando suas herdeiras o modo de fazer. Suas filhas Maria Cândida e Maria Socorro a ajudavam a confeccionar as peças e vendê-las.
Jardim do Eden por M.S.C. Foto: Divulgação / Instagram @arte.embarro, 2024.
Não demorou muito para a matriarca criar outros formatos de peças e começar a produzir placas de paredes, também conhecidas como placas temáticas. Obras essas que fariam o seu nome e o de sua família ser conhecido por milhares de pessoas, garantindo reconhecimento e honrarias.
Nelas, a combinação de cores, figuras moldadas e fixadas em placas de argila comunicavam por si só a riqueza da arte popular brasileira.
O Dom de fazer arte com o barro é perpetuada por gerações
Maria do Socorro no ateliê da família. Foto: Divulgação / Instagram @novosparanos, 2022
As habilidades manuais e o olhar artístico da ceramista foram perpetuados pelos filhos e netos. Inicialmente, seu marido, João, é quem coletava a matéria-prima e a preparava para que ficasse no ponto adequado para a artesã produzir suas peças. A arte produzida por Maria de Lourdes e suas filhas Maria Cândido e Maria do Socorro chamava a atenção pela riqueza visual e detalhes.
As artesãs eram chamadas de “as três Marias de Juazeiro”. Das obras produzidas pelo trio, as confeccionadas por Maria Cândido eram vistas como as mais bonitas. Era ela quem incentivava a família a participar dos eventos do setor, contribuindo para que a arte fosse conhecida em outras localidades.
Os caretas. Foto: Divulgação / Instagram @arte.embarro, 2025.
Dentre as criações de Maria Cândido estão o lambe-lambe, namoro no jardim, vida de luta e morte de Padre Cícero. Após seu falecimento, sua irmã, Maria das Dores Monteiro, deu continuidade à sua arte. A produção das obras da família ficou então sob a responsabilidade de 5 filhos de Maria de Lourdes, a nora Aucilene Almeida e a neta Carol Monteiro.
Uma das particularidades das obras da família são as assinaturas de cada membro, mantendo dessa forma a individualidade de cada artista. Elas funcionam como uma identificação de temas e/ou características específicas de cada obra. A abreviação M.L.C identificava as obras de matriarca, Maria de Lurdes Cândido Monteiro; M.C.M era de Maria Cândido; D.M era registrado por Maria das Dores (Dora); M.C.S por Maria do Socorro; C.M por Carol Monteiro. Quando as artesãs recebiam demandas das outras irmãs ou da mãe, elas registravam na assinatura, a sigla dela em referência à artesã responsável pela temática. As obras, por exemplo, de Mária Cândida (filha) quando feitas por Maria do Socorro recebiam as siglas M.C.M por S.C.M, em sinal de respeito ao trabalho de cada uma.
Transformando argila em narrativas visuais em 3D
Obra da Família Cândido. Foto: Divulgação / Instagram @novosparanos, 2022.
Para confeccionar as placas de parede com o efeito tridimensional é necessário, antes de tudo, preparar a argila para que ela apresente a consistência adequada para ser modelada. Na próxima etapa, placas, personagens e demais elementos tomam forma.
Preparo da argila – Após a coleta de barro, ele é moído em uma fábrica local, até obter uma massa fina.
Descanso – A massa é misturada com água e passa por um período de descanso de três dias.
Modelagem – Após o período de pausa, inicia-se o processo de modelagem das peças que vão compor a obra final. Começando pela placa que servirá como base. Em seguida, inicia-se a modelagem das figuras que serão aplicadas na placa. Essa aplicação é feita com as peças ainda úmidas, o que ajudará na fixação dos elementos.
Reisado em cerâmica produzido por Dora. Foto: Divulgação / Instagram @arte.embarro, 2025.
Reforço – Para conferir mais firmeza à estrutura, são aplicados fios de arame nas figuras.
Queima – As placas então são separadas para a secagem e levadas para o processo de queima no fogão à lenha por um período de 12 horas.
Pintura – Após o período de queima, as peças são novamente separadas para receber a pintura. Antes de iniciar a etapa, mistura-se tinta látex da cor branca a alguns corantes, resultando em variedades de cores. Feito isso, as peças são pintadas e separadas para secagem.
A Matriarca pintando uma de suas obras. Foto: Divulgação / Instagram @arte.embarro, 2021.
Vida no sertão trouxe resiliência e a criatividade necessária para a criação das obras
Da esquerda para a direita Socorro, Carol, Dora, Aucilene. Foto: Divulgação / Rotas Ceart.
O clima semiárido do sertão nordestino já ressalta em si uma narrativa que revela não só a beleza peculiar da vegetação, mas também os hábitos, crenças populares e costumes locais. Em Juazeiro do Norte, no coração de Pernambuco, a Família Cândido traz enraizada em sua história a vivência no agreste, bem como os desafios que tiveram que enfrentar ao longo da vida. É do solo nordestino que muitas famílias extraem meios para prover o próprio sustento.
Obra Alimentando galinhas. Foto: Divulgação / Instagram @arte.embarro, 2023.
Seja na lavoura ou na agricultura, o contato com elementos da natureza trouxe oportunidades de gerar renda para a comunidade. Para a família Cândido, a realidade não foi diferente, mas graças à criatividade e ao dom do fazer manual da matriarca Maria Cândido, não só transformou a realidade de sua família e seus herdeiros na região de Brejo Seco, como também criou um legado e relevante contribuição para a economia local e para o artesanato.
Admirada no Brasil e no mundo, a arte dos Cândidos ganha destaque em exposições e centros comerciais
Obras de Maria de Lourdes Cândido expostas no Centro de Folclore e Cultura Popular do Ceará. Foto: Divulgação / Mapa Cultural do Ceará, 2019.
A singularidade das obras da mestra e sua importância para o artesanato brasileiro a fizeram receber honrarias e títulos. Em 2004, foi considerada Tesouro Vivo da Cultura Tradicional Popular do Ceará. A Universidade Estadual do Ceará concedeu-lhe o título de Notório Saber em Cultura Popular. No ano de 2013, foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura.
No ano de 2024, a Secretaria de Cultura de Juazeiro do Norte inaugurou o Centro Municipal de Artesanato Mestra Maria de Lourdes Cândido em homenagem à matriarca pela importante contribuição à economia local, ao setor e pelo legado que deixou para a cultura popular brasileira. O espaço realiza iniciativas de fomento ao artesanato, oferecendo apoio aos artesãos da região, oficinas, bem como comercialização das peças produzidas.
As artes da Família Cândido são comercializadas em portais e lojas de e-commerce e encontradas também em espaços físicos, como no Centro de Cultura Popular Mestre Noza em Juazeiro, assim como em exposições e eventos nacionais e internacionais. As peças conquistaram admiradores do artesanato brasileiro no exterior, sendo expostas em mostras na Europa e nas Américas. Além de manter clientela em várias regiões do país, a família expõe e vende suas obras em galerias em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, dentre outras localidades.
Quadrilha junina. Foto: Divulgação / Instagram @arte.embarro, 2023.
Para saber mais, acesse o link abaixo e assista ao documentário sobre a Família Cândido e sua relevância no artesanato brasileiro. https://www.youtube.com/watch?v=C8Ukgp0hS3Q

